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ARTIGOS EVIRT

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Cristiane Neder 

São Paulo

 

O Camarada Malina   

No dia 31 de agosto de 2002, foi se embora desta terra o camarada Malina, o amigo Malina e o querido comunista Malina. Que dia triste, este! Só podia mesmo amanhecer com chuva e nublado, porque um homem de coração realmente vermelho nos deixou. Mas seu legado vai ficar para as futuras gerações de jovens que não perderam a fé em um mundo melhor e com menos desigualdades sociais.

Malina se vai, mas sua vida não foi em vão. Eu, quando jovem, fui do ‘’Partidão’’. E só me filiei porque acreditei naquele olhar, acreditei naquele ser humano, tão transparente e tão decente. Tão convicto de si mesmo, tão vida nos olhos, tão revolução nas palavras, tão sorriso nos gestos, tão militante em todo o resto. Uma utopia de carne e osso que me fazia crer que as pessoas eram transformadas pelas suas paixões.

Não importa se o comunismo ou socialismo venceram no mundo, se suas ideologias foram boas ou ruins. Só posso disser que Malina era um comunista bom, um homem que respeitava a liberdade, que não era absolutista e nem centralista.

Um homem que respeitava as opiniões contrárias as suas, sempre de mente aberta ao novo, ao diálogo, ao respeito ao próximo, à diversidade das coisas e das pessoas. Mesmo em idade já avançada, era um homem que acompanhava a evolução do seu tempo sem se assustar com nada. Só se assustava com a hipocrisia política de alguns e com o cinismo dos que nunca foram comunistas, mas usavam a sigla do PCB ou o nome para ganhar eleições.

O verdadeiro camarada Malina, o autêntico comunista, cem por cento de esquerda e o de corpo e de alma socialista, mesmo sem acreditar na alma. Um dos poucos e autênticos nos dias de hoje. Um camarada tão vermelho que, quando o conheci, minhas poesias se mancharam de sangue também e ficaram todas da cor do amor e da revolução.

Um homem generoso, cheio de afeto com seu semelhante. Um homem de carisma. O carisma vermelho que ele carregava nas veias. Um cavaleiro da esperança, assim como Prestes, assim com Che, assim como poucos que nascem e fazem história.

Poucos homens são realmente verdadeiros como foi Malina, poucos têm a coragem de pagar o preço de falarem o que realmente pensam, sonham e são. Um militante de coragem, um poeta da política, um sonhador acordado, um homem de bem que realmente acreditava no que pensava e não negava nada do que falava, muito diferente de todos esses políticos de hoje que não empolgam mais ninguém, porque o brilho deles é fabricado pela mídia, enquanto o de Malina vinha da vida. A vida que se cria e nunca se perde, mesmo sendo ateu.

Desculpe, meu querido Malina, não fui ao seu enterro nem ao seu velório  porque não vou em velório nem em enterro de ninguém, nem no meu. Quero estar bem longe do meu corpo na hora que eu partir daqui. Gosto de ficar com sua imagem de herói e não quero ter outra imagem de você. Acredito que sempre vai ser o herói que conheci na juventude e heróis não morrem, são os nossos exemplos de vida sempre.

Quem lhe escreve é a poeta, aquela que sempre foi a poeta que você conheceu, livre e rebelde como meus mestres.

 


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