bannerartigos.gif (36969 bytes)

banner_publique2.gif (11775 bytes)

bannerpleno.gif (64299 bytes)

Félix Coronel

Umuarama - Paraná

 
CARTA AO VELHO CARTOLA

“Ainda é cedo amor.
Mal começaste a conhecer a vida,
Já anuncias a hora de partida,
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar...”

Pois é, meu velho Cartola. Com todo respeito, mas você tinha razão: o mundo é um moinho mesmo...

Curitiba oferece ao viciado em leitura uma variedade enorme de opções para a aquisição de obras raras, dada a grande quantidade de sebos que possui. Aqui em Umuarama, meu velho Cartola, as traças mandaram embora o único maluco que conseguiu manter um sebo decente durante seis meses...

Também!
Quem dera poder comprar um livro novo!
O que o povo daqui não se deu conta é que livro não é pra estar bonitinho, novinho, cheirosinho, embrulhadinho, dormindo lá na estante. É pra ser judiado, amassado... E lido.

Eu sei.
Eu não consegui avisar, Mestre Cartola.
Para piorar a situação, há de entender-se o seguinte: nesse enrosco de vender livro novo ganha o dono da livraria (30%), ganha o cara da editora (30%), ganha o distribuidor (30%), ganha a empresa de transportes (7%), e o paupérrimo autor fica com míseros 3%...
No sebo não gira muito dinheiro, mas o autor é valorizado, é incentivado, porque o que vale não é a vendagem, mas a crítica que o cara que escreve recebe pelo que fez.
Não é mesmo?

Lembro bem do momento em que o conheci: foi lá na quadra da Mangueira, nos idos de 1983, e quem nos apresentou foi Seu Carlinhos Cachaça.
Lembra-se, velho Cartola?

Espero que desculpe a intimidade, mas é que sem saber, e sem estar, você esteve do meu lado em todos estes anos (saiba desculpar o “você”, mas lá na Mangueira me ensinaram que você é tratamento respeitoso).

Mas não é pra chorar minhas mágoas que lhe escrevo, não. Eu não mereço tanto, velho Cartola.
Li nesses dias atrás, num velho tratado de sociologia (comprado em sebo logicamente), e nem lembro bem de quem (acho que foi do Louis Jacot, “História Crítica do Pensamento”), que o homem é um ser social. Que tudo que desenvolve é através do seu contato com seres da sua própria espécie.
E é por causa disso que o homem procura sempre formar uma “coletividade”.

Os botequins, por exemplo, são locais dedicados única e exclusivamente a um processo de relaxamento coletivo, por assim dizer, e talvez seja o lugar mais adequado para que o ser humano promova um reencontro consigo mesmo e, consequentemente, com o seu próximo, viabilizando desta forma a manifestação da criação que é, numa análise derradeira, o próprio cerne da Arte.
O tempo passou velho Cartola.

E aquele moleque “de fala enrolada”, como Seu Carlinhos Cachaça me chamava, e que perambulava nas noites da Lapa, virou escritor, após vinte e tantos anos de luta. E de esforço e leitura contumaz.
E pra piorar, componente de academia. E quer saber velho Cartola? Academia é sinônimo de centro poderoso de elaboração intelectual, lugar em que se debatem questões importantíssimas.

A convivência com intelectuais facilita o processo mental de uma série de idéias novas.
A rapaziada que compõe a academia é chamada de “imortal”. Porque o ritual acadêmico recomenda àquele (a) que vai tomar posse de determinada cadeira que faça uma análise da obra do seu antecessor. Daí essa menção à imortalidade: os caras nunca são esquecidos. Pelo menos nesse círculo.
Eu, por exemplo, sou imortal porque não tenho onde cair morto.

Essa tal de “academização” da moçada nunca foi e nunca será sinônimo de produção artística. Já puxar um sambinha com uma caixa de fósforos, ou declamar as suas poesias acompanhado de um violão e uma garrafa de scotch, geralmente o é.

O artista não precisa ser membro de academia, porque é natural em sua poesia, e é o povo quem lhe faz imortal. Como você, por exemplo. E quem não gostar que reclame com o Presidente da AULA, se por acaso me julgarem equivocado. Evidentemente também, as academias lutam por preservar a língua.
A portuguesa é claro.

Já pensou em fazer um sambinha, lá no Céu, usando a palavra “customizar”?
Essa sofisticação tola que existe hoje é forma velada de colonialismo que precisamos combater, não acha?
Tornou-se mania usar exageradamente terminologia estrangeira na língua tupiniquim.
Pode até me chamar de intolerante, mas há regras a seguir. A língua está formada por uma série de códigos, de preceitos e padrões que devem obrigatoriamente ser cumpridos.
Não saber ser cafetão das palavras é um pecado mortal para um acadêmico ou aspirante à academia.

Mas enfim, velho Cartola. Por aqui está tudo bem. Ou quase. Umuarama deixou de ser cidade do interior, para passar a ser cidade do interior violenta. É moleque cheirando pó, é menina de 12 anos se prostituindo para comprar craque, lá na Avenida Paraná, é um tal de lança-perfume que não acaba mais. A morte chega sem pedir licença, meu velho Cartola. É na base da bala, da faca, da peixeira, do carro com motorista alcoolizado, enfim.

Mas eu continuo ouvindo a sua música e a sua poesia, nessas madrugadas em que a saudade bate.
Sem mais, aproveito a ocasião para formular votos de permanente e sincera devoção.

Félix Coronel


  • Félix Coronel  é Analista de Sistema, Professor, Escritor e membro da Academia de Letras de Umuarama. 

[Voltar]