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ARTIGOS EVIRT

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Walter Pacheco Junior

Santa Catarina

 
Viagem ao Estado de Goiás

 

BAIXADA DOS VIADEIROS
ALTO PARAÍSO DE GOIÁS
TEREZINA DE GOIÁS E CAVALCANTE

Sérgio,
Por falar em Grande Joio ele procedeu ao encerramento das atividades lá na Loja. Com todas as pompas e circunstâncias o Grande Joio esticou os beiços (molhados anteriormente de cerveja, naturalmente) para decretar o Recesso. Que grande palhaçada. Ópera bufa de péssima qualidade! Recesso na prática do bem! Imagina só, com o Bem em atividade o Mal já prevalece, então, com o Bem em recesso, que deve ser porque nem ele é de ferro, fica o Mal às rédeas soltas. Mas, pensando pragmaticamente, Bem em atividade? Onde Bem? Quando Bem?

Creio que às vezes  ficas aparvalhado te perguntando:
 - Por que será essa insistência do Ego em fazer comentários sobre a atuação do Grande Joio para mim?
 - Será que ele não poderia  poupar-me destas estiletadas?

Claro que não! Absolutamente, meu caro! Afinal de contas foste tu que tentaste de tudo para promovê-lo a trigo. Então, toma que o filho é teu! Embala a criatura!

Já considerado dito o que deveria ser dito vou direto ao assunto desta história.
Às vezes ainda tenho aquele costume de ficar deitado no chão, ali na Saleta dos Antepassados, onde o tapete é mais macio e o teto fica bem alto (eu acho que o construtor se perdeu e o bico do telhado ficou enorme, perdeu-se na geometria, e para arrematar foi subindo) ouvindo música clássica e olhando para o teto. Lembra a quem tem “olhos de ver, uma construção gótica - afinal, o todo não é mente, então”... 

Nessas ocasiões tudo quanto é tipo de pensamento vagueia pela minha cabeça, e num dia destes refiz mentalmente à viagem a Alto Paraíso de Goiás. (O Cinzo que é mais velho e mais ranzinza que eu acabou de chegar. Como tu sabes, ele "cai de faca", vou ter que largar o fio da narrativa e retomar depois).
Não entendi direito o que ele queria, mas como está sempre com pressa, lembras igual ao Valdon Varjão, sempre saindo, Já se foi!

Eu me lembro que após uns dias em Brasília, eu e o Clarindo resolvemos tomar o rumo de Cavalcante, mais propriamente, Terezina de Goiás, que fica na Baixada dos Viadeiros (troço esquisito, né) em Alto Paraíso. Após amassar barro e cheirar poeira por quase quatro horas e ter passado por São João da Aliança, chegamos.
Passava da meia-noite, e lá a energia elétrica que chamam de "luz" é desligada às 22,00 horas.
Fora do carro não se enxergava meio metro na frente do nariz, dirigimo-nos a um mocó, que eles chamam  rodoviária.
Na verdade, qualquer direção ou sentido que a gente a esmo tomasse ia dar em nada do mesmo jeito.
Pois a tal rodoviária, aqui não servia nem para ponto de ônibus do Saco Grande na época em que o "mão fofa" morava lá,  o Adão era cadete e  os fundos, famosas cozinhas dos ônibus da Empresa Florianópolis S/A que atendiam ao bairro eram reservadas as lavadeiras. Pela quantidade de trouxas (trouxas de roupa) que entulhavam a cozinha do ônibus, creio que todas as lavadeiras da cidade moravam lá.

A fome, e principalmente, a sede eram grandes, e mais um pouco eu começaria a roer os bancos do carro, que na verdade estava mais para ferro velho que para carro.

Paramos o fusca 64 na frente daquela coisa que chamam rodoviária. Tinha um sujeito lá dentro, cara ardida, visão cansada e o corpo, como curvado para o solo que como diria   Euclides da Cunha, brevemente o iria receber.

O Clarindo tem a estranha e inescrutável capacidade de não sentir fome, ou melhor, não sentir nenhum dos sentimentos que habitam os demais seres vivos, mas eu fui perguntando, assim com a voz quase sumida e desalento por não sentir firmeza na capacidade comercial do estabelecimento:

- Boa noite, o que é que o Sr. tem para a gente comer?
O sujeito parece que calejado pela vida, não tinha muito interesses em salamaleques e lascou:
- Foi vocês que saltaram dessa limusine aí?
Gostei! Promoveu o ferro-velho do Clarindo, com faróis de seis volts e freios no esbarro à categoria de limusine, imagina só!
- Foi, respondi com a coluna ardendo da desgraçada  limusine.
Ele respondeu:
 -  Churrasco!

Desnecessário dizer que fui do inferno ao paraíso, aliás, Alto Paraíso de Goiás. O Clarindo mudo estava calado ficou, como se não estivesse ali ou já conhecesse os costumes da região. Aliás, o Clarindo tinha essa capacidade de se transformar numa estátua, numa determinada situação para depois gozar o resultado dela.

Então eu disse:
- Eu quero um! E desatei como se fosse um néscio, perguntando o que acompanhava.
- O sertanejo nada respondeu. Apenas pegou um pedaço de carne, cuja cor eu não vi pela escuridão, enfiou nela um arame grosso, e não posso acreditar até hoje: levou a gororoba à chama da pomboca de querosene. Segurou um pouco, virava de um lado, virava do outro e entregou o troço para mim.
- Um relincho cortou o silêncio da madrugada!

Não! Não era cavalo não! Era o animal do Clarindo gargalhando da minha ingenuidade e ignorância, eu diria até inocência em relação aos hábitos gastronômicos  do lugar. O jabá conjugava as propriedades do excesso de sal, defumação a querosene e preço extorsivo, que apesar disso, comi e paguei.
Dirigímo-nos então ao hotel. Para tanto retornamos uns três quilômetros onde a estrada se bifurcava em forma de y;  um ramo levava a coisa alguma e o outro ao nada.

No que seria a praça do y instalava-se o hotel. Durante muito tempo  não consegui entender o nome do empreendimento turístico - Entroncamento Familiar - Zênit - Inglês Português Pintor. A logomarca fabulosa era escrita à maneira de uma pichação numa parede caiada de branco vitoriano.
Não era bege não! Era poeira mesmo!  

Nada disso eu vi ao chegar. Não havia luz elétrica. Atendeu a recepcionista dona Maria que já era conhecida e foi acordada aos berros pelo Clarindo. A iluminação era à luz de pomboca a querosene que a dona Maria segurava nas mãos e iluminava-lhe o rosto velho e feio de baixo para cima, fato que assumia proporções fantasmagóricas em virtude do bruxulear da chama fumacenta. Não sei ao certo até hoje quantos quartos tinha o estabelecimento, mas o fato é que as instalações que tocaram a mim foram rapidamente desocupadas a toque de tarola pela dona Maria que exonerou um hóspede, talvez de menor significado para ela, exceto se ela maximizou a minha importância na região, que era nenhuma.

A porta era um pano pendurado à guiza de cortina, não tinha janelas e a largura da peça era um pouco maior que a largura daquele catre, daquela tarimba que chamavam cama. A bagagem poeirenta jogava no chão, e havia certa premência no recolhimento ao leito, pois ela queria levar a pomboca. Pois foi quando ela levou a pomboca é que pude vislumbrar que o estabelecimento era, digamos assim, ecológico, pois o teto era de palha. Fiquei ali estatelado pensando não sei no que, quando senti, ou melhor, percebi algo esticando os braços por baixo da cama, enquanto sussurrava alguma coisa. Não! Não era nada disso que estão pensando! Era o hóspede exonerado que com muito cuidado e respeito procurava os seus sapatos debaixo da minha cama. Coitado, pensei. Um nordestino preterido por um sulista!

Refeito da surpresa a calma voltou a reinar e a sede a arder. Maldito churrasco! Sou de tendência muito sedenta, característica que se dimensionou pelo sal do churrasco. Não agüentei!
Evitando ruído desnecessário, mas às escuras fui procurar uma copa, uma cozinha, um bebedouro, um balde, enfim água, esgueirando-me na escuridão como uma alma penada. Fui barrado no caminho por um tremendo susto! Um sujeito estranho que me aparteou perguntando o que queria.

Disse-lhe que estava com muita sede e queria água. Falou que eu voltasse ao "quarto" que ele traria. Não discuti, pois não tive coragem, a figura com a pomboca na mão não inspirava laivos de coragem. Obedeci resignado.

Foi gentil! Logo chegou com um recipiente plástico com água fresca que entornei de uma só vez. Dizem que água é inodora, incolor e insípida. Que nada! Nunca tomei antes água mais saborosa.
Agradeci o sujeito, que ao amanhecer vim, a saber, ser ele o Zênit. Era filho da dona Maria e chagásico quase terminal. Mas antes que amanhecesse e o dia clareasse surgiu então a desesperada vontade de mijar.

Tinha que exonerar a bexiga.  Não estava mais agüentando, e resolvi sair, a moda fantasma esquivo,  esgueirando-me e tateando no escuro a procura de um lugar em que eu pudesse me aliviar daquilo que carregava a mais. Maldito churrasco. No quarto ao lado o Clarindo roncava de prazer e contentamento.
Ele era acostumado com essas coisas (engraçado, me ocorreu agora que tem gente que não é acostumada com essas coisas, como se essas coisas fossem comuns) e devia estar deleitando-se com o meu sofrimento, pois sempre fora um pouco sádico.

Acho que o tal Zênit não dormia! Novamente barrou a minha passagem, surgindo do meio da escuridão e perguntando o que eu queria desta vez. O desta vez me soou como sinal de  presença de certa impaciência. Como um alerta de: chega de incomodar!
Expliquei-lhe a situação, e ele me levou à porta e disse:
- Faz aí!
Retirei toda a água do joelho! Ai que alívio! Voltei para conciliar o sono. O silêncio retornou ao ambiente, já que estava desconsiderando os roncos do bucéfalo do Clarindo, e naquelas alturas dando zero de importância aos vôos dos carapanans sovelas.

Carapan é um tipo de mosquito da região. O carapan sovela tem que ser explicado: sovela é uma ferramenta metálica em forma de estilete usada para perfurar o couro pelos artesãos que fabricam artefatos do material, especialmente material de montaria.

Então, a ferroada de certos carapanans doía tanto que parecia que os malditos iam numa fogueira, esquentavam os ferrões-sovela ao rubro e vinham espetar-nos. Após alguns instantes de pensamentos no estado alfa, entre o sono e a vigília, escutei uns ruídos que se repetiam a certos intervalos, uma espécie de barulho de quem arrasta rápido entre as palhas da cobertura algum objeto, como um pano ou uma corda. Fui agüentando os ruídos e estes foram aumentando a freqüência, não a intensidade, mas a repetição dos movimentos.

Abruptamente levantei! Antes que pudesse dar dois passos, o espectro do Zênit me barrou outra vez e disse para mim não me preocupar (eu acho que as coisas se repetiam sempre da mesma forma com todos os hóspedes) que eram apenas lagartixas.

Argumentei que achava que não eram não, pois eram meio grandes pelo barulho e movimento. Não se deu muito ao trabalho de explicar disse que era sim! Dei dois passos para trás, caí na cama e entreguei-me aos braços de Morfeu. Depois soube que animais parecidos com as nossas lagartixas aqui do sul existem três: uma é a lagartixa (para nós seria um lagarto) mede uns três palmos de comprimento; outra mediana e muito semelhante às nossas, eram as osgas e finalmente as pequenas as lambisgóias.

Acordei quando ouvi vozes, não muitas, acompanhadas da conversa novidadeira do Clarindo com a Dona Maria, inteirando-a e inteirando-se dos fatos, este  ao me ver abrindo a porta-cortina, deu um célebre relincho! A luz do planalto central já iluminava todo o ambiente e pude perceber o que acontecera.
Com a luz do Sol todos os fantasmas vão embora, não resta dúvida.

O hotel era uma casa grande para os padrões da região. Aliás, num raio de três quilômetros ela era a maior e a melhor que existia. Talvez mesmo por ser a única. Tinha uns cinco daqueles cubículos que chamavam quarto, cujos assoalhos eram de terra batida. Tinha uma sala que servia de estar, hal, recepção, etc. que era um pouco grande e tinha assoalho de tijolos, grandes, largos e gastos, deixando transparecer a idade longeva. Adiante ficava a cozinha. Enorme. Chão batido! Estranhamente no meio dela um poço, sem qualquer proteção, no qual enfiei o focinho avaliando que deveria ter um metro de diâmetro e  uns vinte metros de profundidade até a água. Um passeio na cozinha por um desconhecido na escuridão da noite, era o mesmo que dar um abraço para o gaiteiro.

O Zênit que perambulava pela casa à noite, como se fosse um fantasma de um carcereiro mantendo ordem na masmorra, não era nada disso. Ele até compunha o nome do hotel, lembram-se Entroncamento Familiar - ~Zênit- Inglês Português - Pintor.

Ocorre que ele fora realmente um pintor, dera aulas de Português e de Inglês, e tendo sido picado por um ou milhares de  barbeiros, coisa que não seria difícil morando ali, por grave cardiomegalia e insuficiência respiratória, já não podia caminhar para trabalhar e montou seu trabalho em casa, no hotel, onde por falta de gosto, deu a impressão que as suas especialidades faziam parte do nome do estabelecimento. Nada!

Apenas coincidência e falta de senso na confecção da placa. Em função da sua terrível doença e  insuficiência respiratória dormia sentado numa poltrona, razão pela qual o seu sono era muito interrompido e  leve. Na verdade, ele não foi um espectro na madrugada que queria me assombrar, pelo contrário foi um anjo torto que me salvou daquele poço sem fundo. Soube que logo depois da nossa partida ele também partiu para o mundo espiritual.

Dona Maria após o nosso processo de higiene pessoal serviu um café horrível, chamado café cabeludo cujo pó era fervido junto com a água e o açúcar. Para acompanhar outra coisa mais nojenta ainda: cucuz.
Pagamos, abraços, obrigado, etc. e fomos para a nossa limusine, que estratégicamente ficou de morro abaixo para que não precisássemos empurrá-la de manhã. No carro, enquanto eu reclamava de tudo, Clarindo atentamente ouvia, até que terminado o meu relatório ele disse:

- Calma! Ainda não conheces o Maranhão!
Olha! Queres saber de uma coisa, Sérgio?
Vou ficando por aqui uma vez que passamos ainda uma semana em Terezinha de Goiás, e eu não agüento mais a preguiça de escrever. Afinal de contas na epopéia eu tinha em torno de 30 anos. Agora tenho quase 60, e canso muito mais.
Há! Outra coisa: Quando me escreveres usa letra tamanho 14, pois eu tenho dificuldades para ler letrinhas miudinhas. Deixa de ser vadio.

Sérgio, tu que entrastes pela janela e voltastes a fumar, vais ter que aturar mais um pouco da narrativa, porque hoje fui levado a isso, de maneira que só me restou terminar de contar essa história.

Mas antes de conhecer o Maranhão, tivemos algumas atividades ainda na região de Alto Paraíso de Goiás. Ainda não havia começado o "boom" esotérico que transformou a região no coração alternativo nacional.
Então, do hotel voltamos à Teresina de Goiás onde tivemos que trocar a nossa limusine por uma Rural Willys que transformada em ambulância havia sido descartada pelo Ministério da Saúde, e era assim o "rent a car" da cidade, sem uso há quase um ano. Uma maravilha! Ano de fabricação 1965. Limpeza de carburador, limpeza de velas e um jeito no distribuidor, coisa que nós mesmos executamos, deixaram-na pronta ao serviço alternativo que iríamos dar-lhe: servir a vagabundagem e ao ócio. Mas cá para nós e francamente, melhor do que a vagabundagem e o ócio seria acrescentar-lhes a luxúria, coisa que lá seria quase impossível. Como diria o nosso querido e festejado Zé Casal, melhor que isso, só dar banho em moça!

No centro tinha um posto de gasolina. Apenas uma bomba daquelas antigas enfiada no meio do nada, um comércio,  de um italiano por sinal casado com uma catarinense de São Bento. O comércio era generalista e incorporava num mesmo estabelecimento secos e molhados (a bem da verdade mais molhados que secos, pois a área bar atendia mais gente que a restante), alimentos, texteis, produtos agropecuários,  farmacêuticos e café, tudo no mesmo balcão. A catarinense que fazia parte das coisas, inclusive o café e o pão, também receitava, além de aplicar injeções. Enfim um estabelecimento polivalente e multi-operacional. O italiano, além de ajudar nestas coisas, também tinha a exclusividade de atender o posto de gasolina.

Tinha também um tipo estranho que era o único, me parece funcionário público que trabalhava. Ele ligava o gerador às sete horas da manhã, diariamente e desligava às dez horas da noite, além de mensalmente cobrar a conta que era medida não pelo consumo, mas pelo número de "bicos". Bicos eram as tomadas de energia. Dada à desonestidade generalizada, ali por volta das vinte horas até o desligamento, a luminosidade era emitida em ondas, que eles chamavam: "baixa, baixa, baixa, sobe, sobe, sobe, baixa, baixa, baixa, sobe, sobe, sobe," Às vezes faziam em grupo e em uníssono, dando a impressão que estavam recitando mantras.

Conheci também o geólogo. Esse homem me impressionou positivamente! Havia sido expurgado do Ministério de Minas e Energia, mais precisamente do DNPM - Departamento Nacional de Produtos Minerais. Passou a ser nosso companheiro, pois fazia alguns trabalhos de livre iniciativa, tipo free-lance, sacas,  ou a soldo de alguém. Aí, meu caro, eu comecei a sentir o que é a "febre do ouro" fiquei convicto de que ela contamina qualquer um. O geólogo era muito experiente, e para mim que de geologia não sabia nem direito o que significava o nome, ele impressionava e surpreendia muito.

Meu caro, a região é muito rica. Cristais existiam de todos os tipos,  em todos os lugares e em grande quantidade. Trouxe até algumas amostras que fui perdendo ao longo do tempo, inclusive amostras de safira, topázio, ametista e turmalina entre outras pedras semi- preciosas brutas e cristais de todos os tipos.

Lá nós usávamos para praticar tiro ao alvo uma Winchester "papo amarelo" calibre 44, que veio acompanhada de um kit (na época nem se chamava kit) para recarga de cartuchos e montagem da munição. Aí eu pasmei e fiquei mais uma vez febril! Atirávamos sem parar e o consumo de chumbo para  projétil era grande. Sabes como nós obtínhamos o chumbo?

 - Pois bem, havia em abundância na região umas pedras de variados tamanhos e forma, muito pesadas e  de  uma cor grafitosa. Pois aí vem a maravilha! Bastava ajuntar um pouco delas por cima de uma fogueira, e dentro de poucos instantes o chumbo derretido fluía lentamente das mesmas, juntando-se no chão da fogueira. Quando queríamos recolher o chumbo, bastava apagar a fogueira  com água, afastar o carvão e as cinzas e as placas de  chumbo apareciam no chão. Aí então, era apanhar estas placas, fazer uma rápida limpeza, derretê-las numa panela para despejar sobre as formas dos projéteis. Para aumentar a produção, bastava tirar o que sobrava das pedras, uma massa esponjiforme dura, e substituir por novas pedras. Isso a gente irresponsavelmente deixava sob os cuidados de um guri, que durante a nossa permanência lá lhe damos esta empregatividade, então o garimpo, a lavra e a manufatura ele tocava com entusiasmo. A pólvora e as espoletas comprávamos no italiano. Segundo o Geólogo ninguém explorava chumbo lá!

Como não tínhamos nenhum roteiro definido passamos a ir aonde ele ia, todos a bordo da ambulância que fazíamos questão de acionar a sirene toda vez que chegávamos a Cavalcante. Mostrou-nos também uma reserva de caulim inexplorada, bem como uma reserva grande de calcáreo igualmente inexplorada.
Na véspera da nossa saída de lá fomos levados a um lugar pelo geólogo para mostrar-nos uma curiosidade.

Num descampado ao pé de uma inclinação nós estávamos caminhando sobre um amontoado de pedras picadas tipos daquelas pedras marrons que usam nos calçamento estilo mosaico português.
Eram praticamente todas de formato cúbico, de tamanho mais ou menos igual e tinham uma cor amarronzada.

O geólogo perguntou-me se eu conhecia aquilo, e antes que eu respondesse alguma coisa ele adiantou que aquilo não havia sido picado por mãos humanas,  que aquelas pedras eram naturalmente assim. Juntei uma, analisei, cheirei, aquilatei, observei as seis faces e arrisquei que deveria ser uma espécie de siderita ou minério ferroso.

Ele então perguntou se eu sabia o que era peach-blend. Claro que a pronúncia, bem como a interpretação foi horrível. Algo como pêssego não sei o que, armado.

 - Eu disse que não conhecia a expressão e que nunca tinha ouvido.
Como o cão do Clarindo não gostava de errar, tudo assistia calado para não se comprometer, ou então, sabia, pois ele detinha certo conhecimento de mineralogia e de gemologia, e estava apenas, como sempre, impassível para ver alguém quebrar a cara. No caso, eu! Então ele deu uma explicação que eu quase caio de costas.

Disse que aquilo era torianita o minério do urânio! Isso mesmo, urânio. Minério de urânio. Urânio eu conhecia de nome, da história  e da química. Era um minério com massa atômica alta, que na  sua composição comportava átomos isótopos, ou seja, átomos radioativos que poderiam ceder nêutrons e fazer a cisão de outros átomos da mesma massa transformando-os em plutônio.

Claro que para pegar o mineral de urânio, depurar e separar os átomos isotópicos, que é o que se chama enriquecimento do urânio é necessário um processo de alta tecnologia, mas com ele obtém-se o urânio enriquecido, sobrando o urânio empobrecido. O urânio enriquecido nada mais é do que o combustível das usinas nucleares, mais ainda, do processo da "queima do combustível" nuclear pode-se obter o plutônio, componente avançado para a bomba nuclear. Esse processo é efetuado nos laboratórios nucleares pelas ultra-centrífugas.

Hoje, com aqueles conhecimentos práticos adquiridos na época, analiso o terror que as nações ricas têm de que os países pobres obtenham e pratique essa tecnologia, como é o caso do Iran e da Coréia do Norte. até porque, mesmo que não se chegue a uma bomba atômica, com o urânio medianamente enriquecido pode-se obter o que é conhecido como "bomba suja" que se trata de um artefato que não tem nem de longe o poder de destruição de uma bomba atômica, mas detém um amplo poder de contaminação radioativa.

Para se ter idéia do que seja isso, basta lembrar-se de lá do mesmo Goiás, em 1987 quando num ferro-velho abriu-se uma ampola de radioterapia, derramando-se menos de 100 g. de césio.
Sérgio queres saber de uma coisa?
- Vai agora tomar banho!

 Meu caro, está começando um especial da Globo sobre a Elis Regina,  eu era e sou, incondicionalmente, fã da "Pimentinha". Com todos os seus defeitos na área sócio-política, ainda assim a Rede Globo é uma das maiores e melhores redes de comunicação do mundo. Tudo que faz, quando quer, faz irretocavelmente bem feito.É o caso das mini-séries. Poderíamos até dizer que a "Vênus Platinada" é a nossa Hollywood.
Fui
.

Lamentavelmente acabo de queimar a língua. O programa deixou a  desejar. Retomando o fio da narrativa, quando voltamos de lá daquele lugar do minério de urânio, já estava anoitecendo.
Nessa história até agora não entrou mulher, pela precariedade da existência e pela qualidade do material até então disponível.

Mas enquanto abastecíamos a ambulância no posto da catarinense, passou uma mulatinha, feia como necessidade em casa de pobre, mas mesmo assim o Clarindo queria arriscar um "fincão".
Negociação difícil e  demorada. Gente de fora, desconfiança a vencer e coragem a conquistar. Todavia fechada.

Combinado lá pelas oito horas da noite, num lugarzinho que eles chamavam, não sei por que, gogó.
Eu já havia ido lá algumas vezes. Tinha um lago muito bonito. O gogó era um buritizal que ficava às margens deste pequeno lago, uma espécie de lagoa.

Naqueles buritis antes do anoitecer chegavam araras aos pares, bandos de papagaios e outras espécies do gênero que eu acho vinham passar à noite ali, e antes de dormir faziam uma algazarra impressionante. Fui pilotando a ambulância até o lugar, e obviamente as instalações terapêuticas do compartimento da saúde serviram de motel para o desgraçado.

Estacionei a estrovenga, calcei com uma pedra para não correr, indo sentar um pouco além, embaixo do buritizal, que para mim virou secretaria de obras, pois nunca vi como "obravam" aqueles papagaios araras e não sei mais o que. Não sabia que aqueles animais eram tão laxos assim.

De lá divisei na escuridão o Clarindo abrindo o capô da ambulância e mexendo em alguma coisa. Foi quase uma hora de espera. Pareciam que os desgraçados dos carapanans sovelas estavam com o diabo no couro aquela noite,  e vinham em cima de mim e os malditos dos ferrões atravessavam as calças jeans. Havia ainda uns insetos miseráveis que entravam por baixo das roupas, e parece que atacavam sob um só comando, lembras, tipo alma-grupo. Desnecessário dizer que fiquei cheio de vergões e de urticárias. Um verdadeiro regime de terror.

Enfim, o miserável, lascivo e devasso rasputin saciou seus instintos primários e animalescos. Deu luz no carro e fomos embora, deixamos a moça perto do posto, pois já estava quase na hora de apagar as luzes, fato que embora não sendo prejudicial para nós, sê-lo-ia para a rapariga.

Ao retomar o caminho de Cavalcante, (há esquecí de falar que acabamos,  para escapar do Entrocamento Familiar, ficando num dormitório em Cavalcante até o final da permanência no inferno) perguntei ao Clarindo, que inexplicavelmente não reclamava de nenhum desconforto, nem da mosquitada, o que ele tinha ido mexer no motor da viatura.

A resposta foi hilária! Quase tragicômica:
- Fui pegar um pouco de óleo do motor, pela vareta para lubrificar o "trinchete", pois eu ia comer o rabo da nega! Ato contínuo deu mais um relincho daqueles que atravessou a silenciosa noite do planalto, o animal. Na véspera conseguimos com um sujeito que morava em Cavalcante, e que "concertava" (de acordo com a placa, diversas coisas)  dar um jeito no êmbolo do "burrinho de freio da nossa limusine", completamos o fluído com álcool, e ela estava pronta para o sofrimento da viagem de volta à Brasília que empreendemos na madrugada seguinte.

Nunca mais soube nada da nossa ambulância e nem do pessoal que conheci  por lá, à exceção da morte, ocorrida logo em seguida do Zênit, liquidado pela progressão terminal da doença de chagas.
Pois é meu caro,  fortão, escritor, aeroporto, pérsia, tudo isso são coisas que vão se somando a bagagem de vida da gente.

Numa outra oportunidade vou te falar sobre o Amazonas e o (cruz credo, vá de retro) Estado de Roraima, numa viagem em companhia do Cão Negro. Talvez até quem saiba de uma viagem com uma “limusine” melhor, um Fervete do ano, em que, sem pressa, saímos de Florianópolis e cortamos o Estado de Santa Catarina no sentido leste/oeste até adentrar um duzentos quilômetros adentro da República Argentina. Esta também com o Clarindo.

Depois de uns seis anos o Clarindo havia comprado um avião para fazer transporte, taxi aéreo, servindo a garimpeiros na região amazônica, estava muito satisfeito e os negócios iam bem.
O avião era um Piper fabricado pela Embraer com o nome de Carioca, cujo prefixo era PT- NAF, BL, isto é, barriga lisa, o que era impróprio para a região, mas muito próprio para ganhar aerodinâmica.  (em radiofonia, papa tango, november, alfa, fox).

Garimpeiro é um tipo à parte! Eles sempre estão em apenas  duas situações: Bamburrados ou lesados. Quando bamburrados gastam tudo que ganharam nas casas de tolerância; quando lesados fazem qualquer negócio. Num dia, numa decolagem de uma pista clandestina (lá existem inúmeras), onde provavelmente o NAF foi sabotado, (lá também existe muito isso) ele cai depois de uns cinco minutos de vôo. O que no meio da selva amazônica é uma situação muito difícil. Teve um TCE (traumatismo-crânio-encefálico), resgatado em coma por uma unidade de busca do Exército sediada em Altamira no Pará, permaneceu uns quatro meses internado num hospital em Belém. Como já não era muito certo, declinou para o pior, tornando-se uma pessoa de difícil convivência. Tudo o que tinha foi roubado e hoje mora com uma moça, numa situação de pobreza, além de sequelado e diabético, em Coromandel, cidadezinha do interior de Minas Gerais, cujo egrégora do povo é ficar rico às custas da lavra de diamante, razão pela qual todos nos finais de semana e feriados saem para “faiscar”. Acredito que seja complexo do antigo Arraial do Tijuco, da Chica da Silva, hoje Diamantina de JK.

O acidente foi em 1981. Nós tínhamos uma amizade desde 1959, quando éramos crianças e ganhamos bicicletas de Natal. Restou do Clarindo as grandes aventuras e as situações hilárias que tivemos durante a nossa juventude, das quais muitas  ele não mais  lembra. Essa foi em resumo a nossa passagem pela Baixada dos Viadeiros em Alto Paraíso de Goiás.

Omiti, claro, inúmeras baixezas, vilanias e malvadezas efetuadas pelo rocinante do Clarindo até para poupar a sua reputação, mas sem dúvidas, no balanço dos prós e contras era um excelente companheiro de viagem. Até mesmo porque aquela viagem não tinha compromisso com nada. Não tinha objetivo, tampouco senso. Era a típica viagem de vagabundagem no exato sentido
da palavra.

Walter


  • Walter Pacheco Junior  é Cirurgião-Dentista e Escritor - Contato: wpacheco@matrix.com.br


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