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EXCLUSÃO OU RECLUSÃO?
Por
diversas vezes tenho ouvido a mesma pergunta: "Por que razão
você fica guardado dentro de casa, sem assomar as caras para a
rua?"
E a resposta é sempre a mesma, também.Não estou
perdendo nada. Prefiro meu castelo guardado por dragões, a ter
que freqüentar certos lugares e certas pessoas, apenas para ficar
sabendo quem é que dormiu com quem nesta última semana,
ou talvez nem sequer isso.
Talvez tenha que ouvir algo assim, como sexta passada: “Sabia
que “fulaninha” e “fulaninho” estavam no meio
de um amasso vigoroso no banheiro daquele bar, quando a dona do estabelecimento
de venda de amenidades etílicas deu-lhes a surpresa da sua presença”.
Sei lá, viu? Há certas conversas que cansam ao mais paciente.
Mas para simplificar a retórica, resumirei este assunto. Não
é fácil morar numa cidade completamente atípica,
como é Umuarama. Cidade esta que deveria ser analisada por alguma
das tantas psicólogas “ahn-ahn” de plantão.
Desde o meu ponto de vista, ela é paranóica. Ou é
esquizofrênica. Ou as duas coisas juntas. É. O assunto
é grave. Não. A psicóloga não. A cidade.
Não pintou o cabelo esta semana? A Revlon está lançando
oferta em tintas claras, daquelas para loira...O quê? O que é
“ahn-ahn”?. Já lhe conto. Psicóloga “ahn-ahn”
é uma figura que pertence a uma das tribos mais raras que já
vi por aqui. Você presume que tem um problema, e decide procurar
ajuda profissional.
Normal. Até aí é normal. Logo, como sempre, vai
aparecer algum amigo ou amiga que lhe recomendará fazer uma visita
a algum consultório de alguma psicóloga conhecida desse
seu amigo ou daquela amiga... Normal
Até aí, tudo normal.Anormal é quando você
vai, senta num sofazinho aconchegante, e a profissional lhe diz, sem
muitos rodeios: Conte-me o seu problema. E coloca a mãozinha
debaixo do queixo imitando “O Pensador”, de Rodin. E ainda
cruza as pernas, em claro sinal de desconforto, de acordo com aquele
último volume de neurolinguística que você já
leu milhares de vezes. No banheiro, é claro. E após uma
hora maçante, chata, onde ela apenas movia a cabeça, sem
sinal nenhum, e a cada frase inteligente sua, ela dizia “ahn-ahn”,
a sirigaita lhe diz: “O tempo acabou. São cem reais."
A pergunta vem a cavalo, montada em ventos de tormenta: “Cem paus
por que? Por cruzar as pernas e me dizer “ahn-ahn”? Com
essa grana eu ia na zona de baixo meretrício e além de
contar a minha história e sair dali com a alma lavada, alguma
das prostitutas de plantão pelo menos fazia sexo oral...”Lógico.
É claro que é uma resposta impertinente. Mas se “o”
ou “a” profissional não se dá conta que acabaram
os idiotas, é o que leva. E de graça. Ele não precisa
pagar nada.Alguma vez li que psicólogos que conhecem a sua área
tomam anotações sobre o diálogo estabelecido com
o seu paciente, como o caso do meu pai, por exemplo.
O velho Don Félix é doutor em “Loucologia”.
O seu estágio e posterior aperfeiçoamento foi feito em
casa mesmo.E não é brincadeira. É mesmo. E várias
vezes tive de suportar o duro castigo noturno (nada de sobremesas ou
tv após o jantar) ao ser pego revisando os seus relatórios
de casos francamente hilários. Mas como não sou Manuel
Bandeira, ninguém me dará passagem de ida para Passárgada.
Espelhando-me em Albert Camus, direi então que sou Avesso do
Direito. Ou seja, estou me lixando para a sociedade. Tipo cavalo branco
de Dom Pedro, sabe como é? C... e andando, e o povo aplaudindo.
Não pense você que este assunto de ficar em casa é
fácil. Em casa e sozinho, se é que me entende.Este tipo
de atitude requer que você tenha um estoque considerável
de bebidas, por exemplo, para suprir a carência das amenidades
do bar. Requer que você possua entre seus pertences móveis,
pelo menos um vídeo-cassete, para que, quando estiver com vontade,
possa convidar alguma senhorita a bebericar alguma das suas invenções
e assistir um filminho da hora, o que será pretexto simples para
uma boa transa. Bom, pelo menos para mim deu resultado.
O problema é que ficar a sós durante muito tempo acaba
sendo contraproducente. É nesse instante em que se procura uma
agradável companhia feminina. Estável, diga-se de passagem.
Porém, a mencionada companhia deverá cumprir com mínimos
quesitos. Para se tornar companhia, é claro. Amor pela leitura,
torna-se obrigatório e é eliminatório. Se passada
a primeira noite ela pendura a calcinha no chuveiro, está fora
também. Desconfie da maioria, já dizia Nelson Rodrigues...
Porém, e que isto valha para minhas leitoras mais desavisadas
ou menos precavidas, chega um certo momento na vida da gente em que
se relaxa o pulso firme, e se dão algumas concessões.
Nem sempre, é claro. Mas dependendo do tipo de espécime
feminino e da sua anatomia, ou das suas virtudes reprodutivas, faz-se
vista gorda.Na realidade, e após tanta conversa, devo dizer que
não sou um excluído social.
Eu mesmo planejei esta parte do jogo.Sou, isso sim, minoria. Extrema
minoria. E para terminar este papo sem pés nem cabeça,
feito galinha moderna, quero mais é que os que se aproximam para
conversar sobre o impalpável vão à merda.
E também aqueles que se pretendem sábios e julgadores
da conduta humana.E por aí vai.Tenho dito. Amém.
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