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RAÍZES Alguma vez eu lhe disse que este assunto de escrever é algo muito solitário? Sinto certa espécie de pena dos escritores. Nada mais melancólico que um escritor, obcecado em arrancar orgasmos às palavras, em colocar no papel aquilo que ronda os seus pensamentos. Ele fica ali, sentado num canto, isolado, sem poder falar com ninguém, sem possibilidade de olhar pela janela e fugir voando montado nas costas breves de uma borboleta, caneta em mão qual fosse espada febril... Suponho-me
que para escrever há de ter-se boa memória, bons ouvidos,
talvez um pouco de sensibilidade (mas não muita) e a paciência
suficiente para rever tudo àquilo que foi ouvido. Ouço
mais do que falo. Observo mais do que vejo. E lembro. Quem sabe seja
porque as lembranças formam parte intrínseca de mim. E contei-lhe a história. Tantas vezes contada, tantas vezes ouvida, tantas e tantas vezes repetida pelos mais velhos da família. Tudo aconteceu em 1360, em um monastério da Espanha. Época dos mouros, domínio dos árabes. Engraçado
que depois de tanta crueldade cometida nessa época, o meu pai
tenha casado com uma síria. O assunto
é que um tal de Capitão Enrique de Vedia y Coronel desembarcou
na cidade de Assunção, capital do Paraguai, no verão
de 1678, segundo consta nos registros de missões militares da
província de Castilha, Espanha. E ali ficou. Casou, procriou,
e jamais voltou à Espanha. Quando terminou a Guerra da Tríplice Aliança, muitos migraram. Eu diria que a maioria. Alguns para o Peru, outros para o Uruguai, de onde posteriormente entraram para o Rio Grande do Sul, outros para Argentina. Mas os sobreviventes daquela infâmia prometeram contar aos seus descendentes a verdade sobre os fatos. E assim o fizeram. Eu tive a sorte de conviver com todos aqueles meus parentes que tinham nascido em finais do século XIX e inícios do século XX. E como sempre fui uma criança curiosa (até hoje), cresci ouvindo as histórias dos mais velhos, que se reuniam na cozinha, para uma roda de chimarrão. E guardei aquelas histórias. Muito bem guardadas. Contava tia Conchita, irmã mais velha do meu avô Pedro Pablo, que a sua mãe era uma menina de 10 anos no momento da famosa “evacuação” de Assunção, quando o exército aliado ocupou a capital paraguaia, em 1869. E foi ela quem me contou esta passagem, na sua velhice, que por sua vez tinha ouvido da sua mãe. Lembro bem das suas mãos suaves, dos seus olhos claros que pareciam faiscar, da sua falsa mansidão ao falar. Já não havia muitos homens no Paraguai, em 1869. A grande maioria tinha sucumbido nas batalhas, ou se encontrava ferido. E as mulheres se transformaram em “residentas”, ao iniciar o êxodo de Assunção.“Residenta” é o nome que a história deu às mulheres que ficaram sem lar, sem marido, nem irmão, nem pai, nem cunhado, nem nada que fosse masculino, condenadas a fugir eternamente para não serem estupradas e humilhadas pelas tropas aliadas, pois a guerra tinha acabado com quase todos eles. Quando as primeiras tropas argentinas e brasileiras se instalaram na cidade, as famílias tradicionais fugiram desesperadamente, devido aos saqueios, estupros, e todo tipo de ato de terror imaginável. E se esconderam
nas serras próximas à capital, onde até hoje é
possível encontrar vasilhas enterradas, cheias de moedas de ouro... O meu avô
Pedro Pablo me disse (e me mostrou o local) onde a sua mãe tinha
se escondido, num local próximo a Areguá, à beira
do Lago Ypacaraí. Em 1º de março de 1870, o exército
paraguaio (que se resumia a um total de 200 homens...) retirou-se até
um local chamado Cerro Corá. Ali foi alcançado por uma
coluna destacada comandada pelo valente General Correa de Câmara.
O Marechal Francisco Solano López foi ferido no ventre e na cabeça
nessa luta. Auxiliado por uns poucos sobreviventes famintos e doentes,
conseguiu chegar até a beira do rio Aquidabã, onde foi
morto por um disparo no peito. Quando a carruagem se dirigia, acompanhada por Paranhos e Peixoto, ao ex-acampamento paraguaio, encontraram os restos do Solano López, trazidos do local da luta, completamente despido, com o ventre aberto, e as vísceras expostas. Estava rodeado de soldados, que dançavam ao redor do corpo. As mulheres paraguaias que acompanhavam o grupo de fugitivos passavam de mão em mão, qual fossem bonecas de trapo. Ao ver a cena, a esposa do marechal, Elisa Lynch, lançou-se sobre os soldados, enfurecida. E contava tia Conchita que ela disse assim: “É esta, cavalheiros, a civilização que nos trazem à base de canhões?”. O sargento maior Peixoto afugentou os profanadores, que eram todos de cor. Eliza Lynch pagou três onças de ouro por um lençol branco, com o qual cobriu os cadáveres, e os enterrou juntos, com a ajuda solícita do sargento Peixoto. Quando a triste sepultura ficou pronta, continuaram a marcha ao acampamento. O sargento
maior Peixoto foi, anos mais tarde, Marechal Presidente dos Estados
Unidos do Brasil e segundo fundador da república brasileira.
Concepción
Coronel (tia Conchita) faleceu em 1981, aos 97 anos de idade. Tinha
quebrado uma perna meses antes da sua morte.
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