OS LIMITES DO EGO
Cada ser humano manifesta
sua individualidade, expressando a personalidade particular ao mundo. Eu
sou ! Assim cada qual de nós se identifica, indivíduo distinto e único
no Universo. Somos porquanto almas individuais, com um destino coletivo.
Personalidades cósmicas que descrevem uma história insólita, peregrinos
que perseguem suas Basílicas de devoção.
Quanto seja
coletivamente que vivamos, nas sociedades desenvolvidas deste início de
milênio, ainda assim sentimo-nos sós; isolados dentro de um turbilhão
de vozes à nossa volta, e ilhados em um oceano de multidões, porquanto
consciência individual destarte "preservada" sob o imperativo
do Ego.
Em torno de nosso
centro forjamos nossas características de personalidade, a casca
grosseira que simula nosso jeito de ser e de pensar as coisas.
Configuramos assim a individualidade que expressamos ao mundo,
manifestando a personalidade construída, tijolo a tijolo, com nossas histórias
e abstrações de vida. Não obstante haver no contexto social sintonias
de valores, atitudes, crenças e princípios, no âmago do ser cada qual
professa sua identidade particular, a qual nos confere trajetória e
personalidade únicas.
Considerando que
portamos níveis distintos e graduados de consciência, o Ego, por si,
representando o nível mais baixo na escala pertinente, predomina mesmo
assim como característica principal do ser humano, conquanto esteja no
estágio atual de sua transcendência cósmica. À medida que evolui, em
direção à Fonte do amor, da verdade e da vida eterna, transcende
estados polarizados sobre os níveis inferiores de consciência para
patamares mais elevados e sublimes, de condições grosseiras e negativas
portanto para estágios sutilizados e positivos.
Enquanto Ego, a
consciência expressa situações, pensamentos e atitudes de sua natureza
específica, contudo caracterizados pela materialidade e pelo
egocentrismo, o que nos impele acreditar sermos o centro do mundo, e
apegarmos a valores artificiais e ilusórios. Polarizado assim em grau
inferior de consciência, limita-se à sua dimensão grosseira e
mesquinha, propenso então à sintonia com conceitos, valores e ocupações
inferiores: a idolatria, os vícios morais, a intolerância, a vaidade, o
orgulho, os apegos materiais, o poder temporal, e assim por diante.
Limitado assim a este contexto de vida e de consciência, e alheio aos
apelos da verdade que liberta, decerto pelas vendas impostas devido ao
aprisionamento de que seja então vítima voluntária, assume uma postura
hipócrita, falsa e leviana, as quais o impõem desdenhar os tesouros genuínos
que não consegue obter por legítima vontade e conquista pessoal.
Habitua-se o Ego a
atender os apelos de menor vibração que sua freqüência mais rude pode
captar, estando assim quase sempre focado com os sentidos sobre o mundo
exterior, orientando-se pelos referenciais concretos com os quais se
identifica, no lugar pois de atender aos apelos e aconselhamentos sutis de
fonte interior. Destarte, sente-se atraído pelos chamamentos e valores
objetivos que sua limitada visão pode perceber, refratando-se aos
verdadeiros tesouros de que seja herdeiro por legítima herança
espiritual.
Em sintonia com os
prazeres limitados e artificiais que sua ilusória condição obtém,
apega-se a conquistas mesquinhas e finitas, relegando a felicidade real e
duradoura a qual lhe escapa a
oportuna providência. Enclausurado pois sob seus limites de pedra, em
fortaleza que lhe serve mais de prisão do que lhe resguarda dos ataques
imaginários de que possa ser vítima, torna-se amargo e solitário em seu
castelo de areia e pó. Manifesta-se
receoso de perder as migalhas que lhe satisfazem apenas o paladar, quando
poderia, pela transcedência do espírito, elevar-se a estados de consciência
mais elevados, e saborear assim o alimento da vitalidade espiritual, a que
lhe garantiria enfim a sobrevida para a eternidade.
Assim, com frequência,
arma-se o Ego com os escudos da hipocrisia, decerto para justificar seus
tesouros de barro e ilusões, valores estes que se apega como fossem reais
e indispensáveis, polarizando a consciência na valorização de
conceitos, referenciais, crenças e bens que aprisionam a alma sob o cárcere
da materialidade adversa. Conquanto sua morada seja o intelecto, ocupado
por vezes com as questões inferiores do mundo e da vida, a da alma sempre
será o coração; o portal para a harmonização com a Luz, que a nutre
com o alimento sutil da fraternidade, e a liberta assim das correntes e
amarras da materialidade.
È pois através da
energia do amor, que o ser humano deverá transcender os limites da
ditadura do Ego, posicionando-se sob padrões superiores de consciência,
de forma a reintegrar-se com sua Fonte, a centelha de luz que lhe
certifica a divindade manifesta, o Absoluto em Sua expressão de luz, de
paz e de vida eterna. Todavia, enquanto polarizado sob as ocupações
limitadas e artificiais imperativas do Ego, posiciona-se distante de seu
eixo central de sustentação, a alma, a qual provê equilíbrio e vida
superior, sintonizada pelos canais de luz que se estabelece pela reflexão
intuitiva e pela meditação redentora.
Ao ser humano
carece desvencilhar-se das amarras impostas pelo Ego, transcender os
limites exíguos do contorno da individualidade, libertando-se assim de um
mundo pequeno e mesquinho que, por ser infinito e eterno, nem a si próprio
se satisfaz. Para então, liberto desse jugo vicioso e nefasto, alçar o vôo
da espiritualidade para uma dimensão de vida e de consciência ilimitadas
e genuínas, para a verdadeira Majestade, cujos poderes provêm de fonte
inesgotável de um manancial de sabedoria, de virtude e de amor,
com a Qual se harmonizará então através das vibrações sutis da
divindade restabelecida.
Despertará por fim
da letargia inútil a qual dormita por ora a consciência, libertando-se
de cárcere privado que se submetera por intermináveis existências,
fruto de sua indolência e inércia voluntárias, as quais lhe subjugaram
o espírito com os grilhões do vício, da ignorância e da desintegração
moral. Ao redimir o espírito dos pesos e fardos que se lhe impôs o Ego,
conquistará a soberania espiritual pela independência da alma, assumindo
a personalidade divina de hereditária nobreza cósmica.
Não obstante,
constitui o Ego o embrião da espiritualidade, o casulo onde o homem
desenvolve o potencial divino imanente, a forja na qual o espírito
adquire resistência para a vida, sendo assim o útero que germina o ser
para a maternidade espiritual.
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