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Christiane Soares Itabaiana 

 

A Pornografia do Envelhecer

 “Quem ensinasse os homens a morrer,
os ensinaria a viver” 
Montaigne

 

 Inúmeros artigos têm sido escritos sobre envelhecer, condições sociais impostas ao idoso, dados estatísticos que identificam o aumento da população de idosos frente à baixa taxa de natalidade, orientações médicas para uma velhice saudável, andropausa e menopausa, discriminação, etc.

 Envelhecer adquiriu um caráter pornográfico, virou tabu. Evita-se de todas as formas o confronto e, para tal, os recursos utilizados são os mais variados. Mas, na verdade, por mais paradoxal que possa parecer, a dificuldade para enfrentar e aceitar o velho e a morte está extremamente relacionada com a incapacidade para enfrentar e aceitar a vida.

 Por que é tão temida a velhice? Em todas as esferas (social, física, emocional…) a resposta para esta pergunta esbarra num ponto comum: a limitação que se associa à perda e à dependência. Teme-se o tornar-se limitado. Ora, mas o que é viver, senão estar num fluxo constante de limitação? A criança limita o bebê, o jovem limita a criança e assim por diante.

 A vida impõe situações que limitam e nos obrigam a fazer escolhas e quando se fazem escolhas, todas as outras opções ficam limitadas e são perdidas. Como é complicado perder! A grande dificuldade parece residir então no escolher.

 Escolhe-se não entrar em contato com as emoções e viver superficialmente, não sabendo a função do espinho na flor. O consumo excessivo é uma gritante evidência desta superficialidade. Escolhemos não admitir que somos limitados e, portanto, não admitimos a limitação do outro e muito menos a aproximação com ele/a, pois a limitação do outro denuncia a nossa. Escolhe-se sonhar sem os pés no chão e viver sem assumir responsabilidades, como se a natureza não fosse destruir e reaproveitar a semente que não vingou. Para tudo existe conseqüência!

 Escolhe-se dizer que se escolheu esta ou aquela profissão porque não se tinha escolha e esquece-se que assim mesmo foi feita uma escolha, num ato de coragem: a de não sucumbir no social.

 Viver é então formar uma história de sucessivas escolhas e envelhecer, neste contexto, não significa parar no tempo, mas ser agente e reagente de todas as mudanças culturais, sociais, históricas e pessoais em sua época. É não negar as dores que fazem parte de nossa história pessoal; é melhorar a auto-imagem através de escolhas conscientes.

Não quero com isso fazer apologia das desigualdades sociais presentes em nosso país nem deixar de lado uma questão tão importante. Se o velho é desrespeitado, assim também o é a criança no Nordeste árido quando é vendida para prostituição ou como mão-de-obra. Quero sim, enfatizar a necessidade de se viver atento aos nossos próprios preconceitos e conceitos.

A vida não é justa no que se refere a oferecer oportunidades idênticas a todos. Aliás, acho que o sonho utópico de todas as pessoas, é que a vida oferecesse um leque com todas as opções que se desejasse. Talvez aí dissessem que as oportunidades foram iguais. Tolinhos! Não haveria assim crescimento! Não haveria desafios nem barreiras a ultrapassar!

 Não nascemos sob as mesmas condições nem possuímos corpos iguais. É exatamente dessa diferença que devemos nos prevalecer. O preconceito é uma tentativa estúpida de acabar-se com a diferença. Tenta-se eliminar o outro porque ele é diferente. O diferente é ameaça ao que está estabelecido. Ora, mas viver não é estacionar, parar no tempo! Viver é estar em constante mudança, envelhecendo e morrendo a cada segundo. É acrescentar uma ruga pela dor e outra pelo amor.

 Você leitor, deve, à esta altura, estar se perguntando: "E a sexualidade do idoso?" Para responder à esta pergunta cito Erich Fromm em "A Arte de Amar" - "A felicidade sexual, e mesmo o conhecimento da chamada técnica sexual, é o resultado do amor." Amar virou algo obsoleto, incluído naquela pasta, pronta para ser deletado. Amar requer tempo, paciência, experiência, troca, olhares – para si e para o outro – assim como viver.

 Viver, amar, envelhecer e morrer são verbos presentes a cada instante na roda de escolhas, independente da idade cronológica que se tenha. A qualidade emprestada a cada um desses verbos será opção de cada um. 

Então? O que você quer ser quando envelhecer? O amanhã acaba de começar.


  • Christiane Soares Itabaiana é Psicóloga Clínica de adultos e adolescentes e Terapeuta Sexual pela
    SBRASH (Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana).

 

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