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Félix Coronel

Paraná

 



SEM PENA NEM GLÓRIA...
A guerra começou.


O presidente dos Estados Unidos de América, George W. Bush, - sem se preocupar nem pelo menos um pouco em representar a totalidade da opinião pública de seu país-, nos impõe com seu absolutismo, que tanto detesta nos seus pares do Oriente Médio, um longo e terrível período de penumbras e sofrimento, para todo o planeta.

Se bem é certo que o terror (vastamente usado por Osama Bin Laden, que por sinal foi empregado dos próprios americanos) como forma de defender idéias e sentimentos contrários aos difundidos pelo mundo capitalista não é o modo correto e justificável de agir, menos ainda é o radicalismo anglo-saxão, que acaba de enviar simbolicamente para o latão do lixo o respeito que alguma vez o mundo teve pela Organização das Nações Unidas.

Saddam Hussein pode ser ou não um criminoso. Mas essa é uma questão que compete somente aos iraquianos. Imagine você, caro leitor, se na época em que houve ditadura militar no Brasil, os americanos-do-norte houvessem desembarcado em São Paulo, soltando tiro e bombas para todo lado?
É. Ninguém teria gostado. Ninguém mesmo. Afinal de contas, problemas de casa a gente concerta em casa...

Ontem, quarta-feira, e graças à Internet, decidi dar uma olhada nas notícias do Al-Jazeera, um jornal bastante representativo do mundo árabe (lembro-lhe que sou descendente de árabes e, como tal, possuo algum conhecimento do idioma e costumes). O que vi me deixou bastante pensativo. Numa das páginas do arquivo, consta uma matéria na qual contabiliza-se a morte de 90.000 iraquianos na operação "Desert Storm", de 1991. Sabe quantos americanos-do-norte morreram? 239. Declarados oficialmente.

Claro que eu sei. Nem precisa me dizer. A gente apenas viu o que foi transmitido pela tv. Mas essa é outra história. Não existem guerras de "brincadeirinha". As guerras são verdadeiras, e mostram o ser humano na sua mais profunda essência: radicalmente humanos, ou radicalmente maus...
Na guerra, caro leitor, não existem limites. Nem há vencedores ou vencidos. Há apenas isso: guerra. E morte. Muitas mortes. E novamente direi que digo isto com conhecimento de causa. Prova disso são as minhas incontáveis noites de sono perdido por causa de um par de ilhas perdidas no Atlântico Sul, que alguns conhecem como Malvinas...

A queda de Saddam Hussein através da violência extrema dos bombardeios e a morte de milhares de inocentes não vale a destruição da ONU. Nem o desprezo de um planeta inteiro. Poderio econômico não significa tratar o resto do mundo qual fosse uma simples província. Ou será que somos isso para eles? Aqui cabe responder essa dúvida.

Não será apenas o processo de reconstrução do Iraque, como predica o "cavaleiro do Santo Grial" George Bush, novo, moderno, e pérfido cruzado. Será a perda de confiabilidade num país outrora grandioso, respeitado. Será a possível resposta de países como Coréia do Norte, China, Rússia, e grupos extremistas árabes.

Nesta nova guerra, neste absurdo massacre de um povo e uma cultura, só haverá um perdedor: os próprios Estados Unidos.
Perdedores, por criar um amplo e generalizado ressentimento mundial.
Perdedores, porque existirão maiores e melhores ataques terroristas.
Perdedores, porque não estão nem aí com o resto do mundo. Afinal de contas, todo o mundo deve dinheiro para eles, não é mesmo?
Perdedores, porque o terror deles é aberto, indiscreto, a cara descoberta mesmo.
Perdedores, por haver aniquilado a última e pequena esperança que tínhamos, de ter um mundo melhor, inclusive para eles.


  • Félix Coronel  é Analista de Sistema, Professor e Escritor. 

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