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Elizabeth Chelle

Paraná


A Vassoura Biruta

Fui criada lá no interior do nordeste, numa cidadezinha chamada Quendera. Uma doce menina de pele morena, olhos negros com um brilho muito especial, chamada Quelinda, criou-me com carinho; escolheu um galho de arbusto bem bonito, o mais perfeito que encontrou, colheu ramos de diversas plantinhas para me dar forma e prendeu-os com fibra de sisal. Além de me enfeitar com lacinhos de fita na cabeça, fez com um pedacinho de carvão meus olhos, nariz e um bocão. Fui batizada com o nome de Quefaz, apesar dos moleques da região me chamarem de Quelouca, e passei a ser sua melhor amiga, alguém que compartilhava, ouvia e fazia companhia em todos os momentos.

Quando o dia amanhecia, Quelinda logo me procurava e juntas caminhávamos nas trilhas para a região de corte das folhas do sisal. Durante todo o dia, conversávamos e sonhávamos, mas não podíamos deixar o trabalho parar. Assim que o cansaço chegava, descansávamos deitadas na relva fresca, geralmente já à noitinha; olhávamos o céu estrelado e a cada estrela que caía fazíamos um pedido, sem jamais apontar uma dessas estrelinhas para não nascer verrugas nas pontas dos nossos > dedos.

Assim, participava dos desejos e sonhos de Quelinda, mas também me entristecia com sua tristeza, quando a estrelinha caía e os pedidos não se realizavam e me olhava carinhosamente dizendo, “Não fique triste, Quefaz, hoje ela não conseguiu nos ouvir”. Então, enxugava o delicado rostinho, afastando a tristeza de mansinho, me pegava com carinho e abraçadinhas caminhávamos para casa.

Na modesta casa, tinha lugar cativo ao lado da rede que dormia, e, assim que os primeiros raios do sol surgiam, de prontidão levantava para mais um dia de trabalho e sonhos. O Natal se aproximava, mas a rotina da pequena cidade de Quendera pouco se alterava. A vida difícil fazia de seus moradores pessoas tristes, preocupadas e com ar doentio. A insatisfação tomava conta de muitos e a indignação com diversas situações dominava grande parte da população. Os mais velhos consolavam os jovens pela condição presente e acalentavam um futuro, apesar de não crerem no futuro daqueles que permaneciam na cidade.

O sentimento de condenação sem crime pesava sobre os ombros dos jovens. Apenas o padre Justino, que vinha da cidade uma vez por mês para rezar a Santa Missa, tentava fazer aquele povo não perder as esperanças, a fé e a alegria no tempo tão abençoado do nascimento de Jesus. Enfeitava a pequena igrejinha com bandeirinhas coloridas e dizia para o povo que era para lembrar o arco-íris da vida; sem esquecer o pastor Moisés, que realizava os cultos no vilarejo próximo á Quendera e que, nos momentos de folga, vinha com o Livro Sagrado na mão, trajando um terno cinza com a barra da calça avermelhada do pó da estrada e o rosto molhado de suor, trazendo uma palavra de consolo e esperança. Assim dizia ele:

- Deus tudo vê! Deus tudo pode! Ele não esquece seus filhos amados.

Ao mesmo tempo, Quelinda dizia baixinho:

- Vai ver que a poeira da estrada não deixa Deus ver o que acontece aqui em baixo ou, se for velhinho como o padre Justino, já está surdo.

Tirando os poucos momentos que aliviavam o coração, a pesada rotina de trabalho nos fazia voltar à realidade sofrida. Eu era confidente de Quelinda e nada podia fazer para ajudá-la. Minha presença ao seu lado dava força que em pouco tempo era consumida pelo esforço de cortar, e ser cortada, pelas folhas do sisal que feriam suas mãos, dedos, braços e até o rosto, não deixando esquecer as correntes que tiravam a liberdade, mas não conseguiam tirar os sonhos.

Fazia muito tempo que não chovia. O dia era quente, a noite, um pouco mais fresca e abrandava o cansaço do dia. E numa noite como essa, na qual da terra quase se desvendava os mistérios do céu, uma grande estrela cadente brilhante, diferente de todas que até então havíamos visto, surgiu. Quelinda rapidamente, para que não sumisse pediu em voz alta para que eu pudesse voar, transformar e realizar seus desejos.

Como mágica, aquela estrela parecia que caminhava em nossa direção e, quanto mais se aproximava, sentia um calorzão. Achei que iria incendiar e gritava sem ser ouvida para Quelinda proteger-me. Mas quando me dei conta, abri os olhos e vi que a estrela tinha sumido e logo uma tremedeira tomou conta de mim.

Quelinda, percebendo a mudança, sem perda de tempo agarrou minha cabeça sentou-se no meu tronco, dizendo:

- Quefaz! Amiga Quefaz, agora podemos voar, somos livres para brincar, conhecer o mundo, outras pessoas, seus costumes, e realizar o que sempre sonhei. Transformar Quendera numa cidade próspera, com muita alegria e dar vida a seus habitantes para que sejam capazes de concretizar os sonhos, fazendo da Quendera do passado a Queluz do futuro.


[Volta]