|
ESTRANHA RELAÇÃO LITERÁRIA
Está certo.
Não vou começar a escrever reclamando da vida, mas quando
a gente corre atrás... Acaba descobrindo cada coisa!
Ontem à tarde, sem nada a fazer, e enquanto estava sonhando acordado
com o rostinho angelical de uma morena dos pagos de Santo André,
lá pelas bandas de São Paulo, vi um dos meus textos mais
patéticos, se não o pior, e que custou-me meio litro de
Natu Nobilis, assinado por um fulano completamente desconhecido para
mim.
Desconhecido digo, porque não o conheço. Nunca vi. Nem
falei com ele.
Até porque não converso com estranhos. Mamãe não
deixa até hoje.
Diz que é para preservar a minha integridade.
Sei lá...
Mas vai que o sujeitinho cria fama!
Até ali, nada demais, a não ser pelo fato que publico
os meus humildes textinhos em vários locais da rede.
É, eu sei. Você já está com a frase na ponta
da língua: E o que é que tenho a ver com isso?
Mas poxa!
Além de eu ser o infeliz possuidor de 20 de QI, ainda tenho que
aguentar esse troço?
Allah-Uh-Akbar! Me dai paciência!
Creio eu que um dos maiores problemas em se publicar textos via Internet
está na facilidade com que certas pessoas dão "Copiar
& Colar" neles a torto e a direito, muitas vezes apropriando-se
da paternidade de filhos que foram paridos à base de muita elucubração,
lubricação etílica e rascunhos intermináveis.
Se é má fé ou lapso do responsável pelos
forwards ("Encaminhar", para os leigos), não importa:
o estrago é o mesmo e custa a ser reparado.
De qualquer modo, o "fenômeno" é antigo, e a
Internet apenas ampliou o alcance dessas falsas autorias de textos.
O exemplo mais conhecido é um poema de Nadine Stair, chamado
"Instantes" ("Se eu pudesse viver novamente a minha vida/
Na próxima trataria de cometer mais erros"), que é
atribuído a Jorge Luis Borges.
O imbróglio chegou a tal ponto que obrigou à viúva
de Borges, Maria Kodama (que fora sua secretária durante muitos
e muitos anos, e a encarregada de teclar na Olivetti, dado que Don Jorge
não sabia e não queria aprender), a manifestar-se oficialmente
na Justiça, alertando que os direitos autorais dos versos pertenciam
a Stair, que compôs tais versos aos 85 anos de idade (à
beira da morte, como o próprio poema sugere).
Até eu cai na insensatez de acreditar que Don Jorge tivera escrito
aquilo tão belo. Não que não goste dele, mas ele
foi em vida um sujeito amargo como pum de cachorro, se é que
me permite a expressão tão chula. A Laika, minha cachorrinha
fila, após suas refeições, é cruel exemplo.
Muitas vezes vi Don Jorge andando devagar, com um guardachuva preto
pendurado do antebraço, no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.
Bom, naquela época, eu nem ligava. Não tinha telefone.
E ele não gostava de crianças.
O homem era famoso mesmo. Famoso por não gostar de criança,
e por dizer que o futebol era um jogo estranho, incompreensível:
ele nunca entendera esse fato curioso de 22 malucos correrem atrás
de uma bola.
Outro caso notório é o de "No Caminho com Maiakóvski",
creditado erroneamente ao próprio Maiakóvski ou a Bertold
Brecht, e que na realidade saiu da pena de Eduardo Alves da Costa.
Lamentável logro, por dar a César o que não é
de César (no caso, os créditos de um poema genuinamente
bom).
Episódio tão lamentável este, quanto é o
crédito falso dado a textos repletos de chavões e/ou erros
de português.
Arnaldo Jabor é uma das vítimas mais conhecidas dessa
contramão de autorias, como comprova o caso de uma crônica
sobre o primeiro Big Brother Brasil que andou sendo espalhada por Outlooks
e Eudoras alheios, desde o ano passado, intitulada "Faz Parte!!".
Do mesmo modo, quantas vezes não recebi versos supostamente escritos
por Clarice Lispector?
Há ainda os casos de escritores amadores que criam certos textos
e, propositadamente, os atribuem a autores já conhecidos.
Luis Fernando Veríssimo é a vítima mais notória
desses procedimentos.
Como certos fabricantes "Made in Paraguay", que produzem tênis
Mike, pilhas Dubacell e calças Fóbum, distribuindo-os
nas melhores barracas de camelô do ramo, a perspicâcia de
certos elementos me arrepia.
Mesmo. Sem brincadeira de linguagem.
José Nêumanne dá como exemplo a história
de um certo Undurraga, que misturava versos de Pablo Neruda com editoriais
do jornal cubano Granma em espanhol, e conseguia espaço para
publicação em revistas especializadas.
Enfim. Este mundo,
meu amor, definitivamente não é para inocentes.
Não mesmo...
FÉLIX CORONEL
mora em Umuarama-PR, é Analista de Sistemas, formado em Letras,
e alguns dizem que é escritor...
(044) 9967-5234
[Voltar]
|