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Ib Araripe Soares


 A RELIGIÃO UNIVERSAL
 
 

 

 Decerto que viemos do Todo e  para o Todo retornaremos. A Fonte de todas as coisas manifesta tudo o que é visível e invisível, e porquanto, tudo o que há e o que não há constitui a real expressão do Absoluto.  A Infinita Providência provê o Universo manifesto e não-manifesto (Hermes Trismegisto), dispondo-o, a partir de Seu inesgotável manancial, não que seja o mesmo necessário e indispensável, pois nada carece  ou necessita para a Essência, porquanto seja assim feito para manifestar através da criação Sua natureza e insofismável existência.

 A natureza Divina infunde-se em todas as coisas e estabelece Sua expressão sobre tudo o que é criado. No vazio e no cheio, Ele está presente. Na água, no ar e na matéria percebe-se a revelação virtual de Sua existência. O Todo se revela da forma como pode ser compreendido pela nossa mente objetiva finita, sujeita ainda aos processos mentais limitados e imperfeitos. Não temos, neste atual estado de consciência, a capacidade de entender Sua essência real legítima, de modo que se nos revela através de Sua inesgotável e infinita criação.

 O homem, por encontrar-se por ora distante da graça de reconhecê-Lo em Sua verdadeira e genuína imagem, tem por destino Cósmico inalienável infundir-se em essência com a divina vibração do Absoluto. Somos matéria, espírito e alma, a trindade manifesta do Criador, à Sua imagem e semelhança, consciência e energia calcadas sobre o pilar da Divindade. À medida que assumimos nossa dimensão espiritual potencial, refletimos aos poucos o Divino imanente em nós. Devemos, pois, ultrapassar os portais da carne e do espírito para infundirmos em vibração com a Alma Universal, através da consciência espiritual enfim restabelecida.        

 A maioria das religiões suscita-nos a busca da espiritualidade como o meio para a conquista da imortalidade e da felicidade suprema. Muitos, pois, são os caminhos em direção à casa de meu Pai. Desta forma, as religiões desempenham papel relevante no enquadramento de seus seguidores para o exercício de uma vida material e moral saudável, obtendo assim resultados eficazes e substantivos. Cada qual de nós, dentro de nossa esfera de compreensão, segundo nosso particular grau de consciência das coisas, crê nas mensagens, princípios e valores  emanados, com os quais se afinam nossa mente e coração. Conquanto sejam distintos e variados os entendimentos, o importante sempre será o processo da busca, bem como os passos que se consegue dar avante na senda pela perfeição espiritual. A doutrina, por sua vez, será sempre acessória e, costumeiramente, a tábua de salvação visível a que se prende o crente como sustentação de sua fé, dependente porventura de estímulos exteriores e concretos.

A religião legítima é contudo a que nos conecta em espiritualidade, e não em palavras, com o Deus de nossa devoção interior. Aquela que prescinde de leituras alheias para a ingestão de doutrinas dogmáticas, às quais quase sempre nos falha o entendimento puro e a voluntária aceitação. A que obedece nossos limites e nível circunstancial de compreensão, e que nos preceitua o remédio espiritual, segundo seja a doença manifestada através do livre-arbítrio exercitado, e que estimula porquanto a prática do bem sob a genuína e fraterna doação. Aquela ainda que nos abre o portal da alma para a sintonia com os degraus superiores de consciência, sustentando-nos com o alimento sutil da espiritualidade em conexão com o Sublime e Eterno vivente em nós.

 A religião universal é aquela que une todos os seres humanos na unicidade do Todo, sem segregação ou preconceitos, e pela congregação das almas individuais no útero sublime da Divindade Absoluta, alfa e ômega de toda criatura humana.

 As ovelhas desgarradas no caminho carecem ainda de proteção e, sob a orientação do Divino Pastor, formarão um só rebanho, aonde  pastarão serenas apascentadas à Sua sombra.

 É preciso retomar a direção para o reencontro com o Deus legítimo desligado voluntariamente pelo espírito, preso aos apegos exteriores que nos imobilizam a alma no contexto dos mundos inferiores e infelizes, o caminho portanto do amor, da luz e da paz interior, de modo a conquistarmos enfim a certificação da divindade que nos religará, através da eternidade, à Alma Universal. Somos assim atraídos todos à Unidade, aos apelos sutis da voz interior sussurrada no silêncio da alma em conexão sublime com o Altíssimo.

 Amar uns aos outros, como irmãos, através da mútua empatia e da solidariedade humana, de modo a fortalecer o elo da corrente vibratória do amor universal, deve ser o ritual que seja praticado no altar do Deus de nossa verdadeira devoção. Decerto, pois, que ninguém alcança o Pai senão que seja através de seus irmãos, pois neles Se revela e para os quais devemos estender o bem como se a nós mesmos fosse. Pela prova da tolerância e pela prática do amor legítimo alcançaremos a graça de infundirmo-nos com o Sublime, com a Luz Celestial que nos enobrece a todos a hereditária ligação. Cada qual, porém, deve ser sua própria religião, porque não há caminho igual que sirva a todos, porquanto temos cada um a senda suscitada segundo sejam nossos pecados originais, os quais nos cabe particularmente remover como entulhos sedimentados ao longo das existências inferiores precedentes. São, pois, os portais que nos abrem aos poucos o acesso à Mente Universal.   

 A religião genuína é como a água pura e cristalina. Encontramo-la no vinho, nos rios, no mar, na chuva, nos lagos, no remédio amargo que nos mitiga o mal e a dor. Estando presente na forma, natureza e condição que nos servem conforme sejam nossas necessidades, a água se nos revela nas mais variadas manifestações, preservando, contudo, em essência, sua natureza imutável e legítima. Assim é a religião universal, disposta à humanidade através das doutrinas servidas segundo sejam as diversas compreensões, conforme sejam os entendimentos da Verdade Absoluta subjacente às mensagens transmitidas por todos os cantos da Terra. Servem contudo de ligação com nossa consciência interior à espera da conexão sutil e necessária, removidos os entulhos da materialidade prevalente, de forma a sintonizarmos com os degraus superiores de existência real e eterna.

 A vida é, por certo, a religião legítima que recebemos como dádiva para a conquista da espiritualidade inexorável, o batismo celestial que une a todos como crentes de uma doutrina que se eleva acima de todas as crenças e que se nos expande a mente para padrões superiores de consciência, de forma lenta, porém inevitável. Porque estão gravadas de ouro no livro sagrado do universo, as suas leis, emanadas da Fonte primordial cujos preceitos provêm do Verbo Divino manifestado em todas as línguas e religiões. Através da vida, aprendemos as experiências necessárias para nossa evolução exterior e dominamos ainda o mundo lá fora como pressuposto para a sobrevivência material privilegiada, destarte sejam conquistas efêmeras e limitadas.

 Precisamos evoluir a consciência interior, expandi-la para além das muralhas do ego que prevalecem por ora sobre o domínio da mente material. Deixar desabrochar a flor da espiritualidade no jardim divino do coração puro e virtuoso e alimentá-la então pela fotossíntese da verdadeira sabedoria que esclarece e orienta o espírito por ora em aflição.

 A verdadeira religião não batiza jamais, pelo sangue, seus irmãos. Nem tampouco estabelece cercas em redor de seus domínios de pedras, porque sua fortaleza é de luz e sua doutrina, a fé calcada na reflexão. Abre-se então o portal para a glorificação da raça humana nessa era de remissão dos pecados e de conhecimento superior, através do canal da centelha divina que infunde todos os seres humanos, cristãos ou muçulmanos, judeus ou protestantes, budistas ou hinduístas, crentes ou descrentes, santos ou pecadores, pois detêm todos o potencial da divindade no íntimo profundo de seus corações.

 Somos, por certo, partículas de luz em eterna expansão, projeção do Todo em viagem insólita pelo universo sideral. Nossa religião, portanto, supera as crenças ilusórias e ingênuas de céus e infernos exteriores, porque descendemos de uma casta celestial a nos enobrecer a consciência, desligada ainda de sua hereditária e remota nobreza.   

               


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