Everaldo d'Alverga |
OS TEMPOS MUDARAM Na fila do ônibus, no final de um dia de trabalho, desses em que se trabalha pelo ano todo, já cansado, começo a pensar, pensar no porque da gente crescer, ter de trabalhar, tem que trabalhar, brigar para poder sobreviver. Meus pensamentos
voltaram para os tempos de criança. Que saudade!
Saudade daqueles tempos sem compromisso, sem trabalho, sem brinquedos,
mas cheios de brincadeiras, sem dinheiro, mas ricos em imaginação.
Dinheiro naquela época, para mim, não fazia falta, não era nada. Hoje é tudo
e faz uma falta que eu vou contar, gente... Quando criança,
lembro-me bem, o sonho de todo pai era que o filho viesse à ser médico,
engenheiro, advogado, enfim, o filho fosse doutor, e a filha, já em plano
secundário, professora. Meus pais, enchendo a
paciência: -
Vai estudar, filho. Esse menino não quer nada... -
Não sei o que vai ser desse menino quando crescer. Queria sim, mas só
jogar bola na rua, ser jogador de futebol, cheguei mesmo a dar uns treininhos em
alguns times. Só que em matéria de futebol, nunca tive muita intimidade com a
“criança”. Minha irmã,
lembro-me como se fosse hoje, querendo estudar uma coisa completamente
diferente, e meus pais perturbando: -
Não, tem que ser professora. Não pega bem ser outra coisa a não ser
professora. Você vai ser professora. Tanto fizeram,
tanto perturbaram... Hoje em dia minha irmã é professora e eu, podem ficar
tranqüilos, não sou doutor, ainda. Os tempos foram
mudando bastante, pois os pais já querem que seus filhos se tornem ricos, não
importando como. A filha terá que
casar com homem rico e o filho ser jogador de futebol. Era um tal de
escolher partido, não era mole não. Toda mãe dizia: -
Minha filha, fulano é um vagabundo, não é partido para você. Só que homem hoje
em dia é uma raridade, rico é a coisa mais difícil de encontrar, e, muito
mais, fazê-lo casar. Nas escolinhas de
futebol nos clubes, o que existe de pai levando seus filhos, vendo em cada um
deles um novo Pelé, ou um Ronaldinho, é
fogo. Jogador de futebol
não deve estar dando muito dinheiro, pois está acabando em televisão fazendo
propaganda. Estava conseguindo
me divertir com os meus pensamentos, quando comecei a prestar atenção na
conversa de um menino com seu pai.
O menino devia ter uns 8 a 10 anos no máximo. Achei o garoto
muito inteligente, muito esperto para a idade dele, respondia ao pai tranqüilamente,
com uma naturalidade de fazer inveja a qualquer um. O pedacinho de
conversa dos dois que me deixou espantado, de queixo quase caído, foi quando o
pai virou-se para o menino procurando fazer gracinha boba que gente grande faz
para criança dessa idade, e perguntou: -
Meu filho diz pro papai o que você vai ser quando crescer? O
garoto mais que depressa, -
Ministro, pai.
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