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Sou Maria, Maria da vida como tantas outras Marias. Marias que sofrem,
que lutam, se alegram, choram e morrem. Marias que sozinhas têm
filhos para criar. Marias que deixam a vida passar. Marias que têm
medo de inovar e de se aventurar. Marias conformadas com o destino atual.
Marias fragilizadas, injustiçadas, oprimidas pelo mundo material.
Faço limpeza em shoppings, às vezes, já no início
do dia estou esgotada, mas a necessidade de permanecer no emprego faz
com que busque forças no fundo do coração. Geralmente,
durmo cinco horas por dia; moro muito longe da cidade; Aqui o aluguel
se torna barato e sem a burocracia do fiador. Conheço muito bem
as dificuldades da vida, sei que não é fácil, mas
tenho que lutar para tentar vencê-las, pois tenho dois filhos
para criar. Mas
quando a noite cai, após o dia exaustivo, mais trabalho me aguarda,
os afazeres da casa; simples tarefas, mas difíceis de serem executadas
por um corpo já cansado.
Num dia desses, agitado, em que acho que nada dá certo e as preocupações
fervilham em minha mente, a angústia domina o coração,
tornando-me insensível e cega às alegrias da vida, não
enxerguei meus tesouros e enquanto preparava o jantar, cansada, resmungando
os destinos da minha vida, meu pequeno filho, com saudades e alheio
a todas as dificuldades, estava sentado no chão da cozinha, brincando
e me olhando. Mas a todo instante largava os seus brinquedos e se agarrava
às minhas pernas.
Envolvida com as
panelas no fogo, a louça por lavar, afastava-o e pedia para que
voltasse a brincar. Fazendo-se de surdo, voltava a me agarrar. Irritada
afastei-o com um movimento brusco, gritando com ele. Não levou
dois minutos para que voltasse a fazer a mesma coisa, e revoltada comigo
mesma, com a vida e com ele, comecei a lhe bater e quanto mais batia,
mais vontade sentia; estava sem controle, fora de mim. Mas quando ouvi
seu choro, repetindo baixinho: "- Amo você, mamãe".
Percebi a gravidade de meus atos, que em troca do carinho recebido,
tinha lhe dado espinhos. Seu choro sentido cortou meu coração,
tomou minha mente me deixando confusa, sem saber como reagir. Tentava
refletir, não conseguia.
Seguindo apenas o instinto materno, corri para pegá-lo, tomá-lo
em meus braços e aperta-lo com carinho. Sentindo-se confortado,
afagava meus cabelos, enxugava minhas lágrimas repetindo baixinho:
" - Adoro você, mamãe". Senti tanta vergonha
que não conseguia lhe olhar; pedindo-me perdão, explodiu
meu coração de emoção, e chorei sem parar.
Doía em minha alma a agressão que contra ele cometi. Meu
pequenino, muito mais que um menino me ensinava a viver, perdoar, tolerar
e amar, mudando minha vida.
Nesse dia, deixei cair o véu da ignorância, acreditando
na esperança e na fé, e que o destino, que ora se apresentava
assim como eu, também poderia ser mudado.
[Volta]
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