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O MITO MASCULINO DA MULHER INFIEL
Hoje em dia, qualquer assunto referente a melhorar a qualidade de vida do ser humano serve como tese de mestrado. Assim, vemos que até as antigas culturas orientais hoje se preocupam em mostrar uma imagem mais “light” para ocidente, porque dessa imagem depende a inserção dos seus produtos. Tudo que seja referente a Vendas & Mercado está intimamente ligado a estatísticas e pesquisas. De gosto, de preferência, de mercado, de sexo, de tamanho do tal, de cor, de formato e maleabilidade, se frontal ou dorsal, enfim, pesquisa. Em 2004, uma famosa empresa italiana de cosméticos (não pedirei patrocínio, portanto não mencionarei o seu nome) mandou um grupo de estagiários sem nada pra fazer (o de sempre) realizar uma enquête sobre as conseqüências físicas e psíquicas do adultério, e o trabalho mostrou resultados surpreendentes. Segundo a pesquisa, exaustivamente elaborada, as mulheres rejuvenescem com a infidelidade. 47% preocupam-se mais com o seu aspecto após transar com um amante (ou dois); 28% emagrecem e recuperam a forma; 24% garantem que a sua pele fica melhor após o ato ilícito bem consumado, e 52% afirmam que a traição lhes outorga maior equilíbrio psicológico. Além disso, 26% confessaram não ter remorso nenhum pela questão da coisa. No caso dos homens, acontece o contrário. Por exemplo, 32% dos homens entrevistados sentem-se muito culpados após o adultério; também 32% observam maior quantidade de rugas, e 24% sentem-se mais barrigudos. Poderia dizer-se que para os senhores dar umazinha fora do regulamento é fatal. Para as mulheres, o efeito colateral do ato em si as melhora. Esta enquête incrível, que achei no site da mencionada empresa italiana da qual não direi o nome, parece dar a razão a um dos medos ancestrais do homem, esse mito masculino tão elementar e tão profundo da mulher infiel, isto é, da fêmea sem piedade, devoradora de homens, insaciável; da companheira mentirosa que na realidade não depende tanto dele como ele sente depender dela. Eu fico imaginando de onde terá nascido esta obsessão: talvez da nossa fragilidade emocional e da nossa incapacidade de lidar e nomear sentimentos (este é um dos preços mais altos que temos pagado os homens com o machismo). Seja como for, este pânico escuro e abjeto tem servido como base para usos sociais certamente atrozes. Como o harém e os véus, por exemplo. Prender e ocultar às mulheres para impedir-lhes o contato com outros homens. Ou como a ablação clitoridiana e a infibulação, também chamada de excisão faraônica, considerada a pior de todas, pois, após a amputação do clitóris e dos pequenos lábios, os grandes lábios são secionados, aproximados e suturados com espinhos de acácia, sendo deixada uma minúscula abertura necessária ao escoamento da urina e da menstruação. Esse orifício é mantido aberto por um filete de madeira, que é, em geral, um palito de fósforo. As pernas devem ficar amarradas durante várias semanas até a total cicatrização. Assim, a vulva desaparece sendo substituída por uma dura cicatriz. Por ocasião do casamento a mulher será “aberta” pelo marido ou por uma “matrona” (mulheres mais experientes designadas a isso). Mais tarde, quando se tem o primeiro filho, essa abertura é aumentada. Algumas vezes, após cada parto, a mulher é novamente infibulada. Olho a Priscilla, minha filha, dormir tão placidamente, e penso. Dois milhões de meninas da sua idade são mutiladas ainda no mundo a cada ano. A literatura universal está cheia de relatos de mulheres infiéis. Lógico. Óbvio. A literatura tem sido até muito pouco tempo atrás espaço reservado para homens – ou elementos com imagem de tal – e a imensa maioria dos casos de infidelidade feminina está contada desde a ótica do medo e do mito masculino. Um exemplo perfeito desse olhar extremadamente sexista é a “História do rei Schahriar e o seu irmão Schahseman”, um conto pertencente ao livro “As Mil e uma Noites”. Trata-se de uma fábula primordial, puro subconsciente de macho feito lenda. De fato, é tão importante dentro do contexto coletivo das Mil e Uma Noites que a anedota repete-se duas vezes, em duas partes diferentes, e dá origem ao relato base de todo o livro. Temos aqui o relato sucinto da infidelidade com a sua carga de elementos míticos, desde a promiscuidade lendária das mulheres (afinal das contas, 570 anéis não é brincadeira), e o fato de que a garota da fábula não faz amor com centenas de homens levada pelo desejo de prazer, mas pelo seu desejo de vingança. Talvez neste relato elementar jaza o inconsciente, por parte dos homens, do maltrato machista ao qual submetem às mulheres e o temor de que elas se vinguem no que mais dói: na intimidade emocional na qual todos os homens nos sentimos tão indefesos. Existem muitas maneiras de narrar uma infidelidade, e milhares de outras histórias que contar. De fato, a bela e inteligente Scharazad, filha do vizir, contará inúmeras histórias apaixonantes ao rei traído, que este irá lhe perdoando a vida durante mil e uma noites, e ao término desse tempo, o antigo rei assassino descobrirá que teve três filhos com Scharazad, que a ama ternamente, e o que é mais importante, que já não odeia (teme) às mulheres. Eu já considerei este conto como a parábola da maturidade sexual do homem. Enfim, a infidelidade da mulher é um assunto complexo e profundo ao qual a voz masculina tem dotado, ao longo da história, de significados muito precisos. Mas, além dos preconceitos machistas, na infidelidade, seja de homens ou mulheres, estão em jogo muitas outras coisas; sobretudo, acho que o desejo ou o sonho de ser outro. Quem não foi infiel alguma vez em sua vida, pelo menos imaginariamente? Quem não tem se projetado no amor de outro e, por conseguinte, no desenho deslumbrante de uma vida nova? A ambição de ter o que não temos e de ser o que não somos forma parte substancial da natureza humana, e a infidelidade, portanto, também. Embora a gente não se atreva a colocá-la em prática. E você? O grande segredo para vencer um medo é apenas um passo à frente.
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