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Christiane Soares Itabaiana |
| O Mito da Monogamia
"Há duas formas de se enganar:
A grande maioria das pessoas possui crenças fortemente arraigadas, e uma delas é o mito de um relacionamento monogâmico, ideal do amor romântico. Nossa sociedade, familiares e amigos, por um lado, apoiam essa crença, que é visivelmente percebida no peso da linguagem usada para definir uma situação "não-monogâmica" dentro de um relacionamento com compromisso (traição, adultério, infidelidade...). Os adjetivos usados, de alguma forma, também contribuem para vitimar ou ridicularizar os parceiros ("chifrudo", "corno", panaca, bobo...ou, ainda, "puta", "galinha", vadia...). Mas, hipocritamente, através de uma educação machista que estabelece papéis pré-determinados para homens e mulheres, estímulos da mídia na propaganda e em novelas, onde as atitudes tomadas geralmente não têm maiores conseqüências e são solucionadas de forma "mágica", a ênfase parece estar exatamente no oposto. Amar alguém e/ou resolver ter um relacionamento que envolva um compromisso com um parceiro(a) não é garantia de que nunca mais se sentirá atração por outra pessoa. A maneira como cada um reagirá a esta atração tem a ver com sua história pessoal, educação e padrões morais e religiosos aprendidos. Aceitar a atração como algo humano e usá-la como uma fantasia na relação é até lúdico e saudável. Quantos casais já não brincaram muitas vezes de chamar um ao outro de personagens de filmes ou novelas? O quadro reforçado em nosso contexto social é o de sermos desonestos com nossos próprios sentimentos (sem falar em outras áreas), pois, ao evitar o confronto, não temos que assumir todas as conseqüências que implica ser honesto e coerente com o que se sente. Ao aceitar a responsabilidade pela dor do companheiro, a pessoa fica vulnerável e prefere se sentir culpada a ter que enfrentar, muitas vezes, cobranças familiares e reações emocionais do(a) companheiro(a). Fugir das próprias emoções gera uma espécie estranha de sigilo que parece ser apoiada por todos de maneira mais estranha ainda. O parceiro(a) que percebe sinais de alteração no relacionamento evita abordar o assunto. Está ali, bem diante dele(a), um(a) parceiro(a) mais distante, mais preocupado(a) com trabalho, mais ligado(a) à TV ou ao computador do que o comum, menos acessível emocionalmente, menos envolvido(a) em atividades comuns, mais ausente de casa, mais envolvido(a) com os filhos, mais interessado em experimentar coisas novas sexualmente do que antes, menos interessado(a) em sexo do que antes, etc... É claro! Caso a dúvida seja confirmada, o que fazer com todos os sentimentos que surgirão? Culpar a si mesmo? O outro? O terceiro elemento? A situação econômica? Sem contar os sentimentos de vergonha, desprezo, baixa auto-estima que podem servir como elementos de pressão para tomar uma decisão quanto a manter ou não o relacionamento. Evitar temas que geram sentimentos com os quais não sabemos lidar parece ser a tônica em nossa sociedade. Evita-se falar sobre a morte, "brochadas" e dificuldades sexuais, o desespero de lidar com as questões financeiras, como e porque usar preservativos, o que fazer com a raiva, etc... Muitos de nós sabemos dos casos extraconjugais do vizinho, dos avós ou amigos, mas dificilmente os pais conversam com os filhos sobre como estes se sentem a respeito, ou o quanto é trabalhoso manter um relacionamento, o quanto é muitas vezes difícil agüentar o mal humor do outro, etc... O sigilo, como um vírus, se instala enfraquecendo a estrutura do relacionamento e se espalha por diversos setores, resultando num empobrecimento da relação ou num rompimento por vezes drástico, caso um dos parceiros venha a confirmar suas suspeitas. Nossa sociedade vive padrões de "certo" ou "errado", o que dispõe que ao "errado" cabe a punição e ao "certo" o papel de vítima ou herói, e, portanto, segundo o "código do sigilo", convém omitir. A crença de que existe certo ou errado sustenta outro mito, o da justiça (tema para outro artigo). Ser justo ou correto implica em se sentir superior ou melhor, adquirindo-se, assim, autoridade para controlar ou ditar regras ao outro, que "não sabe", "não pode" ou é "incapaz". Poder para manipular ou julgar o outro justifica um comportamento vingativo, pois, segundo essa lógica, tudo deve ser justo. Não saber lidar com determinados sentimentos e não admitir que não se tem recursos suficientes para lidar com eles é predestinar relacionamentos ao fracasso/esvaziamento e, consequentemente, "vender" às gerações seguintes o modelo falido de parceiros afetivamente distantes e consequentemente insatisfeitos. Contar ou não ao parceiro a respeito de um caso amoroso é uma decisão pessoal, mas enfrentar a questão da monogamia como algo que se deseja e como meta nos relacionamentos resulta em mudar a maneira como se lida com a culpa, o sigilo, o orgulho, a necessidade de obter ajuda e questionar valores e crenças "inquestionáveis". Não quero com isso estimular a exposição de casos
amorosos em programas de TV, como ridiculamente o fazem algumas emissoras, mas que se
discuta honestamente sobre sentimentos e a maneira com que cada indivíduo lida com eles,
sem a necessidade absurda de se colocar regras às emoções. Existe uma enorme diferença
entre se viver o mito do relacionamento monogâmico por imposição cultural,
religiosa ou familiar, e viver uma relação que sustenta a monogamia como
opção consciente dos parceiros por ser compensador. Desenvolver relacionamentos de
qualidade, onde a intimidade de expressão de afeto e sentimento do casal é autêntica,
favorecendo um relacionamento onde ambos se sintam realizados, deve ser o foco na conduta
de novos debates. |