| A
educação em valores que se desenvolve na vida familiar,
na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações
culturais, nos movimentos e organizações socais, é
uma questão fundamental da sociedade atual, imersa numa rede
complexa de situações e fenômenos que exige,
a cada dia, intervenções sistemáticas e planejadas
dos profissionais da educação escolar.
Entre as diferentes ambiências humanas, a escola tem sido,
historicamente, a instituição escolhida pelo Estado
e pela família, como o melhor lugar para o ensino-aprendizagem
dos valores, de modo a cumprir, em se tratando de educação
para a vida em sociedade, a finalidade do pleno desenvolvimento
do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o mundo do trabalho.
Sendo assim, caberá às instituições
de ensino a missão, por excelência, de ensinar valores
no âmbito do desenvolvimento moral dos educandos, através
da seleção de conteúdos e metodologias que
favoreçam temas transversais (Justiça, Solidariedade,
Ética etc) presentes em todas as matérias do currículo
escolar, utilizando-se, para tanto, de projetos interdisciplinares
de educação em valores, aplicados em contextos determinados,
fora e dentro da escola.
O que são, afinal os valores? Que valores devem ser estudados
e desenvolvidos na escola? Entre o que a escola ensina de valores
há coerência com o que sociedade requer dos homens
e mulheres? Além de tentarmos responder as questões
acima levantadas, pretendemos, neste artigo, trazer exemplos e sugestões
bem concretas para o trabalho do professor em sala de aula, para
que não se limite ensine valores mas a praticá-los
e a se tornar, assim, um educador em valores.
A educação em valores é uma exigência
da sociedade atual inserida no mundo globalizado e marcado, no início
deste século, por tantas mudanças tecnológicas
e novos paradigmas políticos, culturais e educacionais, ora
debatidos por diferentes agentes sociais. Temas como Ecologia, Educação
Sexual, Direitos e Deveres do Cidadão, Ética na Política
e na vida pública, a cada dia, são pautas de congressos,
seminários, encontros internacionais, nacionais e locais,
levando-nos a crer que o currículo escolar, sem dúvida,
ficou defasado, ou melhor, não conseguiu acompanhar a velocidade
de transformações do mundo pós-industrial.
No caso do Brasil, o currículo escolar, realmente, ficou
e está defasado se compararmos o que ensinamos com o que
os Parâmetros Curriculares Nacionais, produzidos nos anos
90, requerem dos professores e alunos No entanto, a razão
de ser da escola, a de educar os alunos formalmente, não
é uma tarefa descartada pela sociedade, apesar da influência
da mídia eletrônica na formação cognitiva
e de valores dos alunos. Também não perdeu tanto espaço
assim para a sociedade informática.
Por estar inserida em determinada comunidade, a escola traz para
o seu interior os conflitos, as aflições e as mais
diversas demandas comunitárias que levam professores, alunos
e gestores escolares a criarem espaços, em seus projetos
pedagógicos, para que as crianças e adolescentes discutam
e opinem sobre suas inquietações e aspirações
pessoais e coletivas. É exatamente nesse momento, quando
os agentes educacionais criam espaços, ocasiões, fóruns
para discussão sobre a violência urbana, meio ambiente,
paz, família, diversidade cultural, eqüidade de gênero
e sociedade informática, que a educação em
valores começa a ser desenhada e vivenciada como processo
social que se desenvolve na escola.
Não é uma tarefa fácil abordar a questão
dos valores na educação escolar. E sabemos o porquê.
A Pedagogia Tradicional levou-nos acreditar (e sua influência
ainda desapareceu totalmente do meio escolar), por muitos séculos,
que a principal tarefa da escola era a de transmitir conteúdos
escolares. É um modelo pedagógico que não se
enquadra mais às exigências do mundo moderno.
A educação escolar não se restringe mais, como
no passado, a mera transmissão de conhecimentos, onde a atividade
de ensinar era centrada no professor, detentor dos saberes e o aluno,
um mero recebedor da matéria. Na sociedade atual, com a ampliação
das ambiências de formação escolar, o aluno
passa a ser o centro do processo didático-pedagógico
e a educação escolar, agora, entendida como processo
de desenvolvimento físico, intelectual e moral do educando.
A educação em valores, embora tenha sido considerada,
pelo menos, até o século XIX, implicitamente, parte
do currículo oculto das instituições de ensino,
ganha terreno fértil, no ambiente escolar, a partir da segunda
metade do século XX, quando a sociedade, através da
legislação educacional (por exemplo, a chamada Lei
de Diretrizes e Bases da educação Nacional) reconhece
no professor, no aluno e na família, sujeitos do processo
de formação escolar.
Retomando a proposta de uma prática de valores, na escola,
diríamos que, para que a educação em valores
seja uma realidade educacional, primeiro terá que passar
por dois componentes do processo didático: o ensino e a instrução
de valores. Para a Pedagogia, palavras como educação,
ensino e instrução são elementos distintos
na Didática, embora, para maioria das pessoas, as tomam como
sinônimos. Vamos, então, as diferenças entre
eles e observaremos suas implicações para uma educação
em valores ou pedagogia de valores.
Quando nos referimos à educação em valores,
estamos tomando esta expressão como processo social, no seio
de uma determinada sociedade, que visa, sobretudo, através
da escola, levar os educandos à assimilação
dos valores que, explicita ou implicitamente, estão presentes,
como já disse, no conteúdo das matérias, nos
procedimentos e atitudes dos professores, colegas de sala, pais
de alunos e nas experiências humanas acumuladas no decorrer
da história, tendo em vista a formação dos
indivíduos enquanto cidadãos.
Se a escola deixa de cumprir o seu papel de educador em valores,
o sistema de referenciação ético de seus alunos
estará limitado à convivência humana que pode
ser rica em se tratando de vivências pessoas, mas pode estar
também carregada de desvios de postura, atitude comportamento
ou conduta, e mais, quando os valores não são bem
formal ou sistematicamente ensinados, podem ser encarados pelos
educandos como simples conceitos ideais ou abstratos, principalmente
para aqueles que não os vivenciam, sejam por simulações
de práticas sociais ou vivenciados no cotidiano.
Por isso, a escola não pode, pelo menos, nos onze anos (oito
anos de ensino fundamental e 3 anos de ensino médio, na atual
estrutura da Educação Básica onde as crianças
e jovens ficam a maior parte do dia, deixar de ensinar explicitamente
a prática de valores. Como diz o filósofo L. Althusser,
em seu livro Aparelhos Ideológicos do Estado, a sociedade
burguesa estabeleceu como seu aparelho de Estado n° 1, e portanto
dominante, o aparelho escolar, que, na realidade, substitui o antigo
aparelho ideológico de Estado dominante, a Igreja, em suas
funções.
O trabalho explícito com a prática de valores pode
advir das atividades docentes e curriculares no interior da sala
da aula. Durante uma aula de Língua Portuguesa, por exemplo,
o professor comprometido com a educação em valores
não se limitará a indicar ou solicitar de seus alunos
uma lista de palavras como justiça, dignidade, solidariedade,
para exemplificar os substantivos abstratos, como assinalam as gramáticas
escolares. Mais do que abstratas, estas palavras, na sociedade,
são categorias que se aplicam às práticas sociais,
isto é, às atividades socialmente produzidas, ao mesmo
tempo, produtoras da existência social.
A noção de solidariedade, para os educadores em valores,
não deve ser ensinada como simples substantivo feminino,
reduzindo-a uma conceito gramatical ou metalingüístico,
e sim, como uma prática contra injustiça ou injúrias
que outros estejam sofrendo, no âmbito político ou
comunitário.
Há ensino de valores quando o professor, ao preparar suas
aulas ou atividades curriculares, planeja, organiza, redireciona
e avalia os temas transversais que não são, vale advertir,
novas matérias, mas assuntos que atravessam as diferentes
áreas do currículo escolar. Não há,
portanto, necessariamente, aula, com dia e horário previamente
estabelecidos, para o ensino de valores. Ao contrário, o
ensino de valores decorre de ocasiões que surgem ao acaso
– como uma flagrante de uma cola durante a realização
de uma prova em sala de aula ou de uma briga entre alunos na hora
do recreio – ou de ocasiões já previstas na
proposta pedagógica para o bimestre ou semestre e, dependendo
da sensibilização do professor, um tema considerado
relevante para a educação moral dos alunos.
Para que a educação em valores se realize, há,
pois, necessidade de ser considerada no plano de ensino do professor,
de logo, como objetivo geral da disciplina, em nível de transversalidade.
Para que a prática de valores seja uma realidade, o educador
terá que se organizar, didaticamente, para a instrução
de valores, dentro e fora da sala de aula. Assim, só podemos
dizer que um aluno aprendeu valores quando, após a ministração
de conteúdos em sala, os professores, na escola, em diferentes
ocasiões e os pais, nos lares, observam que seus alunos ou
filhos não apenas apresentam melhor rendimento escolar, mas
diminuíram os conflitos interpessoais, estão mais
abertos à socialização, e mais, efetivamente,
assimilaram e integram valores, atitudes e normas, na prática
social, de modo que os valores assimilados tenderão a acompanhá-los
por toda a vida.
Em substância, podemos dizer que educamos em valores quando
os alunos se fazem entender e entendem os demais colegas; aprendem
a respeitar e a escutar o outro; aprendem a ser solidários,
a ser tolerantes, a trabalhar em, a compartilharem ou socializarem
o que sabem, a ganharem e a perderem, a tomarem decisões,
enfim. É, assim, o resultado da educação em
valores na escola: ajudar os alunos a se desenvolverem como pessoas
humanas e faz ser possível, visível ou real, O desenvolvimento
harmonioso de todas as qualidades do ser humano.
Valores
na LDB
Uma
dos pontos altos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB) é o reconhecimento da importância dos
valores na educação escolar. Para isso, assinala que
o fim último da educação é a formação
da cidadania, incorpora nas finalidades da educação
básica, princípios e valores fundamentais que dão
um tratamento novo e transversal ao currículo escolar.
Anterior à promulgação da LDB, sabe-se que,
tradicionalmente, afora o trabalho das escolas confessionais ou
religiosas, os valores vinham sendo ensinados, em sala de aula,
de forma implícita, sem aparecer na proposta pedagógica
da escola, configurando o que denominamos de parte do currículo
oculto da escola.
A partir da nova LDB, promulgada em particular com os Parâmetros
Curriculares Nacionais, ficou explicitado para todas as instituições
de ensino o reconhecimento da importância do ensino e a aprendizagem
dos valores na educação escolar, e doutra sorte, o
Conselho Nacional de Educação (CNE), ao estabelecer
as diretrizes curriculares para a educação básica,
deu um caráter normativo à inserção
e integralização dos conteúdos da educação
em valores nos currículos escolares.
A idéia de que a educação em valores permeia
os dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional pode ser observada à primeira leitura do artigo
2º, que, ao definir a educação como dever da
família e do Estado, afirma que a mesma é inspirada
nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade
humana, tendo por finalidade o pleno desenvolvimento do educando,
seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação
para o trabalho.
Depreende-se
da leitura do artigo 2º da LDB que a educação
em valores dá sentido e é o fim da educação
escolar já que, junto com aquisição de conhecimentos,
competências e habilidades, faz-se necessário a formação
de valores básicos para a vida e para a convivência,
as bases para uma educação plena, que integra os cidadãos
em uma sociedade plural e democrática.
No seu artigo 3º, a LDB elenca, entre os princípios
de ensino, vinculados diretamente a educação em valores,
a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura,
o pensamento, a arte e o saber (inciso II), pluralismo de idéias
e de concepções pedagógicas; (inciso III);
IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância
(inciso IV) e gestão democrática do ensino público,
na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de
ensino (inciso VIII).
O artigo
27 da LDB faz referência à educação em
valores ao determina que os conteúdos curriculares da educação
básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes
“a difusão de valores fundamentais ao interesse social,
aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum
e a ordem democrática” (inciso I).
A educação em valores deve ser trabalhada na educação
infantil, ensino fundamental e no ensino médio, etapas, conforme
a nova estruturação da Educação Básica,
prevista na LDB. No artigo 29, a LDB determina que a educação
infantil, sendo a primeira etapa da educação básica,
tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança
até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico,
intelectual e social, complementando a ação da família
e da comunidade. É interessante assinala que a educação
em valores se fundamental no respeito mútuo do desafio do
professorado, do aluno e da família. Requer, pois, que as
instituições de ensino utilizem o diálogo interativo,
o envolvimento do professores, alunos e seus pais ou responsáveis.
No que se refere ao Ensino Fundamental, a LDB aponta a educação
em valores como principal objetivo desta etapa da educação
básica, a formação do cidadão, mediante
aquisição de conhecimentos através do desenvolvimento
da capacidade de aprender, tendo como estratégias básicas
o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo
e de três competências relacionadas explicitamente com
a educação em valores: a compreensão do ambiente
natural e social, do sistema político, da tecnologia, das
artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade (inciso II);
o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista
a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação
de atitudes e valores; (inciso III) e o fortalecimento dos vínculos
de família, dos laços de solidariedade humana e de
tolerância recíproca em que se assenta a vida social
(inciso IV)
Para o Ensino Médio, a LDB, no seu artigo 35, aponta além
do desenvolvimento cognitivo, que se caracteriza pela a consolidação
e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental,
possibilitando o prosseguimento de estudos (inciso I) e pela preparação
básica do educando para o trabalho e a cidadania (inciso
II) e explicitamente aponta o aprimoramento do educando como pessoa
humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento
da autonomia intelectual e do pensamento crítico; e mais
ainda a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos
dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática,
no ensino de cada disciplina (inciso IV).
Que
valores devem ser ensinados na escola
A educação
em valores está presente em todas as disciplinas do currículo
escolar. Para educar em valores, é necessário que
o professor organize seu plano de ensino em atividades lúdicas,
reflexivas e conceituais sobre temas transversais. Apontaremos,
na tabela abaixo, dez temas transversais, por ordem alfabética,
com seus conceitos básicos, que podem ser trabalhados na
educação infantil, no ensino fundamental e no ensino
médio.
Decálogo
da educação em Valores
Temas transversais
Acepções
1. Autonomia Refere-se ao valor que reconhece o direito de um indivíduo
tomar decisões livremente, ter sua liberdade, independência
moral ou intelectual. É a capacidade apresentada pela vontade
humana de se autodeterminar segundo uma norma moral por ela mesma
estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou externo.
2. Capacidade de convivência Valor que desenvolve no educando
a capacidade de viver em comunidade, na escola, na família,
nas igrejas, nos parques, enfim, em todos os lugares onde se concentram
pessoas, de modo a garantir uma coexistência interpessoal
harmoniosa .
3. Diálogo Valor que reconhece na fala um momento da interação
entre dois ou mais indivíduos, em busca de um acordo.
4. Dignidade da pessoa humana Valor absoluto que tem cada ser humano.
A pessoa é fim, não meio. A pessoa tem valor, não
preço.
5. Igualdade de direitos Valor inspirado no princípio segundo
o qual todos os homens são submetidos à lei e gozam
dos mesmos direitos e obrigações.
6. Justiça Entre os temas transversais, é o valor
mais forte. No educando, manifesta-se quando o mesmo é capaz
de perceber ou avaliar aquilo que é direito, que é
justo. É princípio moral em nome do qual o direito
deve ser respeitado.
7. Participação social Valor que se desenvolve no
educando à medida que o torna parte da vida em sociedade
e leva-o a compartilhar com os demais membros da comunidade conflitos,
aflições e aspirações comuns.
8. Respeito mútuo Valor que leva alguém a tratar outrem
com grande atenção, profunda deferência, consideração
e reverência. A reação de outrem será
no mesmo nível: o respeito mútuo.
9. Solidariedade Valor que se manifesta no compromisso pelo qual
as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas,
particularmente, diante dos pobres, dos desprotegidos, dos que sofrem,
dos injustiçados, com o intuito de confortar, consolar e
oferecer ajuda
10. Tolerância Valor que manifesta na tendência a admitir,
nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou
mesmo diametralmente opostas às nossas.
Como
ensinar os valores na escola
Pelo menos quatro
maneiras ou abordagens pedagógicas podem ser utilizadas para
o desenvolvimento dos valores nos educandos: a) doutrinação
dos valores; b) clarificação dos valores; c) Julgamento
dos valores e d) Narração dos valores.
Abordagem
pela doutrinação de valores é a mais antiga
das maneiras de educar os alunos em valores, através da qual
a escola educa ou tentar educar o caráter dos alunos. Tal
abordagem,se dá através da disciplina, do bom exemplo
dos professores, do currículo que enfatiza mais as condutas
do que os raciocínios, destacando as virtudes do patriotismo,
do trabalho, da honestidade, do altruísmo e da coragem.A
escola, através de seus professores, imprime valores no espírito
dos seus educandos, através de recomendações
do que considera correto, justo e ideal para a prática de
valores.
A doutrinação de valores é inspirada nas práticas
de formação religiosa uma vez que procura incutir
ou inculcar nos educandos valores, crenças e atitudes particulares,
com o objetivo de que não aceitem quaisquer outros, julgados
errados quando seguem a doutrina. No Brasil, durante os períodos
colonial e imperiaL, as escolas tradicionais ensinavam valores a
seus educandos, fazendo-os repetir ou decorar a moral de narrativas
ou fábulas européias. Muitos docentes chegavam a utilizar
a palmatória para educar em valores, corrigindo os alunos
com castigo severo, quando não assimilavam ou memorizavam
bem as lições de moral. No meio familiar, cabia, principalmente,
à figura do pai o papel de doutrinador, de modo que era o
pai também o principal educador do filho em valores, valendo-se,
não poucas vezes, da dureza da palavra ou da punição
exemplar.
A abordagem pela doutrinação de valores foi bastante
trabalhada nos Estados Unidos no século XIX, mas a partir
da década de 20, no século XX, foi posta em questão,
em decorrência, da transposição, para o domínio
da moralidade da concepção de relatividade de Einstein,
o que deu origem ao relativismo moral.
Nas práticas escolares atuais, a abordagem pela doutrinação
de valores, em geral, explicita-se à medida que a escola
procura regular o comportamento moral dos alunos, exigindo, por
exemplo, a obediência dos alunos aos professores, proíbe
a violência, o vandalismo e pune, exemplarmente, os “delitos”
tais como cola, o atraso às aulas, o não cumprimento
das tarefas ou dos deveres de casa, entre outros. Escolas que apontam
como paradigmas os exemplos de professores e de colegas de sala,
está colando em prática a abordagem pela doutrinação
de valores, o que acabará por desenvolver nos alunos o comportamento
de respeito e educação moral.
O segundo modo de desenvolver a educação em valores
é através da clarificação dos valores.
Consiste em os professores, num clima de não-diretividade
e de neutralidade, ajudarem os alunos a clarificar, assumir e por
em prática os seus próprios valores.
Na prática escolar, o professor pode utilizar uma atividade
simples como a votação de valores, que se dá,
por exemplo, através da atividade de leitura, em voz alta,
de uma a uma, de questões que começam pela expressão
“Quantos de vocês...? (a) ....pensam que há momentos
em que a cola se justifica? ....a primeira coisa que lêem
no jornal de domingo é a página de novelas e fofocas?
... acham a prática do aborto um direito da mulher?...aprovam
relações sexuais antes do casamento? E os alunos respondem
levantando as mãos. Um aspecto positivo desta abordagem é
que ajuda os alunos a pensarem sobre valores e fazerem a ligação
entre os valores que defendem (A prática da cola é
errada) e a ação desenvolvida ou a desenvolver (“o
que tenho feito para combater a prática da cola clandestina?).
Um aspecto negativo é que a referida abordagem pode vir a
confundir questões triviais (fofocas) com questões
éticas (O aborto, ato praticado contra o direito à
vida) importantes. Para o trabalho com esta metodologia, caberá
ao professor, desde logo, estabelecer a diferença entre o
que o aluno gosta de fazer (colar durante a avaliação
escolar, por exemplo) do dever fazer (respeitar o regimento da escola
ou as condições estabelecidas pelo professor para
aplicação de uma prova).
A outro modo de desenvolver os valores na escola o é através
da abordagem pela opinião ou julgamento dos valores. Consiste
em a escola acentuar os componentes cognitivos da moralidade. A
abordagem pelo julgamento de valores defende que existem princípios
universais (Tolerância recíproca, Liberdade, Solidariedade
e a Justiça, o mais forte deles) que constituem os critérios
da avaliação moral ou do juízo de valor.
Os alunos, na abordagem pelo julgamento de valores são vistos
pelos professores como sujeitos da educação em valores,
uma vez que constroem tais princípios ativamente e regulam
a sua ação de acordo com os princípios.
Esta abordagem propõe que a educação moral
se centre na discussão de dilemas morais em contexto de sala
de aula sem levar em conta, no entanto, as diferenças de
sexo, de raça, de classes sociais e de cultural, concentrando-se
unicamente na atribuição de significados que pessoas
dão às suas experiências ou vivências
morais.
Uma
atividade, baseada na abordagem pelo julgamento de valores, que
pode ser desenvolvida pelo professor, inclusive, com atividades
de expressão oral e escrita, é pedir que os alunos
desenvolvam um texto, oral ou por escrito, sobre o que pensam da
concepção de Justiça em frases do tipo “A
justiça é a vingança do homem em sociedade,
como a vingança é a justiça do homem em estado
selvagem” (Epicuro).
O
quarto modo de ensinar os valores na escola baseia-se nas narrativas
ou nas expressões orais ou escritas dos educandos. Esta abordagem
centra-se nas histórias pessoais, ou coletivas, nas quais
os alunos contam, através de textos orais ou escritos, em
sala de aula, seus conflitos e escolhas morais.
A abordagem pela narração envolve as três dimensões
da educação em valores: a cognição,
a emoção e a motivação.
A abordagem pela narração ou narrativa reconhece que,
na diversidade cultural, é comum a contação
de histórias por parte das pessoas com o objetivo de transmitir
valores de gerações mais velhas para as mais novas.
Assim, o papel das histórias e das narrativas, ou seja, das
práticas de leitura de textos escolares, nomeadamente os
textos literários, exercem um papel muito importante na formação
dos valores nos alunos.
A narrativa desempenha um papel na vida e na dimensão moral
das pessoas, em particular. Os nossos pensamentos e ações
estão estruturadas em práticas discursivas. A abordagem
pela narração pode ocorrer, num simples ato de perguntar
em sala de aula: “Vocês poderiam me contar o que aconteceu
nas últimas eleições no Brasil, no seu Estado,
na sua cidade, no seu bairro, na sua rua, na sua casa?” As
pessoas atribuirão significados às experiências
de vida, representadas sob a forma de narrativa. Nesta abordagem,
as pessoas desenvolvem-se moralmente, tornando-se autores das suas
histórias morais e aprenderão, de forma consciente,
as lições morais em que contam as suas experiências.
A abordagem pela narração centra-se nas experiências
reais das pessoais, nos seus conflitos e escolhas pessoais As dimensões
da educação em valores pode ser bem evidenciada à
medida que os professores, em sala de aula, após a leitura
de um artigo de opinião, por exemplo, sobre a legalização
ou não do aborto, extraído do jornal diário,
levanta perguntas para os alunos do tipo: O que vocês pensam
sobre essas idéias do autor deste artigo?(dimensão
cognitiva); O que você sentiu ao ler este artigo? (dimensão
emotiva) e o que vocês pretendem fazer após a leitura
deste texto? (dimensão atitudinal). Portanto, a abordagem
favorece o pensar, o sentir e o fazer sobre temas transversais,
extraídos do cotidiano dos alunos.
O desenvolvimento da educação em valores, pela narração,
propõe que os professores convidem os seus alunos a contarem
as suas próprias histórias morais ou a ouvir, ler
e discutir histórias dos demais colegas.
A utilização da literatura escolar e o estudo do perfil
dos seus heróis e heroínas podem constituir uma boa
metodologia de desenvolvimento dos valores, desde que acompanhada
de uma reflexão crítica, baseada em princípios
éticos universais, constituindo tais valores, por excelência,
parâmetros para avaliação moral ou juízo
de valor, isto é, para o que é justo, tolerável,
digno, possível, certo, errado ou diferente.
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