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Jorge Gomes da Silva

Texto de Origem Portuguesa

O Espírito das Cruzadas

 

  Decidimos, no regresso de uma viagem ao litoral alentejano, entrar em Lisboa pela nova ponte que une as duas margens do Tejo, a Vasco da Gama. Fim de tarde de um domingo soalheiro, o primeiro depois da chacina nas torres gêmeas.

Do outro lado do rio, a zona oriental da cidade, próxima do aeroporto, revelava-se cinzenta e coberta por espessa camada de fumo. Instalou-se no carro um silêncio pesado e logo alguém sugeriu que se buscasse no auto-rádio uma explicação para o fenômeno. Ao longe, um avião comercial preparava-se para aterrar...

 Era falso alarme, afinal. Tratava-se de um incêndio de consideráveis proporções que afectava o arvoredo num concelho vizinho. Um alívio para todos, como se a destruição do pouco verde que resta em volta da capital ganhasse foros de boa notícia.

E foi, considerando as alternativas que a tragédia americana nos invoca.

O atentado mais mediático da história da humanidade não ceifou apenas as vidas dos que desditosamente com ele cruzaram seus caminhos. Os destroços espalhados pelas ruas nova-iorquinas são a semente do medo,  cujas repercussões ninguém conseguiu de forma lúcida quantificar. A colheita que nos espera, qualquer que seja o local e a dimensão pirotécnica da vingança anunciada, é feita de amargura e aflição.

Um português anônimo referiu algures a solução cristã para o problema. Em vez de esbanjarem milhares de milhões em bombardeamentos de eficácia duvidosa, os governantes americanos deveriam aplicar metade do valor estimado para a operação militar na construção de escolas, hospitais e  outras infraestruturas nos países potencialmente alvos da retaliação. A outra metade serviria para minorar as consequências do evento, reconstruindo os edifícios arrasados e diminuindo da melhor forma possível o impacto da perda para as famílias das vítimas.

Ainda sobraria, garantia o nosso patrício, o suficiente para custear os meios adicionais envolvidos na caça ao principal suspeito dessa acção vergonhosa, sem dúvida merecedor de punição severa. E os terroristas ficariam isolados, malévolos aos olhos do seu próprio povo.

É no castigo preferido pela opinião pública ocidental que reside a maior afronta à inspiração cristã da solução acima aventada. Um católico, sobretudo, não pode passar uma esponja no conceito imanente ao “dar a outra face” que todos temos obrigação de conhecer, não pode entregar o seu entusiasmo a este “espírito das Cruzadas”, que o ódio e a revolta parecem alimentar. A receita de ouro para uma escalada da violência, na América e em todo o mundo.

As leis que regem a justiça ocidental bebem muito dos princípios que norteiam nossa cultura, a tal sociedade civilizada e democrática que terá sido atingida como um todo naquele aziago dia de setembro. Mas a aplicação da justiça desse lado do Atlântico exclui de forma determinante o recurso à pena de morte, Portugal como pioneiro dessa exclusão. E aqui existe uma diferença substancial entre as duas margens do Atlântico.

No Velho Continente, o valor de uma vida parece ser maior do que o atribuído pelos fanáticos odiosos que massacram inocentes ou daqueles que, cegos pelo desejo de vingança, camuflam o provável massacre de outros inocentes no contexto comezinho e militarista dos “danos colaterais”. Estamos a falar também de mulheres e de crianças,  nesse banalizar das eventuais perdas que a fúria revanchista certamente provocará.

Que ensinamento extrairão os milhões de muçulmanos que, ao estigma que sobre eles já impende “por tabela”, verão associadas as imagens de destruição em países miseráveis e indefesos perante o poderio dos tem plários modernos?

E as nossas crianças? que conclusões tirarão de mais uma sequência de imagens violentas de dor e  destruição?

Na prática, nenhum resultado positivo advirá de uma demonstração de  força que todos reconhecem existir nos países mais visados por esse tipo de acções. De resto, o precedente em vias de ser aberto deveria conduzir, inevitavelmente, ao bombardeio sistemático de outros territórios que se diz albergarem o terrorismo, como o País Basco, Belfast ou as Filipinas. Ou então as políticas mudam ao sabor do local, da raça e da nacionalidade ou do número de vítimas provocado pela ignomínia cobarde de quem se julga desprovido de outros meios para atingir determinados fins. E neste caso, temos explicado o temor de uma “guerra santa” global que tamanha e tão óbvia desigualdade de critérios necessariamente fomentará.

Na questão anterior, residem os fundamentos lógicos para uma radicalização do conflito entre dois mundos desiguais. E será tão prejudicial a germinação dessa corrente de solidariedade no seio da comunidade islâmica (repara-se no exemplo paquistanês e na crescente agitação indonésia) que há de transformar os cidadãos ocidentais em representantes do Mal, em alvos a abater, como a associação apressada de quem não terá tanto assim a ver com os acontecimentos quanto a legitimação(!) de um ataque maciço, de uma represália feroz, exigiu.

De resto, a atabalhoada tentativa norte-americana de suscitar o renascimento dos “aliados” de outros dias, corporizada na pressão sobre a fragilizada estrutura de uma NATO (OTAN) criada para enfrentar nações em estado de guerra e nunca grupelhos anônimos e desesperados de facínoras, essa desastrada invocação do célebre artigo Quinto em circunstâncias que não o justificavam, fará ruir em definitivo o “bloco ocidental”, que o fim da Guerra Fria esvaziara.

Apenas os Estados Unidos e a inseparável Grã-Bretanha farão parte da expedição punitiva que aguardamos sem grande entusiasmo. As nações europeias mais moderadas já cuidaram de se desmarcarem (ou de serem desmarcadas) da solução belicista, criando um fosso incómodo entre o que se esboça claramente como uma divisão entre supostos iguais. Mas todo o hemisfério norte ficará na mira do ódio de um grupo crescente de seres humanos, quiçá mais saturados da miséria que os aflige do que fanatizados pelo apelo religioso com que (não) se legitima um ataque vil.   

Quando troarem os canhões e os novos cavaleiros do apocalipse desencadearem o flagelo, tudo poderá acontecer. Excepto a erradicação do terrorismo, o alegado cerne da questão, cada vez mais arrojado, devastador e chocante à luz da perspectiva confortável dos que assistem a tudo pela televisão e se acham diferentes dessas criaturas que se imolam e arrastam consigo inocentes por uma causa, cujas reais motivações ninguém se esforça por entender.

A hipotética devastação de um ou mais Estados islâmicos hostis terá por base o direito à legítima defesa de uma potência que se sentiria insultada por quaisquer comparações com o móbil dos seus agressores. Mas as diferenças, para existirem de facto, vislumbram-se nos actos e não nas respectivas justificações.

                       


Nota da Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa portuguesa.

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