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Elizabeth Chelle

Paraná

 

Maria da Vida

   


Sou Maria, Maria da vida como tantas outras Marias. Marias que sofrem, que lutam, se alegram, choram e morrem. Marias que sozinhas têm filhos para criar. Marias que deixam a vida passar. Marias que têm medo de inovar e de se aventurar. Marias conformadas com o destino atual. Marias fragilizadas, injustiçadas, oprimidas pelo mundo material.

Faço limpeza em shoppings, às vezes, já no início do dia estou esgotada, mas a necessidade de permanecer no emprego faz com que busque forças no fundo do coração. Geralmente, durmo cinco horas por dia; moro muito longe da cidade; Aqui o aluguel se torna barato e sem a burocracia do fiador. Conheço muito bem as dificuldades da vida, sei que não é fácil, mas tenho que lutar para tentar vencê-las, pois tenho dois filhos para criar.
Mas quando a noite cai, após o dia exaustivo, mais trabalho me aguarda, os afazeres da casa; simples tarefas, mas difíceis de serem executadas por um corpo já cansado.

Num dia desses, agitado, em que acho que nada dá certo e as preocupações fervilham em minha mente, a angústia domina o coração, tornando-me insensível e cega às alegrias da vida, não enxerguei meus tesouros e enquanto preparava o jantar, cansada, resmungando os destinos da minha vida, meu pequeno filho, com saudades e alheio a todas as dificuldades, estava sentado no chão da cozinha, brincando e me olhando. Mas a todo instante largava os seus brinquedos e se agarrava às minhas pernas.

Envolvida com as panelas no fogo, a louça por lavar, afastava-o e pedia para que voltasse a brincar. Fazendo-se de surdo, voltava a me agarrar. Irritada afastei-o com um movimento brusco, gritando com ele. Não levou dois minutos para que voltasse a fazer a mesma coisa, e revoltada comigo mesma, com a vida e com ele, comecei a lhe bater e quanto mais batia, mais vontade sentia; estava sem controle, fora de mim. Mas quando ouvi seu choro, repetindo baixinho: "- Amo você, mamãe". Percebi a gravidade de meus atos, que em troca do carinho recebido, tinha lhe dado espinhos. Seu choro sentido cortou meu coração, tomou minha mente me deixando confusa, sem saber como reagir. Tentava refletir, não conseguia.

Seguindo apenas o instinto materno, corri para pegá-lo, tomá-lo em meus braços e aperta-lo com carinho. Sentindo-se confortado, afagava meus cabelos, enxugava minhas lágrimas repetindo baixinho: " - Adoro você, mamãe". Senti tanta vergonha que não conseguia lhe olhar; pedindo-me perdão, explodiu meu coração de emoção, e chorei sem parar. Doía em minha alma a agressão que contra ele cometi. Meu pequenino, muito mais que um menino me ensinava a viver, perdoar, tolerar e amar, mudando minha vida.

Nesse dia, deixei cair o véu da ignorância, acreditando na esperança e na fé, e que o destino, que ora se apresentava assim como eu, também poderia ser mudado.


[Volta]