Muitos anos atrás, Maquiavel disse, em seu famoso livro,
O príncipe: "Não existe nada mais difícil
de fazer, nada mais perigoso de conduzir, ou de êxito mais
incerto do que tomar a iniciava de introduzir uma nova ordem de
coisas, porque a inovação tem inimigos em todos aqueles
que se têm saldo bem sob as condições antigas,
e defensoras não muito entusiásticos entre aqueles
que poderiam sair-se bem na nova ordem das coisas.
Esta afirmação profética exprime a essência
da principal fonte de resistência a descontinuidades estratégicas.
O FENÔMENO DA RESISTÊNCIA
Desde o advento da administração sistemática
da estratégia, a atenção dos praticantes e
dos teóricos tem-se concentrado em dois aspectos. O primeiro
deles é a lógica e a técnica de análise
estratégica (denominado elaboração de estratégias),
e o segundo aspecto é a concepção de um processo
sistemático (planejamento estratégico) por meio do
qual os administradores interagem e contribuem para a elaboração
de estratégias.
As recomendações propostas para o planejamento estratégico
apoiavam-se em três premissas:
A primeira era a de que 'pessoas razoáveis farão coisas
razoáveis', e que os administradores, portanto, sempre darão
boa acolhida a novas maneiras de pensar e cooperarão com
todo seu ânimo. No momento em que, na prática, o novo
pensamento estratégico defrontou com a "resistência
ao planejamento", tal fenômeno foi considerado urna aberração
temporária devida à ignorância, a ser removida
pelo apoio firme ao planejamento pela alta administração.
Como a empresa havia merecidamente adquirido uma reputação
de implantação de decisões, a segunda premissa
era a de que o problema básico, na área de estratégia,
consistia na tomada das decisões corretas e que os sistemas
e procedimentos existentes seriam capazes de traduzir as decisões
estratégicas em ações.
A terceira premissa fundamental era a de que a formulação
o a implantação de estratégias. eram atividades
seqüenciais e independentes. Por conseguinte, a preocupação
com a implantação podia começar após
a tomada das decisões estratégicas, e desse modo não
interferiria com o já difícil e complexo processo
decisório estratégico.
A experiência acumulada nos últimos
20 anos tem lançado fortes dúvidas quanto a todas
as três premissas.
Quando as empresas se diversificaram através
do envolvimento com novos mercados e novas tecnologias, os custos
dos novos empreendimentos tipicamente superaram as estimativas,
atrasos inesperados foram enfrentados e a organização
ofereceu resistência às novas iniciativas.
No campo das fusões e aquisições,
um caso atrás do outro conduziu a desapontamentos. As empresas
adquiridas, que eram rentáveis antes da aquisição,
misteriosamente deixavam de sê-lo logo a seguir, os principais
administradores obtidos com a fusão tendiam a deixar a empresa,
a despeito de atraentes estímulos financeiros; as sinergias
esperadas com as fusões não se concretizavam.
Quando a alta administração decidiu
sistematizar o processo de tomada de decisões estratégicas,
introduzindo o planejamento estratégico, a organização
passou a resistir ao novo sistema. Uma vez introduzidos, muitos
sistemas apresentaram sintomas de "paralisia por análise"
ou "morte na gaveta", e o planejamento passava a agonizar,
ou as estratégias jamais davam certo no mercado. Além
disso, observou-se uma tendência freqüente para que o
sistema fosse abandonado pela empresa e se retornasse a enfoques
menos radicais e anteriores à tomada de decisões.
As expressões de apoio por parte da alta
administração tinham como efeito uma espécie
de coerção temporária. Enquanto a alta administração
aplicava uma pressão forte, a organização obedecia;
mas, quando o apoio era retirado, ou a atenção da
alta administração se voltava para outras prioridades,
a resistência subia à tona novamente.
Em síntese, a experiência prática
mostra que mudanças significativas da orientação
estratégica de uma empresa, sejam elas introduzidas por meio
do planejamento estratégico formal, ou por um processo informal,
enfrentam a resistência da organização.
A experiência leva a quatro conclusões:
1. As pessoas razoáveis
não fazem coisas razoáveis', quando, por coisas razoáveis,
entende- mos coisas analiticamente lógicas. A resistência
ao planejamento não é um fenômeno superficial;
ela tem uma lógica própria, e não pode ser
eliminada simplesmente com exortações dos altos administradores.
2. A implantação de estratégias
não se segue automaticamente à sua elaboração.
Ela enfrenta sua própria resistência, que pode invalidar
o esforço de planejamento.
3. O tratamento do planejamento estratégico
e da implantação de estratégias como dois processos
seqüenciais e independentes é um artifício que
ignora o fato de que o modo pelo qual o planejamento é realizado
exerce um efeito determinante sobre as possibilidades de implantação
eventual das decisões.
4. A resistência à mudança
não se restringe à introdução do planejamento
estratégico. Ocorre sempre que uma mudança organizacional
introduz um afastamento descontínuo do comportamento, da
cultura e da estrutura de poder existentes.
Assim sendo, as reorientações estratégicas
importantes não produzem resistência apenas ao planejamento,
mas a todo o processo de mudança. A resistência não
é uma aberração, mas um problema fundamental,
que merece atenção comparável à tradicionalmente
dada à formulação de estratégias.
DEFINIÇÃO DE RESISTÊNCIA
Para nós, resistência é um fenômeno
de facetas múltiplas, que provoca atrasos, custos e instabilidades
inesperados no processo de mudança estratégica.
A resistência manifesta-se ao longo de toda
a história de uma mudança. Durante a processo de mudança,
podemos ter:
1. Atrasos e demoras no início
do processo de mudança.
2. Demoras e ineficiências imprevistas na
etapa de implantação, retardando a mudança
e fazendo com que seu custo seja superior ao previsto originalmente.
3. Esforços, dentro da organização,
visando sabotar a mudança ou "enterrá-la"
na miríade de outras prioridades.
Após a instalação da mudança,
pode ocorrer o seguinte:
1. Uma defasagem típica
de desempenho. A mudança demora muito a produzir os resultados
esperados.
2. Surgem esforços dentro da organização
para anular os efeitos da mudança.
Resumindo as frases que fazem parte do folclore
típico de uma empresa que passa por uma mudança descontínua.
Nem todos os administradores,
porém, são iguais. Alguns são pessoalmente
seguros, outros são predispostos à ansiedade; alguns
são orgulhosos, e outros nem tanto; alguns buscam poder e
prestígio ativamente, e outros são indiferentes às
benesses do poder, alguns são líderes natos, e outros
se contentam em seguir; alguns são rígidos, e outros
são abertos a mudanças e aprendem de bom grado. Assim,
a modo pelo qual os administradores irão reagir a mudanças
dependerá da força de sua personalidade e de sua flexibilidade
pessoal.
Portanto, para uma dada mudança de cultura e poder, a resistência
por um administrador dependerá da força de suas convicções,
sua disposição para defender a si próprio,
de sua ânsia de poder, e de sua predisposição
para aprender e mudar.
RESISTÊNCIA GRUPAL
As reações de grupos à mudança
são atribuíveis, em última análise,
aos pontos de vista e às convicções dos indivíduos.
É muito comum, porém, que esses indivíduos
tenham deixado a organização há muito tempo.
Assim, a cultura e o poder dos grupos têm vida própria.
Além do mais, possuem uma estabilidade e uma permanência
que excede às da maioria dos indivíduos. É
muito mais fácil remover ou afastar um indivíduo que
constitui um impedimento importante ao progresso do que mudar a
cultura de um grupo, ou privá-lo de poder.
A literatura sociológica e a experiência
prática mostram o seguinte:
— Grupos de administradores que compartilham
tarefas e preocupações comuns desenvolvem, com o passar
do tempo, comportamentos e pontos de vista comuns.
—Estabelecem normas e valores que premiam certos tipos de
comportamento e punem outros. Por exemplo, em algumas empresas e
órgãos públicos, o slogan "não
sacudimos o barco" tem o poder de um decreto. Em empresas inovadoras,
a norma básica é "se não é novo
não é bom".
— Desenvolvem um consenso quanto à informação
que é pertinente às suas tarefas comuns e quanto à
informação que é irrelevante. Por exemplo,
tem havido longa tradição nas empresas no sentido
de que os fenômenos políticos e sociais não
são relevantes para a atuação dos administradores,
porque a empresa deve é preocupar-se com suas operações.
— Desenvolvem um consenso, chamado de modelo de realidade
pelos sociólogos, sobre quais são os comportamentos
que produzem resultados desejáveis e quais não os
produzem. Assim, durante a primeira parte deste século, houve
uma visão dominante de que a maneira de maximizar lucros
era através da fabricação do produto padronizado
mais barato possível.
— Desenvolvem um apego à cultura comum acima descrita
e tendem a defendê-la coletivamente contra o avanço
da influência de outras culturas.
A literatura de ciência política, bem
como a observação comum, mostra que os grupos se comportam
da seguinte maneira:
— Adquirem coesão e atuam como centros
de poder dentro da organização.
— Esforçam-se para acumula poder e influência.
— Defendem suas posições de poder.
Os grupos resistirão a uma mudança
em que ela: