Everaldo d'Alverga |
JORNALISMO "A gente se indigna e exige que os
militares responsáveis pelo espancamento de jornalistas no O jornalista, apesar de não ser bem remunerado, de sofrer agressões de policiais (alguns são assassinados), sofrer incompreensão de pessoas que são notícia (ãs vezes notícia boa, outras vezes notícia ruim) apesar desses pequenos detalhes ou por isso, o jornalismo ainda é uma profissão fascinante. Por questões profissionais, o jornalista se vê na necessidade de andar de ultra-leve, voar de asa delta, pular de para-pente, se meter em tiroteio, pancadaria, incêndios, passeatas, guerras, terremotos, coquetéis, coletivas do presidente da República, coletiva do Mr. M, do governador, do prefeito, do artista de televisão, do deputado, do vereador, do senador, apanhar de vinte imbecis da polícia do "glorioso" exército brasileiro na festa de fim de ano no forte de copacabana, do sei lá o quê... pânico geral... Aqui, as palavras polícia, exército brasileiro e forte de copacabana estão escritas em letras minúsculas por causa dos idiotas que transformaram em uma coisa menor a festa no réveillon de 2000. O jornalista está ali, firme e forte. Aturando chuva e trovoada, tomando tapa na orelha, filme queimado, equipamento quebrado. Talvez o fascínio seja esse: de não existir uma rotina como em outras profissões tradicionais. Hoje você está no Rio de Janeiro cobrindo a lambança que acontece no diretório regional do PT; no Maracanã, fotografando futebol ou o padre Marcelo; está no centro da cidade cobrindo conflito entre PM e camelô; no Sambódromo, fotografando as escolas de samba ou show de roqueiro. Amanhã está em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Amazonas, no Acre, viajando o mundo, conhecendo gente. Talvez o fascínio esteja aí. Conhecer gente. Acompanhar dramas, alegrias, se emocionar, se irritar, participar do espetáculo da vida, adrenalina pura. No final do dia, mesmo no bagaço, a sensação do dever cumprido. Não sei se essa é a melhor maneira de exercer uma profissão, mas manter o comportamento do profissional isento que apenas recebe a notícia, decodifica e transfere para um público não faz muito a minha cabeça. O jornalista, além da função de decodificar e transferir informação, também é agente da História. Agente da História sim, principalmente como cidadão e profissional, quando a gente se indigna e exige que os militares responsáveis pelo espancamento de jornalistas no Forte de Copacabana sejam identificados e punidos pelos atos covardes que praticaram, impedindo que exerçam a profissão. Agente da História sim, quando a gente mostra que existe um projeto de Lei tramitando no Congresso para calar os profissionais de Imprensa, projeto esse que se virar Lei, não poderemos mais denunciar o autoritarismo e o embuste de pessoas que ajudaram a dar o golpe militar em 1964 e estão em atividade, lutando ferozmente para que o Brasil seja totalmente loteado com essas privatizações precipitadas, sabe-se lá sob quais objetivos. Pessoas que não querem que seus atos escusos sejam apurados pela Justiça e ordenam o espancamento de manifestantes e jornalistas em atos públicos. Personagens que querem a volta da política de porão e de esgoto da ditadura. Agente da História, quando a informação que você possui pode mudar o destino de uma nação. Por exemplo: informação da ventania que derrubou parte da estrutura que protegia o palco iluminado onde ficariam as autoridades brasileiras e convidados, na festa de fim de ano no forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Para que isso não fosse divulgado, "foram detidos dois elementos de altíssima periculosidade e fortemente armados que são os intermediários entre centros do poder e homens que não estão em grupo de poder nenhum e, de posse da informação da queda de parte da estrutura, estariam fazendo crítica à uma situação e portanto, com opinião formada, poderiam dar subsídios para que pessoas que não estão no poder, formem grupos que lutarão para influenciar no processo decisório e conseqüentemente histórico, podendo com isso reverter todo um processo político, econômico e social." Deve ter sido esta a interpretação dos vinte débeis mentais da Guarda Imperial que agrediram covardemente "dois elementos altamente perigosos e fortemente armados" de máquinas fotográficas, o fotógrafo Fernando Bizerra do Jornal do Brasil e Sheila Chagas da Editora Abril, que foram detidos antes da chegada do principal convidado, o Imperador Fernandinho II. Espero que a festa de fim de ano do Forte de Copacabana não represente para a democracia o que o baile da Ilha Fiscal representou para D. Pedro II, ou seja, o lugar onde aconteceu o último regabofe dos parasitas do Império.
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