A RELIGIÃO UNIVERSAL
Decerto
que viemos do Todo e para o
Todo retornaremos. A Fonte de todas as coisas manifesta tudo o que é visível
e invisível, e porquanto, tudo o que há e o que não há constitui a
real expressão do Absoluto. A
Infinita Providência provê o Universo manifesto e não-manifesto (Hermes
Trismegisto), dispondo-o, a partir de Seu inesgotável manancial, não que
seja o mesmo necessário e indispensável, pois nada carece
ou necessita para a Essência, porquanto seja assim feito para
manifestar através da criação Sua natureza e insofismável existência.
A natureza Divina
infunde-se em todas as coisas e estabelece Sua expressão sobre tudo o que
é criado. No vazio e no cheio, Ele está presente. Na água, no ar e na
matéria percebe-se a revelação virtual de Sua existência. O Todo se
revela da forma como pode ser compreendido pela nossa mente objetiva
finita, sujeita ainda aos processos mentais limitados e imperfeitos. Não
temos, neste atual estado de consciência, a capacidade de entender Sua
essência real legítima, de modo que se nos revela através de Sua
inesgotável e infinita criação.
O homem, por
encontrar-se por ora distante da graça de reconhecê-Lo em Sua verdadeira
e genuína imagem, tem por
destino Cósmico inalienável infundir-se em essência com a divina vibração
do Absoluto. Somos matéria, espírito e alma, a trindade manifesta do
Criador, à Sua imagem e semelhança, consciência e energia calcadas
sobre o pilar da Divindade. À medida que assumimos nossa dimensão
espiritual potencial, refletimos aos poucos o Divino imanente em nós.
Devemos, pois, ultrapassar os portais da carne e do espírito para
infundirmos em vibração com a Alma Universal, através da consciência
espiritual enfim restabelecida.
A
maioria das religiões suscita-nos a busca da espiritualidade como o meio
para a conquista da imortalidade e da felicidade suprema. Muitos, pois, são
os caminhos em direção à casa de meu Pai. Desta forma, as religiões
desempenham papel relevante no enquadramento de seus seguidores para o
exercício de uma vida material e moral saudável, obtendo assim
resultados eficazes e substantivos. Cada qual de nós, dentro de nossa
esfera de compreensão, segundo nosso particular grau de consciência das
coisas, crê nas mensagens, princípios e valores
emanados, com os quais se afinam nossa mente e coração. Conquanto
sejam distintos e variados os entendimentos, o importante sempre será o
processo da busca, bem como os passos que se consegue dar avante na senda
pela perfeição espiritual. A doutrina, por sua vez, será sempre acessória
e, costumeiramente, a tábua de salvação visível a que se prende o
crente como sustentação de sua fé, dependente porventura de estímulos
exteriores e concretos.
A religião legítima é
contudo a que nos conecta em espiritualidade, e não em palavras, com o
Deus de nossa devoção interior. Aquela que prescinde de leituras alheias
para a ingestão de doutrinas dogmáticas, às quais quase sempre nos
falha o entendimento puro e a voluntária aceitação. A que obedece
nossos limites e nível circunstancial de compreensão, e que nos
preceitua o remédio espiritual, segundo seja a doença manifestada através
do livre-arbítrio exercitado, e que estimula porquanto a prática do bem
sob a genuína e fraterna doação. Aquela ainda que nos abre o portal da
alma para a sintonia com os degraus superiores de consciência,
sustentando-nos com o alimento sutil da espiritualidade em conexão com o
Sublime e Eterno vivente em nós.
A religião
universal é aquela que une todos os seres humanos na unicidade do Todo,
sem segregação ou preconceitos, e pela congregação das almas
individuais no útero sublime da Divindade Absoluta, alfa e ômega de toda
criatura humana.
As ovelhas
desgarradas no caminho carecem ainda de proteção e, sob a orientação
do Divino Pastor, formarão um só rebanho, aonde
pastarão serenas apascentadas à Sua sombra.
É preciso retomar
a direção para o reencontro com o Deus legítimo desligado
voluntariamente pelo espírito, preso aos apegos exteriores que nos
imobilizam a alma no contexto dos mundos inferiores e infelizes, o caminho
portanto do amor, da luz e da paz interior, de modo a conquistarmos enfim
a certificação da divindade que nos religará, através da eternidade,
à Alma Universal. Somos assim atraídos todos à Unidade, aos apelos
sutis da voz interior sussurrada no silêncio da alma em conexão sublime
com o Altíssimo.
Amar uns aos
outros, como irmãos, através da mútua empatia e da solidariedade
humana, de modo a fortalecer o elo da corrente vibratória do amor
universal, deve ser o ritual que seja praticado no altar do Deus de nossa
verdadeira devoção. Decerto, pois, que ninguém alcança o Pai senão
que seja através de seus irmãos, pois neles Se revela e para os quais
devemos estender o bem como se a nós mesmos fosse. Pela prova da tolerância
e pela prática do amor legítimo alcançaremos a graça de infundirmo-nos
com o Sublime, com a Luz Celestial que nos enobrece a todos a hereditária
ligação. Cada qual, porém, deve ser sua própria religião, porque não
há caminho igual que sirva a todos, porquanto temos cada um a senda
suscitada segundo sejam nossos pecados originais, os quais nos cabe
particularmente remover como entulhos sedimentados ao longo das existências
inferiores precedentes. São, pois, os portais que nos abrem aos poucos o
acesso à Mente Universal.
A religião genuína
é como a água pura e cristalina. Encontramo-la no vinho, nos rios, no
mar, na chuva, nos lagos, no remédio amargo que nos mitiga o mal e a dor.
Estando presente na forma, natureza e condição que nos servem conforme
sejam nossas necessidades, a água se nos revela nas mais variadas
manifestações, preservando, contudo, em essência, sua natureza imutável
e legítima. Assim é a religião universal, disposta à humanidade através
das doutrinas servidas segundo sejam as diversas compreensões, conforme
sejam os entendimentos da Verdade Absoluta subjacente às mensagens
transmitidas por todos os cantos da Terra. Servem contudo de ligação com
nossa consciência interior à espera da conexão sutil e necessária,
removidos os entulhos da materialidade prevalente, de forma a
sintonizarmos com os degraus superiores de existência real e eterna.
A vida é, por
certo, a religião legítima que recebemos como dádiva para a conquista
da espiritualidade inexorável, o batismo celestial que une a todos como
crentes de uma doutrina que se eleva acima de todas as crenças e que se
nos expande a mente para padrões superiores de consciência, de forma
lenta, porém inevitável. Porque estão gravadas de ouro no livro sagrado
do universo, as suas leis, emanadas da Fonte primordial cujos preceitos
provêm do Verbo Divino manifestado em todas as línguas e religiões.
Através da vida, aprendemos as experiências necessárias para nossa
evolução exterior e dominamos ainda o mundo lá fora como pressuposto
para a sobrevivência material privilegiada, destarte sejam conquistas efêmeras
e limitadas.
Precisamos evoluir
a consciência interior, expandi-la para além das muralhas do ego que
prevalecem por ora sobre o domínio da mente material. Deixar desabrochar
a flor da espiritualidade no jardim divino do coração puro e virtuoso e
alimentá-la então pela fotossíntese da verdadeira sabedoria que
esclarece e orienta o espírito por ora em aflição.
A verdadeira religião
não batiza jamais, pelo sangue, seus irmãos. Nem tampouco estabelece
cercas em redor de seus domínios de pedras, porque sua fortaleza é de
luz e sua doutrina, a fé calcada na reflexão. Abre-se então o portal
para a glorificação da raça humana nessa era de remissão dos pecados e
de conhecimento superior, através do canal da centelha divina que infunde
todos os seres humanos, cristãos ou muçulmanos, judeus ou protestantes,
budistas ou hinduístas, crentes ou descrentes, santos ou pecadores, pois
detêm todos o potencial da divindade no íntimo profundo de seus corações.
Somos, por certo,
partículas de luz em eterna expansão, projeção do Todo em viagem insólita
pelo universo sideral. Nossa religião, portanto, supera as crenças ilusórias
e ingênuas de céus e infernos exteriores, porque descendemos de uma
casta celestial a nos enobrecer a consciência, desligada ainda de sua
hereditária e remota nobreza.
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