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Roberto Athayde 

 

A Hipocrisia Moderna

 A cada renovação da infâmia que caracteriza a guerra entre as autoridades e o crime organizado, o nosso primeiro pensamento deveria ser para a legislação que permite esse lamentável estado de coisas. Está sobejamente demonstrado que as legislações proibitivas vigentes no mundo inteiro, ao colocarem, através da pressão inexorável do mercado, bilhões de dólares diretamente no bolso do crime organizado, não apenas institucionalizam um estado perene de corrupção mas patrocinam uma guerra civil que diariamente derrama o sangue da população. É bem provável que, assim medido pragmaticamente por suas conseqüências, o atual conjunto de leis seja o mais anti-social jamais presenciado pela História.

 Que o contrato social coibitivo com força de lei só seja legítimo para limitar a ação transitiva entre as pessoas e nunca para gerir seu estilo de vida ou determinar suas opções no difícil equilíbrio entre riscos e prazeres, já é de si um argumento forte. Que ao se tratarem as populações adultas como se fossem infantis e incapazes de avaliar os perigos que correm comete-se um erro de senso comum, é também um argumento de peso para as pessoas de bom senso. Entretanto, o argumento mais forte é o sangue que corre diariamente no mundo inteiro, das favelas do Rio de Janeiro aos inferninhos de Tóquio, numa guerra inglória apresentada às populações como se fosse uma fatalidade, mas que, na realidade, decorre de uma legislação anti-social.

 O código penal, com sua definição de atos arraigadamente corriqueiros como se fossem enormidades, se exposto a toda e qualquer aglomeração de jovens, provoca risos hoje como há trinta anos induzia as gargalhadas de seus pais, os hippies, os baby boomers, agora completamente assimilados ao sistema. Mas a lei deveria ser sagrada porque é ela que guarda a melhor possibilidade de depuração para os valores da civilização. Fora dela, seria contar com a melhoria espontânea da própria natureza humana, projeto que, se não for ingênuo, é decerto lentíssimo e de difícil monitoração. O aspecto risível de certos segmentos da legislação vigente no mundo é gravíssimo também porque contamina todo o resto da legislação perante a juventude, tornando ridículo o próprio contrato social.

 Como analisar a insensibilidade diante de tamanhas evidências e de tamanho ônus sofrido pelo público? É que os bilhões com que a legislação contempla o crime organizado, encarecendo todos os vícios, têm sua contrapartida nos bilhões investidos pelo tesouro público para combatê-lo. Esses últimos não saem do bolso da categoria que vai de  curiosos e sibaritas aos casos clínicos de dependência física e psicológica: saem do bolso da digníssima classe que trabalha, paga imposto, a imensa tração humana da economia. Somos nós, o povo contribuinte, que pagamos as autoridades para encenarem uma guerra em que somente seus protagonistas acreditam. Escorchado duplamente de seus bilhões, o rebanho de zebras recebe no peito a constante saraivada de balas perdidas e prossegue, nervosamente, inconscientemente, pastando sua triste seara de insegurança. 

Ernest Renan, ecoado por Anatole France, disse que a humanidade ‘sempre, embora lentamente, realiza os sonhos dos sábios’. Quando Torquemada, ele próprio de origem judaica, se apoiava em leis exigindo pureza de sangue para extorquir a vida e o dinheiro dos judeus em benefício dos reis da Espanha, estava prejudicando apenas uma fatia da população; quando Hitler institucionalizou o extermínio na Alemanha também pretendeu preservar a maioria. O que vemos nas últimas décadas é um conjunto de leis que fulmina a totalidade da população fazendo-a verter seus bilhões para os dois lados de uma guerra demonstradamente interminável em que ela própria tem a segurança e a vida a perder mas não tem absolutamente nada a ganhar. Acaso teria se houvesse mérito em transformar o que deveria ser um diagnóstico médico numa guerra civil.

Os sábios de Renan e Anatole estão cansados de dizer e esperar. Já que legisladores e autoridades, encantados de protagonizar uma guerra, se locupletam dela sem demonstrar sensibilidade para o que é anti-social, só nos resta apelar para os psicólogos e os economistas e também para quantos estejam dispostos a pensar de boa fé o destino da humanidade no século que desperta: que usem esse farto e patético material no projeto de definir e oxalá combater a hipocrisia moderna.

 

  • Roberto Athayde é Escritor, Autor e Diretor Teatral - Autor de Apareceu a Margarida, a tresloucada professora criada por Marília Pêra.

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