Valores
Na
mão esquerda reconhece as marcas de um passado, encerrado na cicatriz
que toma todo o seu dorso, ladeada pelo pequeno sinal que herdou
de família e que, de forma orgulhosa, sabe haver na mão infantil
de seus filhos. Segura por entre os dedos o pito da vez, enquanto
saboreia devagar o bom vinho da garrafa que lhe trouxeram, sabe-se
lá de onde, mas definitivamente bom.
As
linhas sinuosas que a fumaça desenha por sobre seu rosto lembram
os dias de fartura, de riqueza, de dinheiro ganho fácil e, não menos
fácil, desperdiçado, na sua mania de ser altruísta,
coisa que muitos sabem louvar mas, como provado, não enche
barriga de ninguém, ao longo dos anos. E muito menos serve para
criar boa fama, pois que todos sabem bem esquecer quando o leite
seca, tornando a fonte triste e inquieta. Mas já entende o conformismo
que lhe toma a alma. Sabe que nele está guardando o grito que lhe
virá quando a maré virar.
Um grito de alegria, de uma alegria mais madura e consciente, de
um homem, não mais um menino, mas de um homem que sabe agora o real
significado da vida, de suas facetas e, principalmente, de sua inigualável
sabedoria. Foi bom, sabe disso!, e do antes altruísmo egoísta nasce
a caridade pelo amor, que da mão-farta antes estendida, perdulária,
é feito hoje o colo que lhe traz e emana felicidade, menos ouro,
mais carinho, pequenos-enormes laços que lhe sustentam como o ar
que respira, e que sabe não terem preço.
O
sabor apimentado, trago a trago, lembra o passado e sinaliza o futuro,
dá-lhe força para poder olhar em volta e insistir que hoje, na sua
vida humilde, é mais feliz do que foi ontem e menos do que será
amanhã, inexorável sentimento, miríade de seu eterno otimismo. Esse
agora bem posto no lugar do que antes chamava de realismo e que
todos denunciavam ser de cunho pessimista incorrigível.
. E entre um gole e outro, escreve na ponta do lápis, no papel do
guardanapo do seu bar preferido umas poucas frases em estado de
contemplação pelo tudo que lhe maravilhosamente toma naquele instante,
encerrado na paz de sua alma, à beira de uma bela lagoa, com o vento
lhe gelando o rosto, pleno inverno, sua cidade, seus amigos, sua
vida renascida e, mais ainda, pela mão que lhe agarra à direita,
entrelaçando os dedos nos seus, como o calor e aconchego de casa,
ato de doação mútua e plena. A mão da fé que segura e repassa à
outra, estendida, para quem souber entender o real valor da existência...
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