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Félix Coronel

Paraná

 

 



EXCLUSÃO OU RECLUSÃO?

Por diversas vezes tenho ouvido a mesma pergunta: "Por que razão você fica guardado dentro de casa, sem assomar as caras para a rua?"

E a resposta é sempre a mesma, também.Não estou perdendo nada. Prefiro meu castelo guardado por dragões, a ter que freqüentar certos lugares e certas pessoas, apenas para ficar sabendo quem é que dormiu com quem nesta última semana, ou talvez nem sequer isso.

Talvez tenha que ouvir algo assim, como sexta passada: “Sabia que “fulaninha” e “fulaninho” estavam no meio de um amasso vigoroso no banheiro daquele bar, quando a dona do estabelecimento de venda de amenidades etílicas deu-lhes a surpresa da sua presença”.

Sei lá, viu? Há certas conversas que cansam ao mais paciente. Mas para simplificar a retórica, resumirei este assunto. Não é fácil morar numa cidade completamente atípica, como é Umuarama. Cidade esta que deveria ser analisada por alguma das tantas psicólogas “ahn-ahn” de plantão. Desde o meu ponto de vista, ela é paranóica. Ou é esquizofrênica. Ou as duas coisas juntas. É. O assunto é grave. Não. A psicóloga não. A cidade.

Não pintou o cabelo esta semana? A Revlon está lançando oferta em tintas claras, daquelas para loira...O quê? O que é “ahn-ahn”?. Já lhe conto. Psicóloga “ahn-ahn” é uma figura que pertence a uma das tribos mais raras que já vi por aqui. Você presume que tem um problema, e decide procurar ajuda profissional.

Normal. Até aí é normal. Logo, como sempre, vai aparecer algum amigo ou amiga que lhe recomendará fazer uma visita a algum consultório de alguma psicóloga conhecida desse seu amigo ou daquela amiga... Normal

Até aí, tudo normal.Anormal é quando você vai, senta num sofazinho aconchegante, e a profissional lhe diz, sem muitos rodeios: Conte-me o seu problema. E coloca a mãozinha debaixo do queixo imitando “O Pensador”, de Rodin. E ainda cruza as pernas, em claro sinal de desconforto, de acordo com aquele último volume de neurolinguística que você já leu milhares de vezes. No banheiro, é claro. E após uma hora maçante, chata, onde ela apenas movia a cabeça, sem sinal nenhum, e a cada frase inteligente sua, ela dizia “ahn-ahn”, a sirigaita lhe diz: “O tempo acabou. São cem reais."

A pergunta vem a cavalo, montada em ventos de tormenta: “Cem paus por que? Por cruzar as pernas e me dizer “ahn-ahn”? Com essa grana eu ia na zona de baixo meretrício e além de contar a minha história e sair dali com a alma lavada, alguma das prostitutas de plantão pelo menos fazia sexo oral...”Lógico. É claro que é uma resposta impertinente. Mas se “o” ou “a” profissional não se dá conta que acabaram os idiotas, é o que leva. E de graça. Ele não precisa pagar nada.Alguma vez li que psicólogos que conhecem a sua área tomam anotações sobre o diálogo estabelecido com o seu paciente, como o caso do meu pai, por exemplo.

O velho Don Félix é doutor em “Loucologia”. O seu estágio e posterior aperfeiçoamento foi feito em casa mesmo.E não é brincadeira. É mesmo. E várias vezes tive de suportar o duro castigo noturno (nada de sobremesas ou tv após o jantar) ao ser pego revisando os seus relatórios de casos francamente hilários. Mas como não sou Manuel Bandeira, ninguém me dará passagem de ida para Passárgada. Espelhando-me em Albert Camus, direi então que sou Avesso do Direito. Ou seja, estou me lixando para a sociedade. Tipo cavalo branco de Dom Pedro, sabe como é? C... e andando, e o povo aplaudindo.

Não pense você que este assunto de ficar em casa é fácil. Em casa e sozinho, se é que me entende.Este tipo de atitude requer que você tenha um estoque considerável de bebidas, por exemplo, para suprir a carência das amenidades do bar. Requer que você possua entre seus pertences móveis, pelo menos um vídeo-cassete, para que, quando estiver com vontade, possa convidar alguma senhorita a bebericar alguma das suas invenções e assistir um filminho da hora, o que será pretexto simples para uma boa transa. Bom, pelo menos para mim deu resultado.

O problema é que ficar a sós durante muito tempo acaba sendo contraproducente. É nesse instante em que se procura uma agradável companhia feminina. Estável, diga-se de passagem. Porém, a mencionada companhia deverá cumprir com mínimos quesitos. Para se tornar companhia, é claro. Amor pela leitura, torna-se obrigatório e é eliminatório. Se passada a primeira noite ela pendura a calcinha no chuveiro, está fora também. Desconfie da maioria, já dizia Nelson Rodrigues...

Porém, e que isto valha para minhas leitoras mais desavisadas ou menos precavidas, chega um certo momento na vida da gente em que se relaxa o pulso firme, e se dão algumas concessões. Nem sempre, é claro. Mas dependendo do tipo de espécime feminino e da sua anatomia, ou das suas virtudes reprodutivas, faz-se vista gorda.Na realidade, e após tanta conversa, devo dizer que não sou um excluído social.

Eu mesmo planejei esta parte do jogo.Sou, isso sim, minoria. Extrema minoria. E para terminar este papo sem pés nem cabeça, feito galinha moderna, quero mais é que os que se aproximam para conversar sobre o impalpável vão à merda.

E também aqueles que se pretendem sábios e julgadores da conduta humana.E por aí vai.Tenho dito. Amém.


  • Félix Coronel  é Analista de Sistema, Professor, Escritor e imortal pela Academia de Letras de Umuarama. 

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