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Meu nome é Wilson, 48 anos,
casado há 26, 3 filhos, 2 netos e moro em Sumaré,
próximo a Campinas. Minha doença manifestou-se aos
45 anos. Nessa época, minha vida era estafante e sem hábitos
corretos quanto à alimentação e repouso.
Em
junho de 99 fui acometido por um desânimo. Trabalhava algumas
horas e em seguida, deitava-me o que, com o passar do tempo, as
horas produtivas reduziram drasticamente. A febre manifestou-se
e passou a ser diária acompanhada de intensa sudorese noturna.
Com isso, deixei de compartilhar a cama com minha esposa, passando
a dormir num colchão ao lado. Eram seis trocas de camisetas
e lençóis para controlar o suor abundante e mesmo
assim, não fui ao médico. O emagrecimento ficou evidente
e já não ficava mais sem camisa e evitava trocar-me
diante dos meus filhos. Evitava minha imagem refletida no espelho
e aprendi a fazer barba sem usá-lo.
Trabalhava
com oficina eletrônica mas evitava atendimento em domicílio.
Evitava ao máximo sair à rua e cortava o cabelo em
casa, com uma amiga cabeleireira. Eu tinha um gânglio, no
lado esquerdo do abdome, facilmente palpável, tal qual uma
banana nanica. Apesar do desânimo e das adversidades, jamais
pensei em morrer por causa da doença. A esposa e filhos que
tenho me davam a certeza de ter sido agraciado por Deus e total
amparo por parte deles. Mesmo apresentando todos estes sintomas,
não me automediquei, pois não tinha o hábito.
Continuava trabalhando, porém em um ritmo muito lento, contrário
ao meu normal, pois sempre fui muito dinâmico, ansioso, intolerante,
apressado e chato.
Uma
prima médica veio visitar-me, sem saber que eu estava doente,
mas ao ver me naquele estado, convidou-me para fazer uns exames.
Despedi-me da esposa, os três filhos e a neta. Antes, sem
que eles percebessem, tinha me despedido de minhas duas cachorras,
da minha oficina, da minha churrasqueira, das minhas coisas, da
minha casa. Senti, pela primeira vez, uma sensação
esquisita ao sair de casa para ir até o hospital, sem saber
se voltaria. Fui internado, pela primeira vez, num hospital a 60
Km de casa.
Fiquei
sozinho no quarto e sem acompanhante por uma semana até que
os exames se concluíssem.
Deitado em um leito de hospital, não são as picadas
das injeções, as reações aos medicamentos
e as dores da doença que machucam, o que fere é a
mistura em nossa cabeça e alma, da saudade de nossa casa,
de nossos entes queridos, dos nossos hábitos e das nossas
coisinhas, de ter esperanças mesmo com um desânimo
físico absurdo, de tentar sonhar e não conseguir,
conviver com a morte, ignorando-a, ter vontade de chorar e não
ter lágrimas, e pensar que as pessoas que o amam estão
sofrendo. Não faço parte de nenhuma religião
mas acredito em Deus. Pensava comigo
mesmo:
"Deus
nunca me abandonou, e não é no momento mais difícil
de
minha vida, que Ele vai me abandonar."
No
último dia de internação, fui encaminhado para
biópsia do gânglio na
virilha esquerda e tive alta no dia seguinte. Após uma semana,
o resultado da biópsia: LINFOMA.
A minha
última pergunta: "Como se trata este tipo de doença?"
Foi
a frase mais horrível que ouvi: "Trata-se com quimioterapia."
Nesse
momento agradeci ao meu desânimo físico absurdo pois
poupou-me de chorar, não tinha forças nem para isso,
mas fiquei muito triste e adiei os meus sonhos e projetos. Nesse
período, já não trabalhava mais em minha oficina
eletrônica, fazia pequenos reparos e apesar da esposa e filha
trabalharem, a maior renda ainda era proveniente do meu trabalho.
Começamos a depender da ajuda financeira de alguns cunhados
e cestas básicas de amigos mais próximos.
Tentei
esconder a doença, mas não tinha como esconder algo
tão devastador. Temia os comentários pejorativos,
inoportunos e desumanos de pessoas insensíveis. Nesse difícil
momento em minha vida, muitos amigos simplesmente sumiram, escafederam-se,
outros ficaram totalmente inertes, alheios à
situação, mas surgiram outros, pessoas que me surpreenderam
com suas atitudes humanitárias. Os amiguinhos dos meus filhos
tornaram-se meus amigos também, aliados numa batalha comum.
Fui
encaminhado ao Hemocentro da UNICAMP, e dei os primeiros passos
numa estrada que a cada dia se estreitaria mais, onde sempre visualizei
a felicidade no horizonte, distante mas não inatingível.
Após exames mais complexos, mielograma e coleta do material,
veio o diagnóstico mais específico: Linfoma não
Hodgkin agressivo. Iniciei o tratamento, fazendo duas transfusões
de sangue.
Ao
voltar para casa, presenciei a primeira alegria em meio a uma doença
tão devastadora: não tive sudorese noturna! Na consulta
seguinte, receitaram-me umas 6 medicações, algumas
caríssimas, dentre elas FLUCONAZOL e CIPROFLOXACIN. Receitaram-me
um remédio que milagrosamente eliminou minha febre, aquela
que me acompanhou durante meses, 20 horas por dia, estava aniquilada.
Fui
para minha primeira quimioterapia temendo as famosas reações.
Após tomá-la, já em minha casa, a ansiedade
se fazia presente em todos nós. A reação veio
em horas. Fui levado às pressas para a UNICAMP e dei entrada
com o quadro de alucinação e confusão mental.
Acordei em um leito da Hematologia, após quatro dias de total
inconsciência.
Devido
à quimioterapia, os gânglios presentes no abdome reagiram
bem, ou seja, "dissolveram-se" quase todos, e toda aquela
massa líquida fluiu para os rins que ficou impossibilitado
de expelir toda aquela carga tóxica. Quase tive parada total
dos rins. Nesse período, recebi a proposta de fazer o transplante
de medula óssea na própria UNICAMP. Já estava
no protocolo de transplante então faria mais cinco quimioterapias,
uma por semana. Depois faria mais duas quimio internado, uma delas
para coleta de células (Aféreses) que seriam guardadas
para o meu transplante futuro, autólogo, ou seja , não
precisaria de doador, usariam o meu próprio sangue.
Nas
últimas idas ao Hemocentro, minhas pernas estavam muito fracas,
e na maioria das vezes era conduzido de cadeira de rodas pelas mãos
da minha esposa. Eu não lia jornais, estava totalmente desatualizado,
não procurava conhecer minha doença através
de livros ou Internet, o meu mundo era outro, o da minha cura. Fiquei
aguardando a convocação para o transplante. Eu estava
muito bem, já não estava tão pálido,
tinha parado com os medicamentos. Meus cabelos já estavam
normais.
Fui
convocado em Agosto/2000 para fazer o transplante. Despedi-me da
minha esposa e dos meus filhos com o coração apertado.
Não dá para descrever o que sentimos, quando saímos
de nossa casa, sem saber se voltaremos. Olhei o portão de
casa até perdê-lo de vista.
Fiquei
confinado em um quarto, com direito de ir apenas até o banheiro,
nem no corredor eu podia ir, visitas rápidas, limitadas e
restritas. Quando saia do quarto para fazer algum exame, era montado
todo um aparato especial e durante a madrugada. Não usava
nada que viesse de fora, nem
alimentos , roupas, toalhas, nada. Durante as visitas esforçava-me
para transparecer algo positivo para minha família, mas me
sentia aliviado quando acabava o horário de visitas. Eu não
tinha condições físicas nem psicológicas
para isso.
No
dia seguinte, já tomaria a primeira quimioterapia do transplante
que, no total, eram seis, de duas horas cada, duas vezes ao dia.
Tomei-as sem intercorrências. Chegou a tão esperada
hora, já estava ali há 11 dias, faria o transplante
de medula óssea, antes, porém, avisei minha família,
através do celular. Uma enfermeira conectou-me uma bolsa
de sangue no cateter, que era o meu próprio sangue colhido
na Aféreses, conforme já mencionado.
Terminadas
as seis bolsas de sangue, liguei novamente para minha família
e contei a novidade. Depois dormi como uma pedra, pois na noite
anterior a ansiedade havia roubado meu o sono. Isso foi no dia 11
de agosto de 2000, o meu dia 0 (zero), a partir daí eu estava
renascendo.
Nasci
novamente. Sabia que, tão logo a "medula pegasse"
eu teria alta. No 23º. dia, deram-me a notícia que teria
alta naquele mesmo dia. Imediatamente, liguei para casa e chorando,
comuniquei minha filha. Não acreditava, nesses 23 dias não
tive mucosite, diarréia, hemorróidas, problemas respiratórios,
nada, nenhuma intercorrência. Depois de muito tempo, voltei
a sorrir. Em 19 de novembro de 2000, completei os 100 dias de resguardo.
Depois do centésimo dia, vida normal, sem medicamentos ou
cuidados especiais, apenas fazendo exames periódicos, pois
o linfoma pode voltar em até dez anos. Hoje vivo feliz com
minha família.
Escrevi
um livro de apoio aos pacientes com c... onde narro toda a minha
trajetória, desde os primeiros sintomas até o pós-transplante
de medula óssea, com muitas dicas aos pacientes e familiares.
Trato o assunto seriamente, mas faço inserções
de situações engraçadas que ocorreram
comigo durante todo esses dezoito meses de enfermidade. Se eu lesse
um livro desse porte no período que estive doente, teria
me poupado de muitas angústias e incertezas.
Esse
meu livro pode ser baixado (download) gratuitamente na minha home
page: www.livroimpacto.hpg.com.br
Após
essa experiência, fiquei mais disciplinado nos horários
(trabalho, alimentação e repouso). Minha família
está mais compactada. Estou fazendo um trabalho muito gratificante,
apoiando pacientes com c... e seus familiares, via Internet.
Mas
no fundo, eu continuo o mesmo, trabalhando, amando e sonhando intensamente.
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