A
Vassoura Biruta
Fui criada lá no interior do nordeste, numa cidadezinha chamada
Quendera. Uma doce menina de pele morena, olhos negros com um brilho
muito especial, chamada Quelinda, criou-me com carinho; escolheu um
galho de arbusto bem bonito, o mais perfeito que encontrou, colheu
ramos de diversas plantinhas para me dar forma e prendeu-os com fibra
de sisal. Além de me enfeitar com lacinhos de fita na cabeça,
fez com um pedacinho de carvão meus olhos, nariz e um bocão.
Fui batizada com o nome de Quefaz, apesar dos moleques da região
me chamarem de Quelouca, e passei a ser sua melhor amiga, alguém
que compartilhava, ouvia e fazia companhia em todos os momentos.
Quando o dia amanhecia, Quelinda logo me procurava e juntas caminhávamos
nas trilhas para a região de corte das folhas do sisal. Durante
todo o dia, conversávamos e sonhávamos, mas não
podíamos deixar o trabalho parar. Assim que o cansaço
chegava, descansávamos deitadas na relva fresca, geralmente
já à noitinha; olhávamos o céu estrelado
e a cada estrela que caía fazíamos um pedido, sem jamais
apontar uma dessas estrelinhas para não nascer verrugas nas
pontas dos nossos > dedos.
Assim,
participava dos desejos e sonhos de Quelinda, mas também me
entristecia com sua tristeza, quando a estrelinha caía e os
pedidos não se realizavam e me olhava carinhosamente dizendo,
“Não fique triste, Quefaz, hoje ela não conseguiu
nos ouvir”. Então, enxugava o delicado rostinho, afastando
a tristeza de mansinho, me pegava com carinho e abraçadinhas
caminhávamos para casa.
Na modesta casa, tinha lugar cativo ao lado da rede que dormia, e,
assim que os primeiros raios do sol surgiam, de prontidão levantava
para mais um dia de trabalho e sonhos. O Natal se aproximava, mas
a rotina da pequena cidade de Quendera pouco se alterava. A vida difícil
fazia de seus moradores pessoas tristes, preocupadas e com ar doentio.
A insatisfação tomava conta de muitos e a indignação
com diversas situações dominava grande parte da população.
Os mais velhos consolavam os jovens pela condição presente
e acalentavam um futuro, apesar de não crerem no futuro daqueles
que permaneciam na cidade.
O sentimento de condenação sem crime pesava sobre os
ombros dos jovens. Apenas o padre Justino, que vinha da cidade uma
vez por mês para rezar a Santa Missa, tentava fazer aquele povo
não perder as esperanças, a fé e a alegria no
tempo tão abençoado do nascimento de Jesus. Enfeitava
a pequena igrejinha com bandeirinhas coloridas e dizia para o povo
que era para lembrar o arco-íris da vida; sem esquecer o pastor
Moisés, que realizava os cultos no vilarejo próximo
á Quendera e que, nos momentos de folga, vinha com o Livro
Sagrado na mão, trajando um terno cinza com a barra da calça
avermelhada do pó da estrada e o rosto molhado de suor, trazendo
uma palavra de consolo e esperança. Assim dizia ele:
- Deus tudo vê! Deus tudo pode! Ele não esquece seus
filhos amados.
Ao mesmo tempo, Quelinda dizia baixinho:
- Vai ver que a poeira da estrada não deixa Deus ver o que
acontece aqui em baixo ou, se for velhinho como o padre Justino, já
está surdo.
Tirando os poucos momentos que aliviavam o coração,
a pesada rotina de trabalho nos fazia voltar à realidade sofrida.
Eu era confidente de Quelinda e nada podia fazer para ajudá-la.
Minha presença ao seu lado dava força que em pouco tempo
era consumida pelo esforço de cortar, e ser cortada, pelas
folhas do sisal que feriam suas mãos, dedos, braços
e até o rosto, não deixando esquecer as correntes que
tiravam a liberdade, mas não conseguiam tirar os sonhos.
Fazia muito tempo que não chovia. O dia era quente, a noite,
um pouco mais fresca e abrandava o cansaço do dia. E numa noite
como essa, na qual da terra quase se desvendava os mistérios
do céu, uma grande estrela cadente brilhante, diferente de
todas que até então havíamos visto, surgiu. Quelinda
rapidamente, para que não sumisse pediu em voz alta para que
eu pudesse voar, transformar e realizar seus desejos.
Como
mágica, aquela estrela parecia que caminhava em nossa direção
e, quanto mais se aproximava, sentia um calorzão. Achei que
iria incendiar e gritava sem ser ouvida para Quelinda proteger-me.
Mas quando me dei conta, abri os olhos e vi que a estrela tinha sumido
e logo uma tremedeira tomou conta de mim.
Quelinda,
percebendo a mudança, sem perda de tempo agarrou minha cabeça
sentou-se no meu tronco, dizendo:
- Quefaz! Amiga Quefaz, agora podemos voar, somos livres para brincar,
conhecer o mundo, outras pessoas, seus costumes, e realizar o que
sempre sonhei. Transformar Quendera numa cidade próspera, com
muita alegria e dar vida a seus habitantes para que sejam capazes
de concretizar os sonhos, fazendo da Quendera do passado a Queluz
do futuro.