Everaldo d'Alverga |
ABAIXO O PRESIDENTE!
Juro, esse grito me chocou bastante. Eu vinha tranqüilo pelas ruas de S.
Cristóvão, quando em meu ouvido soltaram - Abaixo o presidente! Apavorado, pensei que tivesse estourado uma revolução. Procurando um lugar para me esconder, ao mesmo tempo dominar meus nervos e o coração que quase já saía pela boca, escuto de novo: - Precisamos acabar com o continuísmo. Vamos derrubar esse presidente. Opa, o negócio tá engrossando. Eu preciso de um lugar para me esconder, sabe como é, nessas horas sobra bolacha para tudo que é canto. Eu não estou a fim de entrar de gaiato. Afinal de contas não fui eu quem começou nada. Sou inocente, só estava vendo algumas vitrines, pôxa! Procuro me controlar, preciso me controlar. Olho em volta para sentir a situação, para coordenar um pouco as idéias. Minha mente está confusa. Vejo um guarda de trânsito, ele está sorrindo, minha confusão aumenta. Esse guarda sorrindo me perturba. Qual é a do guarda? Ele não está a favor nem contra, e numa situação dessas ele ainda consegue rir? Quero correr, minhas pernas não deixam; estou tremendo dos pés à cabeça. Quero gritar e não consigo, minha voz não sai, minha garganta está seca. Isso é um pesadelo, só pode ser um pesadelo. - A revolução estourou em S. Cristóvão e eu bem no meio dessa revolução. - Não, não pode. A revolução não pode ter estourado em S. Cristóvão, não pega bem historicamente. Sempre achei que santo não se metia em política, ou será que se mete? - Meu Deus, o que eu faço? Estou completamente perdido. Quero gritar, chorar, não consigo nada, nada. Se eu pelo menos soubesse o que está acontecendo poderia tomar uma decisão. - Aquele guarda rindo... Isso! É isso. Se alguém me perguntar qualquer coisa, eu digo que estou a favor do guarda. Procuro me aproximar do guarda para dar meu total apoio àquele sorriso, para eu poder rir também, mas é tarde. O povo me apanhou, encontro-me no meio da massa, gritos lancinantes penetram meus ouvidos, estou sendo levado no embalo. Esses fascistas são fogo. É o caos. O calor dessa gente é contagiante, mas o medo continua. Preciso falar, gritar, qualquer coisa. Meu silêncio pode ser suspeito.. O que eu mais temia acabou acontecendo. Eu sabia. Iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Perguntaram-me: - O que você acha desse presidente? Situação delicada. Eu não estava preparado para responder a essa pergunta. Dizer que não achava nada eu não podia, tinha que dizer alguma coisa. Mas o quê? Isso não é pergunta que se faça a quem está completamente por fora do movimento. Esse meu neobobismo pode ser fatal. Minha vontade era dizer que era um bom presidente, que estava de muito boa vontade, que era esforçado. Não, não. Não posso falar isso, afinal eles querem derrubar o presidente. Sujeito chato esse, quer me comprometer de qualquer maneira. Dei a resposta que no momento me pareceu sensata. Disse que ainda não havia parado para pensar na atual administração, ainda não havia analisado o trabalho do presidente. O camarada ficou satisfeito com a resposta e foi embora. Pôxa, que alívio! Eu precisava sair dali depressa, a situação estava piorando sensivelmente. No fundo, até que a pergunta daquele sujeito me fez bem, eu já conseguia raciocinar. "Pensei cá com os meus botões", isso deve ser americanos fazendo propaganda a favor do presidente deles... É isso! Esses americanos têm cada idéia. O que vai adiantar essa propaganda aqui? Não vai adiantar nada, né? Eu já ia embora, feliz da vida, quando me perguntaram de novo: - O que você acha do Vasco? Oba! O negócio é em Portugal, não é nos Estados Unidos, e esses patrícios estão querendo eleger o Vasco presidente deles. Senhor de mim, pedi desculpas ao patrício e disse que estava por fora de política internacional. O patrício ficou me olhando embasbacado. Nisso passou um grupo alegre e gritando VASCO! VASCO! VASCO! Foi aí que eu percebi que o presidente que eles queriam derrubar era o do Clube de Regatas Vasco da Gama. Quando dei por mim, estava em casa com o uniforme completo: chuteira, meião, calção, camisa, fita na cabeça, bandeira do Vasco, cantando o hino do time e berrando feito um louco. Minha família me internou neste hospício. Doutor, disseram que no trajeto de casa até aqui eu gritava VASCO, VASCO, VASCO, feito um desesperado. - Sua família internou-o pelo fato do senhor ser um vibrante torcedor? Mas isso não é motivo para internar ninguém. - Acontece doutor, que eu sou FLAMENNNGOOO!!!
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