Elizabeth Chelle |
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OUÇA,
PAI Sabe,
pai, tenho que te contar o que se passa por aqui. As coisas estão pretas.
Mamãe continua trabalhando muito e o que ganha mal dá para nos
sustentar. Interrompi meus estudos para ajudá-la. Quando sai para
trabalhar, eu cuido dos menores. Ela sai muito cedo, ainda está escuro, e
quando retorna é quase noite. É bom quando ela chega, traz sempre alguma
coisa para a gente comer. Ela diz que o trabalho está fraco, reclama que
não consegue tirar a gente dali e ir para um lugar melhor. Diz que tentou
colocar as crianças numa creche, mas não teve sorte para conseguir vaga.
Chora pedindo perdão porque não me deixa estudar. Sabe,
pai, queria tanto poder mudar tudo isso! Mas não sei como. Mamãe diz que
a vida não presta, que a gente sofre demais. As pessoas são ruins, não
se ajudam, ou que quem tem dinheiro só pensa em ganhar mais. Que os políticos
não governam para o povo, mas sim para os próprios interesses. Diz que
hoje todo mundo é esperto, que a lei da vantagem é que vigora. Diz que
é obrigada a cumprir suas obrigações, mas que alguns empresários ou
espertalhões são beneficiados com o véu da impunidade. Diz que um bando
de gente lesa, rouba o dinheiro público, mas o povo paga a conta. Diz que
o vírus da sociedade é a impunidade que corrói o fraco, levando-o a
destruição. Diz que esperto, mau-caráter ou ladrão sempre existiu e
provavelmente não se extinguirá, mas confiar numa justiça cega é ter a
esperança roubada diante da vida. Mamãe
está muito triste, diz que tem medo de morrer e nos deixar sem nada neste
mundo. Eu também, pai, tenho medo que ela se vá. Pai,
nossa casa está estragada, molha muito quando chove, não temos roupa,
nem comida, nosso futuro é o dia a dia. Pai,
não deixe minha mãe partir. Ensine, pai, aos seus filhos o verbo
dividir. “Tu que sois o verbo que se fez carne, derrame seu amor”.
Ensine seu povo a amar, para ver o amor transformar as nações em irmãos;
A tolerância abolir. A violência, a miséria e a fome farão parte do
passado. As injustiças e as iniqüidades serão banidas. Porque cada grão
de areia hoje na terra espalhado, formando o deserto da indiferença, com
o seu amor será transformado, gerando grandes montanhas de solidariedade
e fraternidade, fazendo a paz reinar no vale da vida.
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