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O
Juscelino Bonetti tinha muitos filhos, uns oito ou nove, e era tão
pobre quanto dá para imaginar. Mandioca no quintal, salsinha, cheiro
verde e cebolinha nas latas de tinta bem adequadas pela Dona Aparecida,
que a vida não estava para grandes gastos... Um dia o seu filho, o José, decidiu ir embora para Curitiba. Queria vencer na vida e só assim poderia ajudar o seu velho pai a criar os outros irmãos. Curitiba, porém, ficava muito longe e era preciso dinheiro para a viagem. O
José, corajoso, estava disposto a ir até mesmo sem dinheiro. Na véspera da sua viagem, quando percebeu que ele não desistia mesmo, o velho Juscelino o chamou no quarto e, no meio de um mundo de lágrimas, entregou-lhe um saquinho plástico contendo oitenta notas novinhas de um real, economia de longos meses, “por qualquer coisa”, como ele mesmo costumava dizer.Seria o suficiente para a viagem e ainda daria para "passar" um par de dias na solidão da capital... No dia da viagem, numa última tentativa, o velho pai ainda chamou o filho e lhe disse: - Olha José, você está indo para longe porque quer. Ninguém está lhe tocando para fora de casa. Nós somos pobres, mas se você esquecer essa idéia boba de ir para Curitiba, daremos tudo o que você precisar. Fique aqui, não faça sua mãe chorar! Pode ficar com os oitenta reais! Não precisa devolver...
A sua mãe, a dona Aparecida, através da janela do ônibus, ainda lhe dirigiu algumas palavras de conforto e carinho: - Meu filho, lá na capital tudo é muito caro! Se você quiser mandar as roupas sujas na sexta, sua mãe as devolve limpas e passadas no ônibus da segunda... Faça isso, meu filho!
Amor de mãe é assim mesmo: para ele tudo é perto, ignora distâncias, não sabe geografia, viaja junto. O
José, aquele teimoso, foi-se embora. Na cidade grande, longe dos pais, sem conhecer ninguém na nova terra, sofreu o diabo. Nos
primeiros meses, enquanto não conseguia trabalho (e para economizar o
dinheiro suado do seu velho pai), almoçava no Exército da Salvação e
jantava biscoitos com chá no quarto da pensão. Honesto
e esforçado, o rapaz acabou arrumando emprego e melhorou de vida. Depois
de longos meses sem dar sinal de vida, ou escrever uma carta sequer,
aproveitou um feriado prolongado e chegou de surpresa a Iporã. O
José estava saudável e bem vestido. Abraçou
a mãe e os irmãos, emocionado. Quando viu o seu pai, velhinho, chorou
como uma criança e aproveitou para lhe entregar discretamente, um
saquinho plástico. O
velho Juscelino reconheceu o invólucro do antigo pacote e abriu. Dentro
havia oitenta reais. Eram as mesmas
notas, todas elas novinhas...
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