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Ib Araripe Soares

São Paulo

 

Espiritualidade Pura

  

A semente deve então morrer, por natural e espontânea condição, para germinar enfim a vida, e desenvolver assim o potencial da árvore latente, para destarte produzir afinal seu fruto, em uma  gestação mágica da natureza em permanente doação. Potencializa assim o gérmen a árvore que replica sua fonte, efeito e causa em um ciclo vital que demanda ao infinito, expressão de uma Consciência Cósmica em sua etérea e sublime manifestação.

 Assim como a natureza, a humanidade também expressa a vida. Energia cujo princípio engendra o homem, porque seja sua parte sutil, invisível, e que manifesta a expressão condensada pertinente, de qualidade material, espelho embaçado do ser real imanifesto, decerto a contraparte de sua polaridade espiritual. A matéria precisa morrer também para libertar o espírito do jugo físico, de forma a renascer na dimensão sutil do plano pertinente, e cuja qualidade expressa assim a aplicação proporcionada pela consciência, como compensação e fruto de sua existência.

 Possuímos todos o gérmen da espiritualidade, homens ou mulheres, adultos, jovens ou crianças, posto que fazemos parte de uma legião de seres celestiais, estrelas ascendentes de uma constelação sideral. Santos ou sicários, pobres ou ricos, virgens ou prostitutas somos todos pérolas de um colar precioso, a ornamentar de luz esse Universo infinito. Portamos o mais valioso brilhante, e porque o deixamos esquecido sob o porão frio e úmido, ornamentamo-nos com bijuterias as quais não nos agrega valor algum. Dado à herança nobre de que somos oriundos, não devemos apreciar as réplicas falsificadas do legítimo diamante olvidado. 

 Conquanto ainda sob as vestes pesadas do corpo material, refratamos qual nuvem negra nosso sol interior, acomodados assim à sombra da árvore da indolência e das paixões inferiores, porquanto nutrindo-nos do fruto proibido que não nos exige o esforço nem suscita a vontade para a conquista do alimento substantivo. Preferimos contudo o alimento escasso, a inanição espiritual à vitalidade genuína do espírito. De forma que passarão as nuvens negras da tempestade iminente sobre nossas cabeças descobertas, dado a que não nos prevenimos o abrigo previdente, o acolhimento seguro visto a proteção necessária.

 Tal qual a natureza, que não se esforça para potencializar-se em manifestações infinitas de criação, posto que incorpore imanente o potencial da plenitude, assim também deve o homem alcançar a espitiritualidade inata, sem porquanto utilizar-se do esforço desnecessário e inócuo, dado que seja divindade em essência, bastando assumir então por direito a condição latente.

Desabrocha o botão a flor, exalando o perfume natural inerente à qualidade pertinente, a sutil mensagem, que seja assim a forma como se manifesta para expressar sua singela gratidão. O homem contudo, em que pese a herança Divina outorgada, revela-se deveras ingrato, porquanto sejam sóbrias, mesquinhas e finitas suas partilhas. Instalado assim em seu egoísmo particular, reparte tão somente as sobras de suas avaras posses circunstanciais, dando de si a ínfima parte ante a incomensurável fortuna recebida, detentor que seja da potencialidade infinita em latência, se dispõe apenas dos resíduos que o satisfazem a inapetência e a indiferença espiritual. Posto que fadado à felicidade, ao belo e à imortalidade, limita-se por ora à busca relativa do ganho artificial, tanto quanto perecível e finito.

 Ao desabrochar da consciência, exala o espírito o perfume etéreo da espiritualidade restabelecida, expressando assim a potencialidade infinita de que seja portador, herança de uma dinastia celestial, que o habilita a manifestar o aroma vibratório da harmonização com sua Fonte interior. Sintonizado enfim ao fluxo da corrente Cósmica construtiva, estabelece conexão irreversível com o Belo e o Puro, em estado sublime de potencialidade infinita, assumindo por fim a condição Crística potencial, porquanto certificada ante a incorporação dos alicerces da virtude, da compaixão e da sabedoria.

 O homem, dado ao seu estado vibratório mental e emocional, utiliza-se de preferência de pontes para transcender sua condição instintiva, brutalizada e irreal, para a intuitiva, espiritualizada e genuína. Devido assim à consciência polarizada sob os valores, ideais e princípios no oceano vibratório da energia condensada, de frequência baixa e negativa, submete-se a artifícios de igual diapasão, materializado, com vistas à busca da espiritualidade designada. Porquanto seja assim, adotam-se doutrinas e estilos de vida, no contexto das compreensões distintas de que se identificam e afinam-se, de forma a empregar pontes circunstanciais, de suas exclusivas escolhas, para atravessar a dura e longa viagem da existência. 

 Somos todos nós espiritualidade pura em latência, energia e consciência em plenitude. A vida, em estado material, constitui tão somente o ensaio singelo do imortal e do infinito suscetível ao ser humano. Obstante a hereditária filiação Divina, portamos a essência espiritual em estado pleno de potencialidade, em que pese a distonia entre o ser relativo, em evolução, e o ser real, imanifesto. Alcançar a graça da espiritualidade, pela expansão da consciência em legítima devoção, constitui a meta do ser humano, e que seja porquanto através do Portal de luz o canal para nossa legítima redenção.

 Ainda assim, nos são oferecidas pontes circunstanciais, que ensejam conduzir o ser para a conquista da espiritualidade prometida, como fosse posse, um bem distinto que se consegue pela forma que se ganha os tesouros finitos e relativos apreciados por nossos sentidos objetivos. Posto que sejam recursos condicionais, não imperativos, e ainda que sejamos por designação Cósmica espiritualidade inata, não dependentes de mecanismos artificiais para expressar o ser Cósmico legitimado por certificação Divina.

 Somos luz celestial, expressão autenticada pelo Criador, porquanto prescindimos de pontes para deveras manifestar o ser genuíno em essência. Posto que não seja assim o sol que brilha através da lua, não precisamos decerto de meios primários para expressar o Absoluto em nós, nem por isso de imposições doutrinárias ou de leituras alheias, relativas e artificiais. A essência jamais demanda a forma para manifestar-se em plenitude.

 A sabedoria forjada sob o fogo da devoção Cósmica, constitui o elo que nos conecta com a Luz imanente ao ser. Vivemos permanentemente, conquanto desligados e dispersos, em sintonia com o oceano sublime da espiritualidade pura, a qual não se macula nas águas impuras de nossas ocupações degeneradas. Conectamo-nos com a Luz espontaneamente, tal qual a flor desabrocha da primavera, como virgem imaculada despojada dos dotes escusos na aquisição de sua virgindade.

 Os contraventores do bem, travestidos de doutrinadores de ocasião, ocupam-se em nos vender mercadorias que não dispõem. São assim falsos mercadores, que nos enganam a fé, oferecendo-nos passaportes os quais os falsificam sob os porões da ignorância e da hipocrisia. Suas pontes são na verdade piquetes, obstáculos levianos que visam desviar o ser do reconhecimento natural quanto à sua espiritualidade inata.

 Sobretudo, não carecemos de pontes para transcender nossos estados de materialidade para a espiritualidade designada, dado a que a possuímos em essência, assim como não carece o sol de luz para resplandecer seu poder e glória. Na verdade somos espiritualidade pura, a chama eterna prevalente, e não a efêmera fumaça que se desvanece à mais tênue brisa. E porque somos luz potencial, não se conforma as trevas em que nos sustentam. O cascalho bruto despercebido ao chão, representa em essência, e não na forma disfarçada, o diamante valioso enrustido, e que a forja do trabalho meticuloso e perseverante, há de revelar afinal a pedra preciosa em latência.

             


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