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Ib Araripe Soares


OS LIMITES DO EGO
 
   

Cada ser humano manifesta sua individualidade, expressando a personalidade particular ao mundo. Eu sou ! Assim cada qual de nós se identifica, indivíduo distinto e único no Universo. Somos porquanto almas individuais, com um destino coletivo. Personalidades cósmicas que descrevem uma história insólita, peregrinos que perseguem suas Basílicas de devoção.

 Quanto seja coletivamente que vivamos, nas sociedades desenvolvidas deste início de milênio, ainda assim sentimo-nos sós; isolados dentro de um turbilhão de vozes à nossa volta, e ilhados em um oceano de multidões, porquanto consciência individual destarte "preservada" sob o imperativo do Ego.

 Em torno de nosso centro forjamos nossas características de personalidade, a casca grosseira que simula nosso jeito de ser e de pensar as coisas. Configuramos assim a individualidade que expressamos ao mundo, manifestando a personalidade construída, tijolo a tijolo, com nossas histórias e abstrações de vida. Não obstante haver no contexto social sintonias de valores, atitudes, crenças e princípios, no âmago do ser cada qual professa sua identidade particular, a qual nos confere trajetória e personalidade únicas.

 Considerando que portamos níveis distintos e graduados de consciência, o Ego, por si, representando o nível mais baixo na escala pertinente, predomina mesmo assim como característica principal do ser humano, conquanto esteja no estágio atual de sua transcendência cósmica. À medida que evolui, em direção à Fonte do amor, da verdade e da vida eterna, transcende estados polarizados sobre os níveis inferiores de consciência para patamares mais elevados e sublimes, de condições grosseiras e negativas portanto para estágios sutilizados e positivos.  

 Enquanto Ego, a consciência expressa situações, pensamentos e atitudes de sua natureza específica, contudo caracterizados pela materialidade e pelo egocentrismo, o que nos impele acreditar sermos o centro do mundo, e apegarmos a valores artificiais e ilusórios. Polarizado assim em grau inferior de consciência, limita-se à sua dimensão grosseira e mesquinha, propenso então à sintonia com conceitos, valores e ocupações inferiores: a idolatria, os vícios morais, a intolerância, a vaidade, o orgulho, os apegos materiais, o poder temporal, e assim por diante. Limitado assim a este contexto de vida e de consciência, e alheio aos apelos da verdade que liberta, decerto pelas vendas impostas devido ao aprisionamento de que seja então vítima voluntária, assume uma postura hipócrita, falsa e leviana, as quais o impõem desdenhar os tesouros genuínos que não consegue obter por legítima vontade e conquista pessoal.

 Habitua-se o Ego a atender os apelos de menor vibração que sua freqüência mais rude pode captar, estando assim quase sempre focado com os sentidos sobre o mundo exterior, orientando-se pelos referenciais concretos com os quais se identifica, no lugar pois de atender aos apelos e aconselhamentos sutis de fonte interior. Destarte, sente-se atraído pelos chamamentos e valores objetivos que sua limitada visão pode perceber, refratando-se aos verdadeiros tesouros de que seja herdeiro por legítima herança espiritual.

Em sintonia com os prazeres limitados e artificiais que sua ilusória condição obtém, apega-se a conquistas mesquinhas e finitas, relegando a felicidade real e duradoura a qual lhe escapa  a oportuna providência. Enclausurado pois sob seus limites de pedra, em fortaleza que lhe serve mais de prisão do que lhe resguarda dos ataques imaginários de que possa ser vítima, torna-se amargo e solitário em seu castelo de areia e pó.  Manifesta-se receoso de perder as migalhas que lhe satisfazem apenas o paladar, quando poderia, pela transcedência do espírito, elevar-se a estados de consciência mais elevados, e saborear assim o alimento da vitalidade espiritual, a que lhe garantiria enfim a sobrevida para a eternidade.

 Assim, com frequência, arma-se o Ego com os escudos da hipocrisia, decerto para justificar seus tesouros de barro e ilusões, valores estes que se apega como fossem reais e indispensáveis, polarizando a consciência na valorização de conceitos, referenciais, crenças e bens que aprisionam a alma sob o cárcere da materialidade adversa. Conquanto sua morada seja o intelecto, ocupado por vezes com as questões inferiores do mundo e da vida, a da alma sempre será o coração; o portal para a harmonização com a Luz, que a nutre com o alimento sutil da fraternidade, e a liberta assim das correntes e amarras da materialidade.    

 È pois através da energia do amor, que o ser humano deverá transcender os limites da ditadura do Ego, posicionando-se sob padrões superiores de consciência, de forma a reintegrar-se com sua Fonte, a centelha de luz que lhe certifica a divindade manifesta, o Absoluto em Sua expressão de luz, de paz e de vida eterna. Todavia, enquanto polarizado sob as ocupações limitadas e artificiais imperativas do Ego, posiciona-se distante de seu eixo central de sustentação, a alma, a qual provê equilíbrio e vida superior, sintonizada pelos canais de luz que se estabelece pela reflexão intuitiva e pela meditação redentora.

 Ao ser humano carece desvencilhar-se das amarras impostas pelo Ego, transcender os limites exíguos do contorno da individualidade, libertando-se assim de um mundo pequeno e mesquinho que, por ser infinito e eterno, nem a si próprio se satisfaz. Para então, liberto desse jugo vicioso e nefasto, alçar o vôo da espiritualidade para uma dimensão de vida e de consciência ilimitadas e genuínas, para a verdadeira Majestade, cujos poderes provêm de fonte inesgotável de um manancial de sabedoria, de virtude e de amor,  com a Qual se harmonizará então através das vibrações sutis da divindade restabelecida.

 Despertará por fim da letargia inútil a qual dormita por ora a consciência, libertando-se de cárcere privado que se submetera por intermináveis existências, fruto de sua indolência e inércia voluntárias, as quais lhe subjugaram o espírito com os grilhões do vício, da ignorância e da desintegração moral. Ao redimir o espírito dos pesos e fardos que se lhe impôs o Ego, conquistará a soberania espiritual pela independência da alma, assumindo a personalidade divina de hereditária nobreza cósmica.

 Não obstante, constitui o Ego o embrião da espiritualidade, o casulo onde o homem desenvolve o potencial divino imanente, a forja na qual o espírito adquire resistência para a vida, sendo assim o útero que germina o ser para a maternidade espiritual.    


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