|
|
||
|
O SANGUE DE CRISTO TEM PODER! O padre Kurt foi uma figura significativa na minha infância. Talvez tenha sido porque sua rigidez germânica marcara profundamente minha formação, ou quem sabe tenha sido porque ele não suportava irreverências mesmo, de nenhuma índole. O certo é que com nove anos fui convidado (convidado não seria a palavra exata. Acho que obrigado seria o termo mais acertado a ser coroinha na paróquia na qual ele rezava suas missas aos sábados e domingos. E ali, entre rezas, pais-nossos, ave-marias, costumeiramente passávamos esses dois dias, Vítor e eu. Vítor, o outro coroinha, era filho de um engenheiro civil, de sobrenome Alcântara. Morava num sobrado virando a esquina da casa da minha mãe, e sempre estávamos metidos em sérios problemas, produto e causa da nossa inata curiosidade. Cabe aqui destacar que a parceria para criar situações de risco latente para nossa integridade física nasceu no mesmo dia em que nos cruzamos por vez primeira, no mercado do Manuel, o espanhol, na esquina da rua Garona com a Avenida Frias. Estávamos ambos com cerca de três anos, mais ou menos. Ele estava tentando convencer sua mãe, que conversava com a minha, de que chocolate em caixa de meio quilo faz bem à saúde no inverno, e eu decidi apoiá-lo em sua manifestação. Eis que ganhamos a questão, e, a partir dessa conquista, passamos a nos encontrar freqüentemente. Lembro-me muito bem do gato siamês da italiana que morava na esquina, a mãe da Catalina, aquela menininha seca de olhos bem verdes e longos cabelos cor-de-fogo, ao qual havíamos amarrado, em torno do abdome, uns dez petardos enormes que tinham sobrado das festividades de Natal e Ano Novo, para ver como iria voar feito o Super-homem, ou no caso, o Supergato. Nunca mais o vimos, e tampouco a italiana. Ocultou-se dos dois pequenos vândalos na selva de cimento. Sei que voando não saiu, porque, ao começar a detonação dos mencionados petardos, ele simplesmente correu numa velocidade surpreendente, com direção desconhecida. Após as duas horas de pranto de praxe da
Catalina, que chorava desconsoladamente por causa do gato perdido, veio
o merecido castigo. Mamãe trancou-me no quarto com meu cachorro
Bobby, um enorme mestiço de bulldog com mastim, até que me
arrependesse daquele “horrendo pecado”, e Vítor apanhou do seu pai
de cinta. É claro que após uma hora e meia de permanecer trancafiado,
mamãe chegou sorridente, o olhar exalando doçura, e trazendo uma
bandeja com pão, manteiga, queijo do sítio do “Cacho”, amigão-confidente-camarada
do meu pai, doce de leite caseiro, “merengue”, café com leite,
algumas fatias de batata doce fritas, um beijo na testa e a pergunta:
“Arrependeu-se do ‘haram’, meu filho?” Invariavelmente eu
respondia: “Claro, mamãe! Estou muito arrependido...”, e selávamos
nosso vínculo mãe-filho com um beijo carinhoso. O Bobby, como todo
cachorrinho limpo que dorme com seu dono, fazia a festa, comendo todas
as fatias de batata doce fritas, seu aperitivo predileto. O assunto é que fizemos muitas coisas juntos, o
Vítor e eu. Até namorada dividimos, sem saber. Mas essa é outra
história. Depois de muito conviver na casa cristã, quase dois anos após iniciar minha frustrada carreira eclesiástica como coroinha, comecei a prestar atenção às manias do padre Kurt. Toda vez que terminava uma missa, nós devíamos limpar o sagrado cálice e a bandejinha das hóstias, embrulhar ambos os objetos num tecido de veludo vermelho e guardá-los numa caixa de madeira muito bonita, preta. Invariavelmente, o padre tomava daquele garrafão, que achávamos fosse sagrado também, e, num copo de tamanho considerável, degustava aquele vinho “missal” como se este fosse um presente divino. “Sangue de Cristo”, costumava dizer após secar o copo, arrotando e passando a língua sobre os lábios, num claro sinal de prazer. E eu, certo de que era com o sangue do Cristo que lavaria os meus pecados, disse uma tarde de sábado a Vítor: - Você está louco, turco? Isto é pecado! Somente o padre pode beber desse vinho. - Ué, se o padre pode, por que nós não podemos? - Porque nós não somos padres, seu turco besta! E porque, se o padre Kurt pega a gente, estamos bem arrumados. Você já sabe como ele é. E meu pai comprou uma cinta nova, que é de couro trançado, cara! Ele já prometeu que a próxima surra é de fivela mesmo. - Então o assunto não é o pecado, e, sim o padre Kurt. Tenho uma idéia: a gente pega dois copos desse sangue de Cristo e logo enchemos o garrafão com água benta, que tal? -
Não e não! Não faço
e não deixo você fazer. Foi difícil convencer Vítor a se tornar um pecador, mas após algumas semanas, consegui. Aos domingos, tínhamos missa às sete da manhã, logo às nove, logo às onze, e depois a última da tarde, às dezenove. Num bom e gélido domingo de julho, lembro-me bem, após a última missa da manhã, e uma vez que nos certificamos que o padre Kurt já tivera saído para almoçar na casa de uma senhora muito religiosa que morava nas proximidades, tomamos dois copos que, acredito eu, seriam de uns trezentos mililitros, e os enchemos com o sangue de Cristo. Fazia muito frio. E era doce, aquele vinho. Parecido com aquele vinho que meu avô chamava de “xerez”, mas agora não tinha ninguém para cercear nossa liberdade. E, enquanto bebia a grandes sorvos, perguntava a Vítor se o sangue do Cristo seria doce também. Vítor disse-me que, quem o sabe, fosse essa a razão para que o padre Kurt rezasse tantas missas. O vinho era saboroso demais! Dava uma espécie de calorzinho no corpo, com esse terrível frio portenho do mês de julho. E enchemos novamente os dois copos. Torna-se bastante difícil reproduzir o diálogo que mantive com Vítor, após a metade do segundo copo de vinho “missal”. Creio eu que duas crianças de onze anos não devem ter muito assunto para puxar em estado de embriaguês. Já estávamos aquecidos, e até demais, diria eu. Tirei o casacão de lã, que havia sido do papai e que me cobria até bem abaixo dos joelhos, e o coloquei debaixo da mesa da sacristia. De repente, sentira uma necessidade imensa de deixar-me levar por aquele leve torpor e Vítor disse-me que iria dar uma olhadinha na “estuátua”. Apenas uma olhadinha... Chamávamos “a estuátua” a uma enorme réplica de “La Pietá”, feita em argila e madeira, que um anônimo e fervoroso escultor doara à paróquia. Eu, dormindo placidamente debaixo da mesa da sacristia, e Vítor, adormecido nos braços da Virgem, nos braços de “La Pietá”. Nunca soube se os puxões de orelha que ele nos deu foram por causa do vinho ou por causa do pecado mesmo. Naquele domingo, o “Pacificador”, nome dado ao grosso cinturão de uso caseiro do meu pai, correu solto e voraz na casa da dona Paula, a senhora minha mãe, já que lamentavelmente meu pai estava em casa. Digo lamentavelmente porque era para não estar. Senão, não teria feito arte. Papai sempre teve um respeito muito grande por essas questões religiosas, até pelo vinho que ele bebia, que de tão suave parecia mesmo com o sangue do Cristo. Mamãe quis interceder, mas não conseguiu fazer nada. Diplomaticamente falando, meu pai retirou-lhe a embaixada naquela noite, e dormiu no sofá da sala, embrulhado em dois cobertores, por “defender um anão, e não uma criança”. Eu dormi no meu quarto, de pernas quentes, vermelhas pelas carícias do “Pacificador”, e pensando em que esse assunto de lavar os pecados com o sangue do Cristo era para alguns elegidos, somente. No dia seguinte, na escola, o sacrilégio corria espalhando-se por todos os corredores, de boca em boca. Fomos aclamados como heróis por uns, como vilãos por quase todos. Onde já se viu beber do vinho do padre Kurt? O padre Kurt faleceu em 1996, vítima de câncer no estômago. Durante uma visita aos meus pais, vi-o semanas antes de vir a finar. Durão, como sempre foi, me disse: “Já está feito um homem, Félix. Você se comporta como tal?”. Ao que respondi: “Heil, Kurt! Tento, só Deus e eu sabemos como tento.” Nunca o chamei de padre. Mas isso não é culpa minha. É culpa do meu signo zodiacal. A astrologia diz que todos os nascidos sob o signo de Touro somos um pouco teimosos mesmo. Semana passada recebi uma ligação da Argentina. Meu pai contou-me a situação caótica na qual está sumido o país. E me contou que o Vítor está magro e que, depois de voltar da guerra de Malvinas, lutou muito e tornou-se um respeitável arquiteto, mas hoje usa rabo-de-cavalo, e que ficou durante quatro anos cuidando dos dois filhos que a Judith lhe deixou, quando fugiu uma noite de inverno com aquele advogado que sempre andava de terno e carro importado, e que faz um mês o Vítor casou-se de novo com a Catalina, que divorciou-se daquele idiota do Sérgio, que não gostava de gatos...
|
|||