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Agostinho van den Broek 

 



O  Dar mais do que se pede

  

Você já passou pela situação constrangedora de ter que  pedir dinheiro emprestado? Ou então o que é pior – ter que pedir esmola na certeza que nunca vai poder devolvê-la? Quantos “nãos” ”o pedinte tem que engolir; quantas “caras feias” tem que suportar!

E que alívio quando alguém oferece parte da quantia solicitada ou, melhor ainda, quando o pedinte recebe tudo o que pediu!

E imagina a sua alegria se receber mais do que pediu!!! Ele não vai caber dentro de si de tanta alegria. Mas é difícil acontecer!

O pedinte está sempre numa situação de inferioridade, de dependência. Quem pede não escolhe, mas agradece o que lhe for dado. Tanto o pedinte como o doador sabe muito bem quanto vale o dinheiro doado. Sabe o que se pode comprar com ele. Como também sabe o quanto faz falta. Não dá para enganar ninguém!

A coisa muda um pouco de figura quando se trata de pedir um favor ou, então, de cobrar um direito. Nem sempre as pessoas têm consciência do que é “favor” e do que é “direito”. Enquanto alguns se desdobram em agradecimentos ao receber algum direito, outros não dizem nem “obrigado” quando recebem um favor.

Um favor pode ser concedido ou não. Depende de quem está com o “poder” de concedê-lo. A pessoa pode atender tudo ou parcialmente e ainda colocar algumas “condições”. “Vou prestar-lhe  este favor, sim, mas quero  então que você faça o seguinte...” Nessa “troca de favores” leva vantagem aquele que está na posição superior. “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco”.

E vamos ver ainda uma terceira situação: quando alguém quer adquirir conhecimento.  Muita gente está disposta a pagar para fazer algum curso que lhe possa garantir um melhor emprego. Quanta gente  trabalha e estuda ao mesmo tempo. Estão investindo no futuro. Estão plantando para colher depois. Outros têm vontade de fazer faculdade: muita gente faz vestibular para poucas vagas. Tem gente que faz vestibular em 2, 3 lugares e isso, às vezes, durante 3, 4 anos!

E quando aparece um curso gratuito? Logo as vagas se esgotam:  cursinho para vestibular, datilografia, informática ... Tem pessoas aposentadas fazendo curso de alfabetização! Pessoas de 50, 60 anos, que só têm o fundamental, estão fazendo o ensino médio. E TODOS acham que vale a pena! E nem sempre estão em busca de interesses materiais. Às vezes é pelo puro prazer de saber mais; ou então é para acompanhar melhor os filhos e netos.

O QUE TUDO ISSO TEM A VER COM O BATISMO?

 O nosso povo entende que uma criança tem que ser batizada. Sem isso não tem salvação: “Quem crer e for batizado será salvo”. Mc. 16, 16.  Está no Evangelho e a Igreja também sempre ensinou que “sem batismo não há salvação”.  Durante séculos bastava trazer as crianças recém-nascidas – quanto antes melhor! – e eram batizadas e registradas no livro do batismo. Bem antes do Estado registrar os nascimentos, a igreja já registrava os batizados.  O batismo não era  nenhum favor:  era um direito da criança.  E a cada direito corresponde um dever: o dever dos pais para procurar o batismo e o dever da igreja de realizá-lo!

Não era nem preciso os pais comparecerem ao batismo dos seus filhos. Era papel dos padrinhos. A mãe muitas vezes ainda estava de resguardo e o pai ainda estava comemorando o nascimento do filho, enquanto os padrinhos tratavam do batismo. Nem sabiam direito o nome dos pais e registravam o afilhado de qualquer jeito no livro do batismo. Não era exigido nenhum documento como certidão de nascimento. O importante era “batizar” e não havia nenhuma exigência especial.

Mas, de repente, a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja resolve colocar algumas condições para o batismo de crianças. É que a Igreja percebe que os sacramentos precisam ser valorizados e que o próprio leigo deveria participar mais de sua comunidade. Surgem os “cursinhos” de preparação para o batismo. Leigos de boa vontade – mas sem nenhuma preparação prévia – são solicitados para dar cursos a pais e padrinhos que querem batizar os seus filhos.

 

  • Agostinho van den Broek mSC é Padre, autor do Livro "Dar mais do que se pede". broekaan@br.inter.net

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