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Everaldo d'Alverga


 

Uma Valsa de Strauss 

   

Coisas acontecem a nossa volta e não nos damos conta. Não percebemos sua importância. Tornamo-nos insensíveis a essa agitação de nossos dias.

Consegui ver a alegria estampada em um rosto, apesar de ver também a fome e a miséria. Ouvi uma valsa vienense que vinha de uma loja onde se vendia CDs, e vi um mendigo dançando. Dançava alegremente com duas companheiras: a do sonho, que me era impossível imaginar, e a real, que todos podiam ver - uma garrafa de cachaça.

Dançava... dançava...  Suas companheiras fizeram ver a todos que eram excelentes dançarinas. No início, lentamente, o ritmo valsa de Strauss ia aumentando gradativamente, até chegar aos rodopios alucinantes sem nenhum tropeço.

 A multidão que se formava, entusiasmada, aplaudia e o mendigo dançava, Para mal-estar do dono da loja, que, desesperado, cortou a valsa ao meio. Nessa parada repentina, nosso bailarino não se deu por vencido: agradeceu ao “venerável público”, ajeitou a garrafa em baixo de um braço, deu o outro a sua companheira onírica e foi embora cambaleante.

Dava a impressão de que recomeçaria a valsar a qualquer momento.

 


  • Everaldo d'Alverga é Jornalista, Fotógrafo e Coordenador de cursos regulares de Fotografia.

 

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