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Elizabeth Chelle

Paraná



Pulga e Eu

 

 Conheci o Pulga na fisioterapia. Eu fazia sessões de ultra-som na perna e o Pulga também. Perguntei qual era seu problema e ele me explicou que tinha caído da escada: desceu alguns degraus com velocidade e fez uma torção no joelho. Pulga também me perguntou o que eu tinha feito para estar ali e expliquei-lhe que era falta de velocidade. Rimos muito e ficamos amigos. 

Marcávamos nossas sessões sempre no mesmo dia e horário. Era divertido esse momento. E agora, que somos amigos, descrevia para ele todos os detalhes da fisioterapia, iniciando com o gel que a estagiária passava em meu tornozelo até a marquinha provocada por sua calcinha, visível a quaisquer olhos atentos. O Pulga interessava-se muito pelo tamanho dos seios das garotas, e eu adorava o formato das pernas.

 Após quase três meses de tratamento, era como se fôssemos irmãos. Estávamos sempre juntos nos fins de semana e conversávamos bastante sobre nossas dificuldades. O Pulga pensava muito no futuro, queria ter família, filhos, queria prosseguir nos estudos, formar-se e trabalhar. Mantinha-se preocupado com o delicado mercado de trabalho e qual a melhor área para obter sucesso profissional. Eu queria viver o momento, não passava por minha cabeça ter filhos, esposa, e me concentrava somente nos estudos e como melhorar a qualidade da minha vida.

Um dia, sentados num parque, muita gente passeava de um lado para outro, casais de namorados, crianças, velhos e adultos, também a tarde estava convidativa, uma suave brisa refrescava a pele que aos poucos se tornava vermelha com a exposição ao sol. A primavera se orgulhava de mostrar seu campo florido e o ar perfumado, Pulga tinha alergia ao pólen e espirrava como um condenado e, por causa da sua rinite, começamos a conversar o porquê dessas coisas acontecerem. Tanta gente e todas diferentes, e outras muito mais que diferentes, que eu chamaria de especiais. Pulga me perguntou se eu sabia por que algumas pessoas eram especiais ou tornavam-se durante a vida. 

Pensei muito e não consegui responder, mas resolvi arriscar que os especiais, por serem diferentes, davam oportunidade de crescimento aos iguais. Porque se não sou capaz de chegar ao outro porque é diferente, eu não cresço. Se não encaro minhas responsabilidades, responsabilizo os outros por meus erros. Os especiais mostram à sociedade que são capazes de vencer o medo e aceitar o que os outros não aceitam. Mostram que devemos mudar os padrões sociais impostos como verdadeiros, para evoluirmos. Os especiais crescem e são capazes de assumir as rejeições do seu meio e ganham autonomia, mostrando-nos o ser amoroso capaz de transcender no amor.

Empolgado pelo meu discurso, não percebi meu amigo Pulga chorar. Angustiado gritei:

- Pulga, o que foi?

E ele me falou que nunca tinha pensado daquela forma. Às vezes sentia raiva, achava que as pessoas especiais traziam sofrimento e dificuldades para todos. Outras vezes pensava que seriam apenas objetos de olhares curiosos ou para exercício de compaixão e manifestação de palavras vazias que não acrescentam valores, nem mesmo respeito.

Eu confesso que fiquei mudo, por alguns instantes uma flecha atravessou meu coração, meus pensamentos voaram a uma velocidade tão grande que me perdi no universo, mas o grito de uma criança me fez voltar. E querendo esquecer o que havíamos conversado, convidei Pulga para um passeio. Disse a ele que queria correr, correr muito e ele concordou, desde que sinalizasse para ele a presença de algum mulherão de seios fartos.

E assim demos início ao nosso passeio. Pulga empurrava minha cadeira de rodas e eu orientava a direção, enquanto descrevia-lhe o que tinha pelo caminho, sem esquecer de dizer “miau” quando passávamos por uma gatinha e o Pulga, sem perder a oportunidade, dizia sempre uma gracinha, geralmente gritava:

- Tua beleza me encanta e teu brilho me cega!”. - Com curiosidade perguntei se ele confiava no meu taco e ele me disse que não, alegando que preferia confiar no seu tato.

Ríamos muito, éramos felizes, as suas pernas completavam as minhas e os meus olhos enxergavam o que sua alma não podia perceber.                       


[Volta]