|
CARTA AO VELHO CARTOLA
“Ainda
é cedo amor.
Mal começaste a conhecer a vida,
Já anuncias a hora de partida,
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar...”
Pois é,
meu velho Cartola. Com todo respeito, mas você tinha razão:
o mundo é um moinho mesmo...
Curitiba
oferece ao viciado em leitura uma variedade enorme de opções
para a aquisição de obras raras, dada a grande quantidade
de sebos que possui. Aqui em Umuarama, meu velho Cartola, as traças
mandaram embora o único maluco que conseguiu manter um sebo decente
durante seis meses...
Também!
Quem dera poder comprar um livro novo!
O que o povo daqui não se deu conta é que livro não
é pra estar bonitinho, novinho, cheirosinho, embrulhadinho, dormindo
lá na estante. É pra ser judiado, amassado... E lido.
Eu sei.
Eu não consegui avisar, Mestre Cartola.
Para piorar a situação, há de entender-se o seguinte:
nesse enrosco de vender livro novo ganha o dono da livraria (30%), ganha
o cara da editora (30%), ganha o distribuidor (30%), ganha a empresa
de transportes (7%), e o paupérrimo autor fica com míseros
3%...
No sebo não gira muito dinheiro, mas o autor é valorizado,
é incentivado, porque o que vale não é a vendagem,
mas a crítica que o cara que escreve recebe pelo que fez.
Não é mesmo?
Lembro bem do momento em que o conheci: foi lá na quadra da Mangueira,
nos idos de 1983, e quem nos apresentou foi Seu Carlinhos Cachaça.
Lembra-se, velho Cartola?
Espero que desculpe a intimidade, mas é que sem saber, e sem
estar, você esteve do meu lado em todos estes anos (saiba desculpar
o “você”, mas lá na Mangueira me ensinaram
que você é tratamento respeitoso).
Mas não é pra chorar minhas mágoas que lhe escrevo,
não. Eu não mereço tanto, velho Cartola.
Li nesses dias atrás, num velho tratado de sociologia (comprado
em sebo logicamente), e nem lembro bem de quem (acho que foi do Louis
Jacot, “História Crítica do Pensamento”),
que o homem é um ser social. Que tudo que desenvolve é
através do seu contato com seres da sua própria espécie.
E é por causa disso que o homem procura sempre formar uma “coletividade”.
Os botequins, por exemplo, são locais dedicados única
e exclusivamente a um processo de relaxamento coletivo, por assim dizer,
e talvez seja o lugar mais adequado para que o ser humano promova um
reencontro consigo mesmo e, consequentemente, com o seu próximo,
viabilizando desta forma a manifestação da criação
que é, numa análise derradeira, o próprio cerne
da Arte.
O tempo passou velho Cartola.
E aquele moleque “de fala enrolada”, como Seu Carlinhos
Cachaça me chamava, e que perambulava nas noites da Lapa, virou
escritor, após vinte e tantos anos de luta. E de esforço
e leitura contumaz.
E pra piorar, componente de academia. E quer saber velho Cartola? Academia
é sinônimo de centro poderoso de elaboração
intelectual, lugar em que se debatem questões importantíssimas.
A convivência com intelectuais facilita o processo mental de uma
série de idéias novas.
A rapaziada que compõe a academia é chamada de “imortal”.
Porque o ritual acadêmico recomenda àquele (a) que vai
tomar posse de determinada cadeira que faça uma análise
da obra do seu antecessor. Daí essa menção à
imortalidade: os caras nunca são esquecidos. Pelo menos nesse
círculo.
Eu, por exemplo, sou imortal porque não tenho onde cair morto.
Essa tal de “academização” da moçada
nunca foi e nunca será sinônimo de produção
artística. Já puxar um sambinha com uma caixa de fósforos,
ou declamar as suas poesias acompanhado de um violão e uma garrafa
de scotch, geralmente o é.
O artista
não precisa ser membro de academia, porque é natural em
sua poesia, e é o povo quem lhe faz imortal. Como você,
por exemplo. E quem não gostar que reclame com o Presidente da
AULA, se por acaso me julgarem equivocado. Evidentemente também,
as academias lutam por preservar a língua.
A portuguesa é claro.
Já pensou em fazer um sambinha, lá no Céu, usando
a palavra “customizar”?
Essa sofisticação tola que existe hoje é forma
velada de colonialismo que precisamos combater, não acha?
Tornou-se mania usar exageradamente terminologia estrangeira na língua
tupiniquim.
Pode até me chamar de intolerante, mas há regras a seguir.
A língua está formada por uma série de códigos,
de preceitos e padrões que devem obrigatoriamente ser cumpridos.
Não saber ser cafetão das palavras é um pecado
mortal para um acadêmico ou aspirante à academia.
Mas enfim, velho Cartola. Por aqui está tudo bem. Ou quase. Umuarama
deixou de ser cidade do interior, para passar a ser cidade do interior
violenta. É moleque cheirando pó, é menina de 12
anos se prostituindo para comprar craque, lá na Avenida Paraná,
é um tal de lança-perfume que não acaba mais. A
morte chega sem pedir licença, meu velho Cartola. É na
base da bala, da faca, da peixeira, do carro com motorista alcoolizado,
enfim.
Mas eu continuo ouvindo a sua música e a sua poesia, nessas madrugadas
em que a saudade bate.
Sem mais, aproveito a ocasião para formular votos de permanente
e sincera devoção.
Félix
Coronel
[Voltar]
|