bannerartigos.gif (36969 bytes)

banner_publique2.gif (11775 bytes)

bannerpleno.gif (64299 bytes)

Félix Coronel

Umuarama - Paraná

 
RAÍZES

Alguma vez eu lhe disse que este assunto de escrever é algo muito solitário?

Sinto certa espécie de pena dos escritores. Nada mais melancólico que um escritor, obcecado em arrancar orgasmos às palavras, em colocar no papel aquilo que ronda os seus pensamentos. Ele fica ali, sentado num canto, isolado, sem poder falar com ninguém, sem possibilidade de olhar pela janela e fugir voando montado nas costas breves de uma borboleta, caneta em mão qual fosse espada febril...

Suponho-me que para escrever há de ter-se boa memória, bons ouvidos, talvez um pouco de sensibilidade (mas não muita) e a paciência suficiente para rever tudo àquilo que foi ouvido.
Eu sou assim.

Ouço mais do que falo. Observo mais do que vejo. E lembro. Quem sabe seja porque as lembranças formam parte intrínseca de mim.
Ontem minha filha me perguntou, inocentemente, de onde provinha o sobrenome Coronel.

E contei-lhe a história. Tantas vezes contada, tantas vezes ouvida, tantas e tantas vezes repetida pelos mais velhos da família. Tudo aconteceu em 1360, em um monastério da Espanha. Época dos mouros, domínio dos árabes.

Engraçado que depois de tanta crueldade cometida nessa época, o meu pai tenha casado com uma síria.
É. Essa é minha amorosa mãe.
Contar-lhe-ei pormenores dessa época numa outra ocasião, quem sabe quando haja maior conteúdo nesta garrafa de bom scotch, que teima em esvaziar.

O assunto é que um tal de Capitão Enrique de Vedia y Coronel desembarcou na cidade de Assunção, capital do Paraguai, no verão de 1678, segundo consta nos registros de missões militares da província de Castilha, Espanha. E ali ficou. Casou, procriou, e jamais voltou à Espanha.

Os seus filhos se reproduziram rapidamente. Desde essa época, e até meados do século XIX, os Coronel possuíam terras às margens do rio Paraguai, num lugar chamado Presidente Hayes, até o ponto conhecido como “Três Bocas”, onde ainda moram os filhos, netos e bisnetos do tio Papacho, irmão do meu avô Pedro Pablo.

Quando terminou a Guerra da Tríplice Aliança, muitos migraram. Eu diria que a maioria. Alguns para o Peru, outros para o Uruguai, de onde posteriormente entraram para o Rio Grande do Sul, outros para Argentina. Mas os sobreviventes daquela infâmia prometeram contar aos seus descendentes a verdade sobre os fatos. E assim o fizeram.

Eu tive a sorte de conviver com todos aqueles meus parentes que tinham nascido em finais do século XIX e inícios do século XX. E como sempre fui uma criança curiosa (até hoje), cresci ouvindo as histórias dos mais velhos, que se reuniam na cozinha, para uma roda de chimarrão.

E guardei aquelas histórias. Muito bem guardadas. Contava tia Conchita, irmã mais velha do meu avô Pedro Pablo, que a sua mãe era uma menina de 10 anos no momento da famosa “evacuação” de Assunção, quando o exército aliado ocupou a capital paraguaia, em 1869. E foi ela quem me contou esta passagem, na sua velhice, que por sua vez tinha ouvido da sua mãe. Lembro bem das suas mãos suaves, dos seus olhos claros que pareciam faiscar, da sua falsa mansidão ao falar.

Já não havia muitos homens no Paraguai, em 1869. A grande maioria tinha sucumbido nas batalhas, ou se encontrava ferido. E as mulheres se transformaram em “residentas”, ao iniciar o êxodo de Assunção.“Residenta” é o nome que a história deu às mulheres que ficaram sem lar, sem marido, nem irmão, nem pai, nem cunhado, nem nada que fosse masculino, condenadas a fugir eternamente para não serem estupradas e humilhadas pelas tropas aliadas, pois a guerra tinha acabado com quase todos eles.

Quando as primeiras tropas argentinas e brasileiras se instalaram na cidade, as famílias tradicionais fugiram desesperadamente, devido aos saqueios, estupros, e todo tipo de ato de terror imaginável.

E se esconderam nas serras próximas à capital, onde até hoje é possível encontrar vasilhas enterradas, cheias de moedas de ouro...
E não é conto pra boi dormir.
Mas enfim.

O meu avô Pedro Pablo me disse (e me mostrou o local) onde a sua mãe tinha se escondido, num local próximo a Areguá, à beira do Lago Ypacaraí. Em 1º de março de 1870, o exército paraguaio (que se resumia a um total de 200 homens...) retirou-se até um local chamado Cerro Corá. Ali foi alcançado por uma coluna destacada comandada pelo valente General Correa de Câmara. O Marechal Francisco Solano López foi ferido no ventre e na cabeça nessa luta. Auxiliado por uns poucos sobreviventes famintos e doentes, conseguiu chegar até a beira do rio Aquidabã, onde foi morto por um disparo no peito.

Foi ali mesmo que morreu Panchito, filho do Marechal Solano López, de 13 anos de idade, defendendo a dignidade da sua mãe, ao ser atravessado por uma lança.
Chegaram perto da carruagem onde estava a esposa do Solano López, com o filho morto nos braços, o coronel Antonio da Silva Paranhos e o sargento maior Floriano Peixoto, que lhe garantiram a “Madama” Lynch, como era conhecida, que a sua vida seria poupada, espantando à soldadesca que a rodeava.

Quando a carruagem se dirigia, acompanhada por Paranhos e Peixoto, ao ex-acampamento paraguaio, encontraram os restos do Solano López, trazidos do local da luta, completamente despido, com o ventre aberto, e as vísceras expostas. Estava rodeado de soldados, que dançavam ao redor do corpo. As mulheres paraguaias que acompanhavam o grupo de fugitivos passavam de mão em mão, qual fossem bonecas de trapo. Ao ver a cena, a esposa do marechal, Elisa Lynch, lançou-se sobre os soldados, enfurecida. E contava tia Conchita que ela disse assim: “É esta, cavalheiros, a civilização que nos trazem à base de canhões?”.

O sargento maior Peixoto afugentou os profanadores, que eram todos de cor. Eliza Lynch pagou três onças de ouro por um lençol branco, com o qual cobriu os cadáveres, e os enterrou juntos, com a ajuda solícita do sargento Peixoto. Quando a triste sepultura ficou pronta, continuaram a marcha ao acampamento.

O sargento maior Peixoto foi, anos mais tarde, Marechal Presidente dos Estados Unidos do Brasil e segundo fundador da república brasileira. Concepción Coronel (tia Conchita) faleceu em 1981, aos 97 anos de idade. Tinha quebrado uma perna meses antes da sua morte.

A sua filha, Mercedes, casou com um militar, de nome Patrício Colmán, que teve ativa participação no regime do recentemente finado Alfredo Stroessner, a quem jamais chamarei de general. Com ele teve dois filhos, Patrício e Miguel Angel.

Mas essa é outra história.
O uísque acabou.
Au revoir.


  • Félix Coronel  é Analista de Sistema, Professor, Escritor e membro da Academia de Letras de Umuarama. 

[Voltar]