Everaldo d'Alverga |
CARTA À UM BRASILEIRO RECÉM-NASCIDO Oi, Rafael, tudo bem? Eu queria bater um papo. Pena que tenho que falar sozinho, mas tenho a certeza de que está me entendendo. Você, Rafael, é a coisa
mais bonita que poderia acontecer. Sabe por quê? Você é um símbolo,
representa o que de melhor pode haver entre dois seres humanos. Você é a
caracterização de duas pessoas que se amam. Eu vou contar um segredo:
quando sua mãe estava esperando você, estava muito bonita. Não diz isso
para o seu pai não, ele vai querer me bater. Que negócio é esse de eu
estar achando a mulher dele bonita? Eu só quero que
você me entenda. Quando eu olhava pra ela, eu via, eu imaginava você, eu
via essa essência que estava dentro dela. Entende agora? Eu não estava
preocupado com a forma, não. Eu queria dar um
presente a você Vários fatores me impediram. Primeiro: qual o presente que
vou dar para um recém-nascido? Segundo: não tenho dinheiro. Olha, para o
que eu vou dar não há impedimento. É uma coisa simples. São as
boas-vindas. Nascer é bom,
bonito e gostoso. Quem sou eu pra falar isso? Acho que tenho um pouco de
condição, já nasci várias vezes. A primeira vez que nasci eu era do seu
tamanhozinho, em outras já era um pouco grande, do tamanho do seu pai.
Consegui sobreviver a um Golpe de Estado, diversos planos econômicos e um
acidente de carro. Garoto, venha
com disposição, a barra aqui é muito pesada. Não estou querendo
assustá-lo, é a realidade. Quando olhei você no bercinho, vi que vai
superar tudo. Você mexia os bracinhos e as pernas. Então achei que com os
braços você estava segurando as oportunidades que lhe apareciam, e com as
pernas chutando as adversidades, assim como todo brasileiro. Nós vamos ter
algum tempo para conversar. Não é muito não. A vida é curta e por isso a
gente tem que aproveitar o máximo. Rafael, na minha opinião, a vida é
menor do que a cabeça de um alfinete, mas tem um significado enorme. É de
uma grandeza muito grande, e é bom a gente estar vivo. Vou dar um exemplo:
quando olhei você no berço, não pensei que você fosse provocar esse
sentimento todo dentro de mim. Seus pais talvez
joguem essa carta fora. Estou falando com um recém-nascido, e não sei se
estou falando a língua certa. Vou fazer uma coisa que papai vai até
brincar comigo. É a primeira vez que isso me acontece, e há sempre uma
primeira vez na vida de um homem. Rafael,
quero mandar um beijão pra você. Tá vendo só, quem diria que eu chegaria
a esse ponto: mandar beijo para homem. Eu queria dar esse beijo
pessoalmente, pegar você em minhas mãos, mas você é tão fragilzinho que
tenho medo de quebrar. Rafael, você é novo, e como tudo que é novo, dá medo. A gente não está sabendo qual vai ser a sua. Garoto, qualquer que seja a sua, não faça e procure não deixar um mundo e um país mau, igual a esse que a gente está lhe dando. Você vai desculpar, até agora não deu para fazer coisa melhor. Nós estamos tentando. Não estou querendo lhe ensinar nada, apenas mostrar como não deve ser feito. Garoto, não se assuste não, a gente vai ter tempo para conversar e eu ainda vou poder dizer muita coisa pra você. Seus pais vão lhe ensinar muito. Você vai compreender muita coisa ainda, você vai ter o mundo inteiro lhe ensinando coisas, as quais, sinceramente, para seu entendimento ainda é muito cedo. Garoto, vem com
disposição. Com muita disposição mesmo. Qualquer coisa, a gente está
pronto para ajudá-lo. O que eu queria mesmo era dizer que o país é
maravilhoso, a vida é muito bonita, e que a gente não quer se desfazer
deles de jeito nenhum. Por isso, menino, seja bem-vindo. De todo coração,
seja bem-vindo mesmo.
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