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SOBRE AS NOSSAS POBRES MAZELAS
Alguma vez li – e agora já nem sei mais aonde – que para poder dizer que houve aprendizado devem existir três ações fundamentais: Assimilação, Fixação e Generalização. E assimilar um fato, generalizar uma série de situações com as mesmas características, e fixar aquilo como padrão de raciocínio lógico dentro de nosso paupérrimo universo mental de coisas úteis não deve parecer muito fácil não. Estávamos no Brunna’s Bar, vez passada, em roda de amigos. A Cleuza Franquini, o Ronaldo, a Fátima, a Ivani, enfim, uma linda galera. Até que em certo momento, comentei que costumo sempre conversar com todo o mundo, sem distinção de classe ou credo. Simples questão de personalidade cosmopolita. Aprendi de cedo que de tudo há algo para se aprender. Pois é... É isso aí. A mídia nacional nos bombardeia diariamente com a divulgação da vontade da população brasileira, que pede aos gritos a diminuição da maioridade penal para menores infratores. Ora! Se fizéssemos um simples cálculo de estatística, teríamos em mãos algo realmente patético: a população carcerária de América Latina está composta – exclusivamente – por infratores pertencentes ao segmento social menos favorecido, ou seja, o pobre. Não há ricos na cadeia. É uma realidade gritante? É. É vergonhoso? É. Porém, todo dia me pergunto o que é que nós, que somos os “diferentes” (digo “nós” num ato exaltado de pompa, posto que eu mesmo não tenho um mísero tostão no bolso) fazemos para que o nosso próprio sistema social se torne mais justo, mais coerente, mais sadio. Diariamente a mídia nos mostra que juízes corruptos são julgados e declarados culpáveis, mas não vão para as cadeias, e que advogados tampouco vão, e que políticos que investem milhões em campanhas eleitorais visando alcançar o poder e enriquecer nas custas dos cofres públicos são rapidamente esquecidos pela justiça. Sempre acabo me perguntando a mesma coisa: se um prefeito ganha – em média – dez mil por mês, como é que ele investe em sua campanha dois milhões de reais? Somando esses dez mil por mês, terei em 48 meses de mandato 480 mil reais. E o resto do investimento? Haja amor pelo povo, não? Porém, o ladrão de galinhas não pode ser esquecido nunca. Até porque ele não tem dinheiro para pagar um bom advogado. E até porque alguém terá que justificar a presença da tal famosa e nunca bem conhecida justiça. Somos produto de uma cultura imediatista, com mais de quinhentos anos de história. Quando os primeiros conquistadores fincaram seus pés imundos em terra americana, vieram com o intuito não de criar uma raiz, um mundo próprio, mas de devastar o que possível for, e voltar ao lugar de onde haviam saído. Continuamos pensando assim, até hoje. A maneira mais cômoda de satisfazer a comoção social pela qual atravessam todos os paises latino-americanos é atacar os infratores pobres, jogando sobre eles a responsabilidade que emerge veemente das claras desigualdades sociais. E aqui hei de parar a impetuosidade do meu humilde discurso. Há de separar-se vingança de correção social. De acordo com os textos lidos pelos leguleios de plantão, a cadeia é um meio de punição corretiva. Mas, aos poucos, os Divinos Donos da Vida Popular criaram pequenos infernos. Pequenos e terríveis infernos. Caso não acredite, é só chegar na cadeia de Umuarama. Eu, realmente, sou a favor de reduzir a maioridade penal não para 16, mas para 14 anos. Mas enjaular adolescente pobre é a saída mais patética já adotada pela classe dominante. E parto da base seguinte: todo homem passa por um processo de inserção grupal, no decorrer do seu processo de amadurecimento. Isto é, seguem-se modelos masculinos presentes no dia-a-dia. O nosso jovem pobre tem como modelo o bandido, o traficante, simplesmente porque não possui algo melhor como parâmetro de valores de aprendizagem. E porque desde o seu reduzido ponto de vista, quem tem dinheiro fica impune. A vida do homem (do elemento masculino, se é que me entende) está povoado de rituais, para mostrar aos outros que pode ser chamado de macho dominante. Brincadeiras bobas de criança, como ver quem mija mais longe, ou quem possui o pênis maior, foram trocadas por outras coisas, um pouco mais pesadas. O jovem excluído socialmente (a melhor maneira que encontrei de denominar o pobre) rouba e mata para ser valorizado em seu meio de subsistência. Se para nós, que estamos do outro lado do asfalto, ele é inimigo, também o somos para ele. É esse o jogo tétrico da guerrilha social que alguns inteligentes nos deixaram como legado. Os pequenos grandes vícios mundanos das classes média e alta são satisfeitos por esses excluídos, ao ver entrar nos “guetos” carros importados, em busca do cobiçado pozinho do final do dia. Ou de alguma menina tenra ainda, que se prostitui porque não há que fazer, nem com o que viver. Toda essa gente da mais alta escala social incentiva o fracasso do relacionamento entre classes. E tem mais: quem compra e financia as drogas ilícitas convive tranqüilamente ao nosso lado, freqüentando os mesmo locais que nós. Ele apenas delega a tarefa de vender por grama o que ele compra por tonelada. Negócio simples, não é mesmo? E os ventos de tormenta se aproximam novamente: Por que é que só vai em cana traficante pobre? Por que é que aquele rico empresário, que passa o dia todo bebendo suco de açaí em seu escritório, e que todo o mundo sabe que o negócio dele é o pó branco, está ali tranqüilamente sentado, sem ninguém fazer nada? Será o novo “intocável”? Precisamos compreender que o menor infrator é vítima do meio social, e que a maldade não é fruto da sua própria personalidade. Quando ele reage com violência é porque simplesmente também já agiram com ele empregando violência. Ainda há tempo de parar a roda infame, o círculo enfermiço no qual estamos inseridos. Somente alterando os valores sociais e deixando de lado preconceitos vários é que conseguiremos uma sociedade mais fraterna. Basta querer. O resto? Deixa pra
lá.
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