Everaldo d'Alverga |
Recado do Poder Paralelo Afinal,
o que é que você quer? -
Eu queria fazer um trabalho de fotografia na comunidade e com a
comunidade. -
Que tipo de trabalho é esse? Explica isso aí. -
Eu queria incluir no projeto um curso de fotografia. Pra começar,
seria um curso pra garotada da comunidade que se interessasse em aprender
uma profissão. -
É. Legal! Gostei. Explica melhor isso aí. -
É o seguinte: o curso na realidade seria para quem quisesse aprender
fotografia e não necessariamente só para a garotada. Consiste de poucas
aulas teóricas sobre o princípio da fotografia, coisa básica mesmo, e
muita prática, inclusive de laboratório. O pessoal sairia fotografando
tudo o que acontece na comunidade e depois revelaria o filme e faria a cópia.
Isso em preto e branco. O material nós poderíamos conse... -
TU TÁ MALUCO? PORRA! -
O que? -
QUALÉ,
MERMÃO? PIROU? -
????????????? Não tô entendendo... -
Ô, rapaz... Presta atenção... -
Prestar atenção no quê? -
Porra, mermão, tu não é bôbo. Tu é jornalista. Tá sabendo o que
rola na comunidade. Como é que tu vem com uma conversa fiada de querer dar
curso de fotografia e fotografar tudo o que se passa na área. Qual é? -
Já entendi. Não é nada disso que vocês estão pensando. O
objetivo não é dedurar ninguém nem fazer levantamento da área e muito
menos saber o que rola ou o que não rola na comunidade. Fotografia é uma
atividade que todo mundo gosta. Quem não gosta de fotografar um aniversário,
principalmente de criança? Quem não gosta de fotografar um churrasco entre
amigos? Uma brincadeira? Então? O objetivo do curso é dar qualidade a
essas fotografias e ao mesmo tempo dar uma orientação para quem se
interessar em ter uma profissão. Só isso. -
Já. Olha só. Cê sabe que aqui rola um movimento. Cê sabe que tipo
de movimento é esse. Cê acha que a rapaziada que tá no movimento vai
deixar cê dar um curso desses e sair fotografando a área? Já está difícil
implantar um projeto que tá rolando por aí. -
Quem vai fotografar a área não sou eu e sim as pessoas que fizerem
o curso. Essas pessoas são da comunidade, elas é que vão saber o que
devem, o que pode e onde fotografar. Não sou eu. Eu só vou ensinar
fotografia. O que há de errado nisso? -
Tudo. Uma porção de gente andando no morro, pra lá e pra cá, de máquina
fotográfica pendurada no pescoço, fotografando tudo, você não acha que
vai incomodar o pessoal do movimento? O pessoal não vai deixar, não. -
Pô, gente. É uma questão de conversar. Conversa com a rapaziada lá
e vê o que dá para fazer. Vê o quê eles acham e a gente faz o que der;
se não der a gente não faz. Não custa tentar. -
Sei não... Acho que esse troço não vai dar certo... -
Nós só vamos saber se vai dar certo ou não se tentarmos. -
A idéia parece boa. Vamos ver o que dá pra fazer. Procura a gente daqui a
uma semana que a gente já vai ter uma posição. Falou? Esse
diálogo se deu na sede de uma Associação Comunitária por ocasião da
tentativa de implantar um projeto amplo para populações de baixa renda que
incluía um curso básico de fotografia. O
projeto sugeria que a associação de moradores fosse bem estruturada, com
uma sala de reunião, uma secretaria organizada com móveis bem modestos e
fichário dos associados, refeitório, uma sala para funcionar como
departamento médico e uma outra dependência que seria uma creche. A
associação seria patrocinada por
Organizações Não-Governamentais (ONGs), possuiria convênios com algumas
universidades públicas e particulares que manteriam plantões médicos, de
assistente social, advogado, enfermeiros, psicólogos, professores de educação
física. Esses profissionais por sua vez seriam auxiliados por estagiários,
alunos dessas universidades conveniadas. Esse
pessoal teria trânsito livre na comunidade. Os estagiários executariam o
trabalho de campo, fazendo o levantamento da população, das crianças que
estavam fora da escola, dos desempregados,
encaminhado-os para cursos profissionalizantes,
como mecânica de automóveis, eletricidade, marceneiros,
e recolocando-os na medida do possível no mercado; das mulheres que
engravidavam, orientado-as para o
departamento médico para fazerem os exames de pré-natal; daria assistência
jurídica para a família que tivesse alguém encarcerado, orientação
psicológica. Enfim, todos conviveriam harmoniosamente. Até já se cogitava
em organizar um jornal comunitário com o nome “Folha Comunitária”.
Nesse clima, não haveria dificuldade em montar um curso de fotografia. Como
não houve. Uma
semana depois. -
Olha aí. Nós falamos com os “meninos” e eles não têm nada contra, desde que isso não atrapalhe o movimento deles.
Desde que isso não atraia polícia pra comunidade. Vejam lá o que vocês vão
fazer. -
Eu não vou fazer nada de diferente do que há por aqui. Além do
mais, já existe um posto policial na comunidade. Já existe um trabalho
comunitário que envolve bastante gente e todos convivem sem atrito. -
Pois é. Mas é o seguinte: todos fingem que não existe esse outro
lado e esse outro lado tem em tudo que é lugar. Enquanto não há atrito,
todo mundo vai levando e empurrando com a barriga. -
Vai dar certo, vocês vão ver só. Dez
dias depois, no dia dois de junho de 2002, domingo, um jornalista da TV
Globo é cruelmente assassinado em um morro da Cidade Maravilhosa. Na terça-feira,
dia quatro, no prédio onde seria instalada provisoriamente a associação
dos moradores, um mensageiro dos chefes do tráfico manda todo mundo sair do
morro e nunca mais aparecer por ali, porque quem teimasse corria o risco de
ter o mesmo fim do repórter Tim Lopes. Avisou também que o presidente da
associação e a família já tinham sido expulsos do morro na base da
porrada. Inocentemente, perguntaram como ficaria o projeto e sua resposta
imediata não poderia ter sido mais esclarecedora: -
Fudeu.
|