Everaldo d'Alverga |
Vingança Sindical Se você deseja se vingar de algum colega de trabalho,
lute para que ele se torne diretor sindical. Convença-o. Demonstre que só
ele pode salvar a categoria e com ele o “nirvana trabalhista” será
alcançado. Veja como começa. Ele passa a reclamar do serviço que executa, do salário,
diz que o sindicato está uma porcaria. Reúne alguns colegas do setor de
trabalho e alguns companheiros do sindicato, passa a freqüentar as assembléias,
discute, xinga, bate boca e tudo o mais que uma pessoa indignada faz. Chega a época das eleições e ele quer concorrer com uma
chapa de oposição, achando que vai mudar a situação por completo.
Convoca os companheiros. Realiza
reuniões normalmente na casa de algum futuro diretor ou na sua própria
casa. Para reunir o número de pessoas suficiente é uma dificuldade, mas
ele consegue. Durante a campanha, alguns acreditam outros não, uns
nem ligam, outros xingam, mas ele consegue ganhar a eleição. Durante o
mandato chega cedo à sede do sindicato, trabalha até tarde da noite, até
a madrugada. Ele nunca trabalhou tanto na vida como trabalha então como
diretor sindical. Participa de
congressos, de reuniões com diretores da empresa, assina acordos coletivos
que não são os que ele gostaria de assinar, mas foi o que deu para
conseguir. Reunir a diretoria é um problema sério. Preside assembléias
com discussões acaloradas que não decidem praticamente nada e algumas
vezes essas assembléias são realizadas com um número de participantes da
diretoria maior do que o da categoria. Viaja para Brasília. Procura parlamentares para expor os
projetos de lei, propostos pela categoria, que trarão progressos
significativos. Não consegue muita coisa. Ninguém liga pra ele. Chega o final do mandato. Ele perdeu os poucos amigos e
conseguiu muitos inimigos, separou da mulher, que reclamava da sua ausência
no lar. Os filhos cresceram e ele não percebeu. Alguns diretores da empresa
onde trabalha ou trabalhou olham para ele com desconfiança, os colegas que
antes incentivavam sua candidatura, achando realmente que ele poderia mudar
alguma coisa, evitam sua companhia. Ele tem certeza que, das propostas de
campanha, nem dez por cento conseguiu efetivar. Enfim, ele consegue se livrar da direção sindical. Vê
que foi traído por alguns diretores. que estavam supostamente ao seu lado.
Uns se locupletaram, outros foram promovidos e ele continua no mesmo cargo
com o mesmo salário. Volta para o setor de trabalho e percebe que está
sozinho e que os antigos colegas e companheiros, pelas costas, ainda o
chamam de veado, corno e ladrão... E outras coisas mais... Não
necessariamente nesta ordem.
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