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Há
uma considerável lista de fatores que contribuem para os
problemas conjugais, que vão desde dificuldades financeiras
até a incompatibilidade de gênios. Entretanto, o que
será considerado aqui é a formação de
apego afetivo.
Desde bem pequenos os seres humanos têm a necessidade de cuidados
por parte de outrem. Durante o período de formação
da personalidade existem algumas circunstâncias fundamentais
a serem desenvolvidas. O vínculo afetivo é um elemento
primordial nesta categoria. Ele é básico. Do latim,
vinculum: atadura, laço, aquilo que une.
Estudos conceituam o vínculo afetivo como sendo fundamental
para as relações humanas. Alguns psicólogos
acreditam que deve ocorrer algum relacionamento logo no início
da vida da criança se quiser que ela forme, mais tarde, vínculos
significativos.
O que tem se tornado presente durante a estruturação
da personalidade infantil são os contatos superficiais, cuja
preocupação localiza-se em prover a criança
com alimentos, moradia e escola. Todavia, são insuficientes.
E, ainda, muitas mudanças geográficas e/ou trocas
constantes de cuidadores dificultam a formação do
vínculo.
Posteriormente, na vida adulta, muitos obstáculos nas relações
humanas relacionam-se a esta precariedade de vínculo. As
pessoas não conseguem perceber este tipo de deficiência
em seus relacionamentos. Focalizam os problemas em outras questões,
ou ainda, preferem nem tocar no assunto. Há casos em que
ignoram a possibilidade de lançar mão de uma psicoterapia.
Entretanto, perde-se a chance de resolver na causa os efeitos de
uma convivência difícil.
Nestes casos, especificamente, onde houve uma deficiência
na formação de vínculo na infância e
as decorrências comprometem os relacionamentos subseqüentes,
daremos o nome de Síndrome do Comportamento de Hospedagem
ou SCH.
No relacionamento de um casal onde há a presença da
SCH, quando entra na rotina da convivência, faz surgir um
novo tipo de comportamento. A pessoa age, inconscientemente, de
forma semelhante a um hóspede dentro de sua casa. Realiza
as suas atividades comuns. No entanto, a sua forma de ser apresenta
frieza, ocasionada pelo distanciamento. Aos poucos, vai agindo como
se estivesse hospedada na casa, cumprindo com alguns papéis
pertinentes, todavia, trata as questões, antes parcimoniosas,
de forma independente. Deixa as responsabilidades, sobretudo as
domésticas, para o outro cuidar. Onde havia uma atmosfera
de cordialidade e doçura, passa a existir um espectro de
isolamento e pesar.
O outro vai percebendo esta diferença e acaba por se sentir,
pouco a pouco, só. A sensação deste isolamento
origina-se na forma pela qual a ausência do vínculo
se manifesta nesta relação.
As discussões passam a existir com uma freqüência
crescente. Os conflitos podem surgir e avoluma-se no processo bola-de-neve.
A pouca consciência a respeito da SCH provoca a discórdia
entre o casal, atingindo quem estiver por perto nesta convivência,
via de regra, os filhos. Lembranças e cobranças de
como a vida conjugal era boa anteriormente são lançadas
no calor das discussões. Isto faz aquecer ainda mais o desentendimento.
Esta é uma situação estressante para o casal,
podendo levar os seus envolvidos à depressão e outros
males, além da separação.
Este comportamento reflete o quanto o seu portador, inconscientemente,
procura manter distância afetiva do outro para que não
haja envolvimento. Por se tratar de uma síndrome enraizada
na formação vincular faz-se necessária uma
avaliação diagnóstica. Além de indicar
tratamento através de profissional especializado nas relações
familiares, objetivando as mudanças terapêuticas necessárias.
Não raro, crê-se que a síndrome nasceu dentro
do relacionamento. Todavia, ela, apenas, foi desencadeada durante
o convívio. A pessoa não enxerga o problema já
antigo. É possível comparar relações
anteriores a atual e sentir que há algo semelhante nelas.
Contudo, é insuficiente para aceitar a síndrome e
o seu tratamento. O jogo de culpa é apenas um instrumento
para se defender, na tentativa de diminuir as péssimas sensações
diárias. De nada adianta. Só aproxima o casal da separação.
Separar, por sua vez, trás de volta o estado de isolamento
requerido pela síndrome.
Buscar ajuda especializada é o remédio para este mal.
Crer numa solução de poucos recursos como o esperar
o tempo como agente de mudanças é dar oportunidade
para que se instale a piora da SCH. Uma boa avaliação
psicológica pode dar novos rumos às vidas das pessoas
que pretendem o convívio.
Dialogar, e, entenda-se bem, conversar com o coração
aberto, oferece uma primeira abertura para se compreender a vida
do casal. Dar o primeiro passo pode modificar aquilo que já
era considerado algo inevitável, como a separação.
Há uma necessidade de crescimento por parte das pessoas envolvidas.
O grau de maturidade determinará o quanto se quer conviver
bem. Ambas as partes devem estar dispostas e comprometidas em participar
deste processo, apoiando-se.
Cuidar da questão, alterando o comportamento de hospedagem
para o de comprometimento afetivo em conjunto permite existir a
unidade fundamental das relações conjugais: a dependência
equilibrada e necessária do vínculo. Vale a pena lutar
com vontade, ajuda e conhecimento. |