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Everaldo d'Alverga


TESTICOCÉFALO


Muita gente não sabe, mas esta palavra surgiu durante o período da ditadura. Originária de cursinhos pré-vestibulares, induzia o aluno a raciocinar com os testículos, dando origem no Brasil a um novo espécime, o homo testículus. Fique uma coisa bem clara: as mulheres, por motivos óbvios, eu acho, não raciocinam.

Muitos estudantes de ontem infelizmente são homens públicos hoje. Essa nova metodologia educacional forjou políticos e modificou a cabeça de vários intelectuais que se esforçaram para esquecer o que pregavam.

Todo mundo sabe que o dia primeiro de abril é um dia de brincadeira, quando costumamos pregar peças nos outros. Muita gente não sabe, e muitos procuram esquecer, que nesse dia, no ano de 1964, vários militares fizeram uma brincadeirinha com o povo brasileiro. Como o negócio ficou sério e virou uma ditadura (êpa), resolveram mudar a data para o dia anterior. Afinal, 31 de março ficou melhor para comemorar uma revolução. Revolução?

Não vamos entrar no mérito da questão se foi ou não revolução,  quartelada,  conspiração ou  revolta de conseqüências funestas. Sobre conseqüências funestas não há dúvidas, há famílias que até hoje estão procurando seus mortos. Quanto ao resto, é uma questão de nomenclatura.

Outra conseqüência que podemos observar está no campo das idéias, quando assistimos pela televisão à notícia de cinco jovens da classe média alta de Brasília, sempre Brasília, que resolveram incendiar um índio pataxó (já esqueceram?), pensando que era um mendigo. Sem comentários.

O comportamento também preocupa. Hoje temos a grande discussão sobre descriminalizar-se a maconha ou não. Isso quer dizer: fumar ou não fumar um baseadinho. O salário mínimo, que, segundo reza a lenda, diz a Constituição “é o mínimo capaz de atender às necessidades básicas do trabalhador e de sua família com moradia, alimentação, vestuário, saúde, educação, transporte, higiene, lazer e previdência”, não é só frango, não é só cesta básica, não.
CÊS TÃO É DE SACANAGEM.... Em 1979, o então militar de plantão, o Presidente Figueiredo, ao ouvir a pergunta ”o que faria  com um salário mínimo”, respondeu que daria um tiro no coco... Lembram? Ah! Meu Deus! No Brasil atual, o nhénhénhén ainda continua...
E a Câmara dos Deputados? O Severino? A declaração do Roberto Jefferson para o José Dirceu: “ V.Exª desperta em mim os instintos mais primitivos”?  E o deputado que resolveu contar em plenário, em um discurso, seu defloramento pelo dedo de um proctologista?...
O que a população não entendeu é se essas declarações foram motivadas por uma paixão repentina, protesto, saudade ou mesmo arroubos de amor. Quem sabe? Esse comportamento no Congresso... comprometem... não comprometem? O importante nessas declarações é que o povo, na realidade, tem a certeza que no fundo, no fundo, bem lá no fundo mesmo... parece que rolou um clima...

Juro estar bastante desanimado, até comigo mesmo. Para mim, basta! Cheguei à conclusão de que não adianta mais. Disseram-me os amigos para mudar a maneira de pensar, pois isso era o que o sistema queria. Outros conselhos, como passear, andar, cantar, era o que precisava. Conselhos, os quais, incríveis como pareçam por serem conselhos, eram bons.

Numa crise mais aguda dessa fase depressiva em que me debato, nessa minha tosca maneira de pensar, resolvi seguir um desses conselhos e fui passear. Comecei andando a pé pelas ruas do bairro onde moro, parei em várias esquinas, conversei com as pessoas para saber das diferentes opiniões sobre a situação que atravessamos, tentei ouvir “a voz rouca das ruas”...

Andei de ônibus, trem e metrô, observei as pessoas e notei um ar de rara felicidade. Parecem esquecidas dos anos de sofrimento, de angústias, de desemprego, de lamentações, das privatizações, dos precatórios, da dívida externa, do Collor, do PC Farias... Todo mundo sorrindo com uma dentadura nova, discutindo que o cantor X assumiu, o ator daquela rede de TV assumiu e até o Lula assumiu(?), quem diria... a Presidência da República, que fique bem claro!

Êta país este em que vivemos! Por sermos o país do carnaval e estarmos habituados ao barulho e até gostarmos disso tudo, não percebemos o Homo testículus ocupando um posicionamento bem marcante em nossa sociedade revogando o irrevogável, mostrando cartão vermelho para os outros, declarando que “nunca fomos santas”, defendendo o bigodudo com os olhos esbugalhados e o comportamento de uma pessoa alucinada, demente... Enfim... Espero que não resolvam colocar as mãos no local que utilizam para raciocinar e sacudam com veemência para a população brasileira gritando “Aqui pra vocês”!

Querem saber de uma coisa? Vamos deixar essa conversa de política de lado, esse negócio de assumir de lado. Para mim, basta! Desisto de tudo.

Ah!, eu tô maluco!!! Ah!, eu tô maluco!!! Ah!, eu tô maluco!!! Ah!, eu tô maluco!!! Ah!!!

 


  • Everaldo d'Alverga é Jornalista, Fotógrafo e Coordenador de cursos regulares de Fotografia.

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