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Quando
se escuta notícias como a do adolescente que matou
o casal de namorados Liana e Felipe (SP, novembro/2003), ou
de outros adolescentes que por motivos banais matam pessoas
nas ruas ou matam os pais (SP, outubro 2002) e várias
outras notícias de crimes praticados por adolescentes,
fica-se, no início, espantado com tanta barbárie.
Depois da perplexidade inicial, chega uma sensação
de que alguma coisa de urgente precisa ser feita pela sociedade
para mudar essa triste realidade, objetivando a existência,
realmente, de uma sociedade "civilizada", onde todos
tenham a disciplina, a consciência e a responsabilidade
de obedecer as leis que foram criadas para que se possa viver
com outros seres humanos, criando-se assim, aquelas condições
ideais de convivência harmônica e saudável.
Alguns
setores da sociedade gostariam que certas leis fossem mais
rígidas nas punições, que fosse diminuida
a maioridade penal para se poder punir exemplarmente os adolescentes
criminosos, evitando que tenham a impunidade como estímulo
para cometerem novos atos criminosos ou que fiquem pouco tempo
nas instituições de recuperação,
voltando às ruas com mais raiva de tudo e todos e mais
experientes em atos criminosos, tendo aprendido com outros
mais velhos nessas instituições.
Muitos almejam mudanças, em especial na Lei Federal
8.069 de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente,
lei que protege e ampara esses seres em desenvolvimento (mas
que apesar da pouca idade já sabem matar selvagemente!),
lei que substituiu o autoritarismo do antigo Código
de Menores e a Política Nacional do Bem-Estar do menor
que vigorou no Brasil até 1990. Esses setores são
os "saudosistas" em poderem punir as crianças
e os jovens por crimes ou outros atos infracionais, mas sentem-se
tolhidos pela própria sociedade que estabeleceu por
essa Lei, que a criança e o adolescente não
podem ser assim reprimidos e punidos. Eles consideram que
os crimes praticados por adolescentes estão mostrando
que está havendo um "desastre educacional"
com o estilo brando e permissivo nas atitudes para com as
novas gerações. Consideram que seria benéfico
para todos, se voltasse aquele estilo de educação
com disciplina que existiu no passado.
Dentre
os "saudosistas", há pais e educadores que
ficam com saudade de poderem agir com mais rigor com os jovens,
como era feito antes da vigência do Estatuto. Essa saudade
ocorre quando não conseguem mais fazer as crianças
e os jovens terem um comportamento adequado e disciplinado.
Ou quando constatam que seus comportamentos revelam desinteresse
pela aprendizagem, apatia ou agressividade, envolvendo-se
com drogas para preencherem o vazio que sentem e a insatisfação
causada pelos valores distorcidos de somente "terem"
cada vez mais, em detrimento de "serem" cada vez
melhores pessoas. Ou ainda, quando apresentam falta de respeito
e consideração aos mais velhos, falta de responsabilidade
em suas atividades, falta de solidariedade e cooperação,
falta de controle das reações emocionais (raiva,
em especial), impulsividade, etc.
Esses
saudosistas querem fazer alguma coisa para mudar, mas ficam
tolhidos em suas ações educativas pelo Estatuto
da Criança e do Adolescente que em seu artigo 5, por
exemplo, expressa que "Nenhuma criança ou adolescente
será objeto de qualquer forma de negligência,
discriminação, exploração, violência,
crueldade ou opressão...", e no artigo 15 diz
que "A criança e o adolescente têm direito
à liberdade, ao respeito e à dignidade como
pessoas humanas em processo de desenvolvimento...", complementado
pelo artigo 17 que afirma que "O direito ao respeito,
consiste na inviolabilidade da integridade física,
psíquica e moral da criança e do adolescente,
abrangendo a preservação da imagem, da identidade,
da autonomia, dos valores, idéias e crenças,
dos espaços e objetos pessoais". E o "golpe
final" contra a vontade dos saudosistas virem a ser mais
rigorosos com os mais jovens, está no artigo 18 desse
Estatuto: "É dever de todos velar pela dignidade
da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer
tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório
ou constrangedor".
Os
saudosistas sentem suas "mãos amarradas"
por esse Estatuto para poderem educar com mais rigor os jovens,
mas continuam a almejar aquela época passada, onde
as crianças e os adolescentes tinham mais consciência
e responsabilidade de cumprirem bem os seus deveres, dentre
outros, o de respeitar os mais velhos, tendo respeito pelos
pais e educadores. Esses "deveres" parecem estar
esquecidos pela educação permissiva, chamada
de "moderna" e foram, também, esquecidos
pelos legisladores do Estatuto que estabeleceram muitos "direitos",
mas esqueceram de nele colocar, bem especificados, os "deveres"
para que as crianças e os adolescentes também
tivessem os seus deveres como pessoas em desenvolvimento.
Deveres mínimos como cidadãos, como respeitar
os adultos, os pais, a família, os professores, a Escola,
a propriedade, e em especial, a VIDA dos outros. Certamente,
poderia haver mudanças significativas se o Estatuto
fosse modificado e nele fossem incluídos artigos estabelecendo
os "deveres" das crianças e dos jovens e
condições para os pais e educadores direcionarem
os jovens para o cumprimento, com responsabilidade, desses
deveres. Assim, os adultos ficariam felizes por terem esse
Estatuto do lado deles para poderem conscientizar e educar
as crianças e os adolescentes, mostrando a eles que
um cidadão não tem somente "direitos"
mas, muito especialmente, "deveres" para consigo
mesmo e para com a coletividade, levando-os a serem pessoas
mais responsáveis e conscientes, e tenham outros tipos
de comportamentos mais equilibrados.
Com
a vigência desse Estatuto, do jeito que está,
as crianças e os jovens somente serão lembrados
de que há "deveres" quando eles cometerem
algum "ato infracional" e acusados de violação
dos direitos à vida, ao patrimônio, à
integridade física forem atendidos pela Justiça
da Infância e da Juventude que ao analisar cada caso,
tomará as medidas necessárias, apesar de muitas
vidas já terem sido tiradas...
Assim, o adolescente ficará sabendo que se cometer
algum ato infracional, enfrentará a autoridade policial,
o Ministério Público e a autoridade judiciária.
Tomará ciência, também, que será
julgado por uma autoridade que de modo isento considerará
sua justificativa e examinará o seu comportamento dentro
das normas de convivência social e tomará as
medidas necessárias (Estatuto artigo 112), "seja
de advertência, obrigação de reparar o
dano, prestação de serviços à
comunidade, liberdade assistida, inserção em
regime de semiliberdade, internação em estabelecimento
educacional". Ou ainda (conforme artigo 101 do Estatuto),
"encaminhamento aos pais ou responsáveis, orientação,
apoio e acompanhamento temporários, matrícula
e freqüência obrigatória em estabelecimento
oficial de ensino fundamental, inclusão em programa
comunitário ou oficial de auxílio à família,
à criança e ao adolescente, requisição
de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico,
inclusão em programa oficial ou comunitário
de auxílio, orientação e tratamento a
alcoólatras e toxicômanos".
Todas
essas ações, dentre as que o Estatuto da Criança
e do Adolescente estabelece, são atitudes pedagógicas
para que o adolescente se conscientize da necessidade de agir
com responsabilidade, sendo capaz de exercer plenamente a
sua cidadania e possa vir a ter comportamentos disciplinados
e saudáveis que lhe permitam voltar a viver no convívio
com os outros seres humanos.
Mudanças,
no Estatuto, são necessárias. Mas, além
disso, outras mudanças estruturais na sociedade são
urgentes de serem feitas, dentre elas, por exemplo, preparar
melhor os jovens para um casamento responsável, sabendo
fazer um planejamento familiar (e não tendo filhos
"em penca", sem condições de criá-los),
sabendo educar melhor seus filhos, sendo realmente responsáveis
como pais.
A Psicologia já comprovou que é no ambiente
familiar que a criança evoluiu e aprende os primeiros
ensinamentos, internalizando aqueles aprendizados sobre regras
básicas do agir e conviver com os outros, os limites,
os valores, as atitudes culturais saudáveis, as atitudes
educacionais equilibradas, as posturas éticas e morais
e outras informações necessárias para
vir a ser um cidadão consciente e uma pessoa disciplinada
na sua dimensão individual, social, e quando adulta,
na vida profissional e de casal.
Se a família é tão importante para a
educação das novas gerações, por
que não são criados mecanismos legais para responsabilizar
mais os pais (além do que está no Novo Código
Civil Art. 1.566 - Deveres dos pais item IV - "sustento,
guarda e educação dos filhos" e alguns
artigos também no Estatuto da Criança e do Adolescente),
criando condições de apoio da sociedade, para
que as famílias venham a ter melhores informações
e condições de formar filhos com qualidades
humanas?
Além
da família, é preciso investir em instituições
que eduquem ou reeduquem, com qualidade, os jovens para serem
pessoas equilibradas, com postura cidadã responsável,
que possibilitem uma profissionalização em especial
aos jovens sem recursos para se desenvolverem, orientações
sobre sexo responsável e planejamento familiar evitando
gravidez em adolescentes que mal saíram das fraldas,
etc. Ações educativas para uma cidadania equilibrada
e responsável, é um objetivo que pode ajudar
a mudar a triste realidade de jovens sem preparo para a vida,
dando-lhes melhores condições para conviverem
em uma sociedade que almeja ser formada por pessoas com características
civilizadas.
Governos, legisladores, judiciário e outras instituições
precisam urgentemente fazer um esforço conjunto para
mudar o rumo da realidade que aí está e deixa
todo mundo apavorado e com a sensação de que
a cada dia fica mais difícil a convivência humana.
Se nada for feito de imediato, é melhor que cada cidadão
prepare o espírito para a volta daquele estágio
de "civilização" onde predominava
a barbárie humana, onde ninguém respeitava ninguém,
onde matar e morrer por causas banais era a coisa mais comum
do mundo. Muitos, de olhos arregalados, já constataram
e gritam por socorro, que isso não é futuro
não, já voltamos a esse estágio há
muito tempo... Apesar disso, você que é pai ou
educador, não desista de sua missão educativa!
Procure fazer bem a sua parte educativa com os mais jovens.
Ainda há esperança de mudar, para melhor, a
realidade...
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No site www.editora-opcao.com.br o escritor e psicólogo
Antonio de Andrade apresenta seus livros e artigos. Mais
informações como a deste artigo, nos seus
livros "Disciplina e a Educação para
a Cidadania" e "Criança Feliz, Adulto
Feliz". |
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Por 4 anos, em Lorena, SP, o autor foi membro do Conselho
Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente,
presidente do Conselho Municipal de Assistência
Social e Secretário Municipal do Desenvolvimento
Social. |
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