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Roberto Athayde |
| Nós,
Filisteus Quando
um bom burguês pondera e resolve o programa para sexta-feira ou sábado
à noite, provavelmente está vivendo o momento mais aventuroso da sua
semana. Vive uma rotina de trabalho das nove às seis, padece como tutti
quanti os horrores universais da sociedade massificada e, em nosso país,
paga o ônus adicional do custo-Brasil traduzido em insegurança,
canibalismo ingênito e o muito surrealismo fora das galerias de arte.
Entretanto, o escape que se faz mister, pelo que foi dito acima, não é
necessariamente para a cultura digestiva, >
mas sim para entretenimento que relaxe os grilhões da rotina, que liberte
a cabeça da faina inerente de sobreviver, uma aventura enfim, que pode
ser de qualquer tipo, desde o mais frívolo e vulgar até os píncaros da
grande e pura Arte. Por
outro lado, estamos nós, os produtores culturais (em cuja categoria
incluo não apenas o artista, mas todos aqueles que viabilizam o pulsar da
vida cultural) ponderando também o momento em que decidimos que peça
escrever, que filme produzir, que grupo escolher para a ocupação dos
espaços públicos, que artista prestigiar e sobretudo que artista ser.
Este nosso momento não é, como o do bom burguês, o momento mais
aventuroso da nossa semana. Muito pelo contrário. É o momento mais sério
do nosso ano, é a hora de garantir nossa sobrevivência. Ele é, em suma,
a ocasião de prover o leite das crianças. Existe aí uma dicotomia de ricas conseqüências e um ponto nevrálgico para refletir-se sobre as mazelas da cultura nacional. Enquanto o consumidor pondera e opta no momento mais livre e fantasioso a que tem acesso, o produtor opta e pondera em sua hora mais grave e calculista. Acredito que a famosa imprevisibilidade do sucesso está fortemente vinculada a este paradoxo. O cacoete de nivelar para baixo com o propósito de garantir o retorno de um investimento cultural constitui dois vícios intrínsecos: um deles assaz óbvio e o outro sutil o bastante para merecer elaboração cuidadosa. O óbvio, que ulula das telinhas aos telões, dos palcos mais sofisticados até a grande ribalta da imprensa escrita, é que o que é artificialmente nivelado para baixo resulta de qualidade inferior. O outro vício, o sutil, é que freqüentíssimamente tais empreitadas não logram o sucesso pelo qual se sacrificaram as melhores qualidades de seus autores, mas naufragam num mar de mediocridade encapelado pela tormenta do fracasso comercial. A vulgaridade está muito longe de ser uma garantia de sucesso, enquanto, no outro extremo, a pureza e o rigor das intenções artísticas não condenam necessariamente o produtor nem ao elitismo nem ao pedantismo nem ao malogro empresarial. A
meu ver, a razão mais tangível para esta defasagem (e a conseqüente e
excessiva imprevisibilidade) do retorno obtido pela empresagem cultural é
o não-atinar com a dicotomia das motivações que procurei expor acima.
É o produtor não entender que o público deseja uma aventura que
atravesse suas fronteiras existenciais (de todo gênero, a do espírito, a
do corpo, a reflexiva, a gregária, a eufórica, a deprimente, a engraçada,
a dogmática, a curiosa) enquanto ele próprio, produtor, cuja vida já
tende a ser muito menos monótona que a da maioria dos consumidores,
resolve caprichar num prudente conservantismo, pensando que assim garante
sua sobrevivência e mais o leite das crianças. O que tem que ser
compreendido é o seguinte: é bem possível que nós produtores culturais
sejamos pessoas, no cômputo geral, muito mais abertas e progressistas que
a massa dos consumidores, mas quando decidimos nossa produção, adotamos
um filistinismo nosso que erradamente atribuimos a eles. Eles, ao contrário,
por mais castrados e robotizados que sejam durante a semana inteira,
quando chega a sexta-feira se revestem-se de uma aura de comovente e
soberana Liberdade. E escolhem o programa cultural não no conformismo
inevitável prevalecente na aldeia global massificada, mas sim na nobre
arbitrariedade do seu gosto privado. O público abre o serviço completo
de um jornal e resolve fazer o que lhe dá na veneta. Muito
se deblatera que o distinto público não gosta de pensar. Mas no ser
humano o pensamento está imiscuido em todas as funções. Se a burrice não
ponderasse nem julgasse, se em suma não refletisse de todo, seria muito
menos nociva do que é. O problema é pensar mal e errado e gostar disso
com a autocomplacência das bitolas bem sulcadas na terra dadivosa do hábito.
Por outro lado, nós, produtores culturais, deveríamos saber que a arte
mais elevada, a que se aprofunda e adquire durabilidade e universalidade,
sempre fala simultaneamente à inteligência e ao coração. Ela
transcende o problema do elitismo porque tem níveis múltiplos de leitura
e sempre pode atravessar os vários patamares educacionais. Recentemente,
na companhia de um querido amigo diretor de marketing de empresa de porte
médio, fiz uma incursão ao subúrbio carioca de Brás de Pina para
visitar uma mãe-de-santo afamada por sua clarividência. Obtemperando uma
indicação de terceiros, sabíamos que essa D. Sibila não apenas
desvendava coisas concernentes ao passado e ao futuro, mas tinha o raríssimo
dote de esclarecer o presente. -
O que vamos perguntar a ela? - indagou de mim o diretor de marketing
quando já íamos na segunda metade do túnel Rebouças para ganhar a Zona
Norte. -
É melhor nos concentrarmos em nossas dúvidas mais urgentes. Se ela for
prolixa, talvez não tenhamos chance de fazer muita pergunta.
-
Qual é sua dúvida mais urgente? É se vai conseguir patrocínio para sua
última peça? - quis saber o executivo. -
Não. É qual das minhas 23 peças poderia ser mais merecedora de apoio na
cabeça dos diretores de marketing. E
acrescentei para o meu interlocutor: -
E você? O que pretende saber da pitonisa de Brás de Pina? O seu orçamento
de marketing para 2002? -
Não. Eu vou pedir para saber se eu vou conseguir realizar o meu sonho
mais recôndito. -
E qual é o seu sonho mais recôndito? -
Escrever uma peça de teatro. - confessou o diretor de marketing. Quando
finalmente adentramos o barraco de D. Sibila, depois de muito zigue-zague,
pois nos perdemos nos meandros da grande sub-urbe carioca, muito nos
espantou o fato de a encontrarmos sozinha e assistindo a um programa de
televisão. Era idosa tal como imaginávamos, mas não tinha a mínima
aparência veneranda nem falava um jargão cabalístico de qualquer
denominação identificável, muito menos o de uma mãe-de-santo
tradicional. Baixou o volume excessivo do televisor, serviu-nos
espontaneamente uma Pepsi-Cola Diet e pensou alto, como se respondesse a
perguntas que sequer tivemos oportunidade fazer: -
Vocês são muito enxeridos de imaginar que podem botar a culpa seja no próprio
sistema ou nas pessoas que ocupam posições de mando. Eles são o que são
e não há que mudar as essências, mas sim as relações entre eles através
do conhecimento recíproco. É a própria solidez estrutural do sistema
que exige total liberdade nas artes e sua renovação. O consumidor é
efetivamente rei e tem que sê-lo nas imensas comunidades modernas com sua
insopitável exigência de democracia; mas no tocante às artes no Brasil,
o consumidor ainda não cingiu sua legítima corôa, graças ao pungente
filistinismo de vocês, autores de teatro e diretores de marketing. Vocês
deveriam estar faturando os gordos e suculentos lucros de uma vontade brasílica
de ver e saber, que irmana tupis e tapuias enquanto consumidores
culturais. Só há um único país mais interessante que o Brasil: a Indonésia,
mas não pode competir conosco culturalmente porque fala centenas de línguas,
carece da nossa sublimada capacidade de aliciamento cultural, e falta-lhe
o fermento da autocuriosidade gerada por uma similitude que só o dinheiro
desnivela. Quando as camadas de um grande país se desnivelam apenas pelo
poder aquisitivo e pelo grau de instrução, como no Brasil, isso
significa que podem rir das mesmas piadas e por isso podem adquirir uma
verticalidade de movimento condizente a uma possível viabilização da
justiça. Se a audácia do consumidor, que só ocorre no fim de semana,
for devidamente satisfeita por vocês, produtores culturais, não apenas
os borderôs serão mais avantajados como tais progressos eventualmente
propiciarão escolhas menos obtusas nos dias de eleição. D.
Sibila fez uma pausa. Eu e meu amigo diretor de marketing, estupefatos e
eletrizados por sua clarividência, demos tratos à bola para ver se
conseguíamos perguntar algo inteligente. Mas logo a pitonisa de Brás de
Pina prosseguiu: ‘Sejam
tão vulneráveis ao novo quanto os consumidores realmente são. Imaginem
o sucesso que não faria uma nova marca de sabão em pó que fosse
sinceramente diferente das outras! Os consumidores culturais abençoarão
vocês com vitórias e derrotas, mas sempre gloriosas. Não nivelem para
baixo porque o próprio consumidor não quer! Não sejam chatos, não
sejam filisteus e agora caiam fora do meu barraco!’ A
consulta era gratuita e por isso o corte súbito de D. Sibila não podia
ser contestado. Fiquei interdito, incapaz de sequer tartamudear um
agradecimento, enquanto o meu amigo diretor de marketing percebeu que a
pitonisa estava louca para aumentar o volume da televisão. Ele não se
conteve e, já de pé, quando nos encontrávamos prestes à nossa retirada
da residência, indagou dela
nesses termos: -
Por que a Sra. assiste ao programa do Ratinho? -
Sou a única pessoa em Brás de Pina com sabedoria suficiente para suportá-lo.
Minhas filhas, meus netos, meus vizinhos, todos já desertaram para outras
formas de entretenimento. Como vocês vêem, estou absolutamente sozinha. Saímos
ainda zonzos pelo fulgor da lucidez de D. Sibila e, novamente perdidos na
megalópole, tentamos reinserir o diálogo: -
De onde será que ela tirou tudo isso? - perguntou o diretor de marketing. -
Acho que ela quer mais cooperação entre os produtores culturais para que
as artes fiquem mais interessantes. -
Como assim? -
Como diz o folclore, ‘tu
me ensina a fazer renda que
eu te ensino a namorar’. Voltei
ao Leblon pensando em abrir um curso de dramaturgia para diretores de
marketing ou em pedir-lhes que me façam um curso de avaliação mercadológica
para as artes. O Brasil já elaborou bastante a naturalidade do
canibalismo com que estuporamos o Ocidente desde o século XVI. A clarividência
da pitonisa deixou-me desnorteado, a um
tempo em Brás de Pina, mas sem saber se estava em Harvard, Oxford ou num
Colóquio de Cerisy. Nós, filisteus,
temos a faca e o queijo na mão e nada de produzirmos o sanduíche que
poderia desbancar o McDonald.
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