Texto de Origem Portuguesa
O Espírito das Cruzadas
Decidimos,
no regresso de uma viagem ao litoral alentejano, entrar em Lisboa pela
nova ponte que une as duas margens do Tejo, a Vasco da Gama. Fim de tarde
de um domingo soalheiro, o primeiro depois da chacina nas torres gêmeas.
Do outro
lado do rio, a zona oriental da cidade, próxima do aeroporto, revelava-se
cinzenta e coberta por espessa camada de fumo. Instalou-se no carro um silêncio
pesado e logo alguém sugeriu que se buscasse no auto-rádio uma explicação
para o fenômeno. Ao longe, um avião comercial preparava-se para
aterrar...
Era
falso alarme, afinal. Tratava-se de um incêndio de consideráveis proporções
que afectava o arvoredo num concelho vizinho. Um alívio para todos, como
se a destruição do pouco verde que resta em volta da capital ganhasse
foros de boa notícia.
E foi,
considerando as alternativas que a tragédia americana nos invoca.
O
atentado mais mediático da história da humanidade não ceifou apenas as
vidas dos que desditosamente com ele cruzaram seus caminhos. Os destroços
espalhados pelas ruas nova-iorquinas são a semente do medo,
cujas repercussões ninguém conseguiu de forma lúcida
quantificar. A colheita que nos espera, qualquer que seja o local e a
dimensão pirotécnica da vingança anunciada, é feita de amargura e aflição.
Um
português anônimo referiu algures a solução cristã para o problema.
Em vez de esbanjarem milhares de milhões em bombardeamentos de eficácia
duvidosa, os governantes americanos deveriam aplicar metade do valor
estimado para a operação militar na construção de escolas, hospitais e
outras infraestruturas nos países potencialmente alvos da retaliação.
A outra metade serviria para minorar as consequências do evento,
reconstruindo os edifícios arrasados e diminuindo da melhor forma possível
o impacto da perda para as famílias das vítimas.
Ainda
sobraria, garantia o nosso patrício, o suficiente para custear os meios
adicionais envolvidos na caça ao principal suspeito dessa acção
vergonhosa, sem dúvida merecedor de punição severa. E os terroristas
ficariam isolados, malévolos aos olhos do seu próprio povo.
É no
castigo preferido pela opinião pública ocidental que reside a maior
afronta à inspiração cristã da solução acima aventada. Um católico,
sobretudo, não pode passar uma esponja no conceito imanente ao “dar a
outra face” que todos temos obrigação de conhecer, não pode entregar
o seu entusiasmo a este “espírito das Cruzadas”, que o ódio e a
revolta parecem alimentar. A receita de ouro para uma escalada da violência,
na América e em todo o mundo.
As leis
que regem a justiça ocidental bebem muito dos princípios que norteiam
nossa cultura, a tal sociedade civilizada e democrática que terá sido
atingida como um todo naquele aziago dia de setembro. Mas a aplicação da
justiça desse lado do Atlântico exclui de forma determinante o recurso
à pena de morte, Portugal como pioneiro dessa exclusão. E aqui existe
uma diferença substancial entre as duas margens do Atlântico.
No Velho
Continente, o valor de uma vida parece ser maior do que o atribuído pelos
fanáticos odiosos que massacram inocentes ou daqueles que, cegos pelo
desejo de vingança, camuflam o provável massacre de outros inocentes no
contexto comezinho e militarista dos “danos colaterais”. Estamos a
falar também de mulheres e de crianças,
nesse banalizar das eventuais perdas que a fúria revanchista
certamente provocará.
Que
ensinamento extrairão os milhões de muçulmanos que, ao estigma que
sobre eles já impende “por tabela”, verão associadas as imagens de
destruição em países miseráveis e indefesos perante o poderio dos tem
plários modernos?
E as
nossas crianças? que conclusões tirarão de mais uma sequência de
imagens violentas de dor e destruição?
Na prática,
nenhum resultado positivo advirá de uma demonstração de força que todos reconhecem existir nos países mais visados
por esse tipo de acções. De resto, o precedente em vias de ser aberto
deveria conduzir, inevitavelmente, ao bombardeio sistemático de outros
territórios que se diz albergarem o terrorismo, como o País Basco,
Belfast ou as Filipinas. Ou então as políticas mudam ao sabor do local,
da raça e da nacionalidade ou do número de vítimas provocado pela ignomínia
cobarde de quem se julga desprovido de outros meios para atingir
determinados fins. E neste caso, temos explicado o temor de uma “guerra
santa” global que tamanha e tão óbvia desigualdade de critérios
necessariamente fomentará.
Na questão
anterior, residem os fundamentos lógicos para uma radicalização do
conflito entre dois mundos desiguais. E será tão prejudicial a germinação
dessa corrente de solidariedade no seio da comunidade islâmica (repara-se
no exemplo paquistanês e na crescente agitação indonésia) que há de
transformar os cidadãos ocidentais em representantes do Mal, em alvos a
abater, como a associação apressada de quem não terá tanto assim a ver
com os acontecimentos quanto a legitimação(!) de um ataque maciço, de
uma represália feroz, exigiu.
De resto,
a atabalhoada tentativa norte-americana de suscitar o renascimento dos
“aliados” de outros dias, corporizada na pressão sobre a fragilizada
estrutura de uma NATO (OTAN) criada para enfrentar nações em estado de
guerra e nunca grupelhos anônimos e desesperados de facínoras, essa
desastrada invocação do célebre artigo Quinto em circunstâncias que não
o justificavam, fará ruir em definitivo o “bloco ocidental”, que o
fim da Guerra Fria esvaziara.
Apenas os
Estados Unidos e a inseparável Grã-Bretanha farão parte da expedição
punitiva que aguardamos sem grande entusiasmo. As nações europeias mais
moderadas já cuidaram de se desmarcarem (ou de serem desmarcadas) da solução
belicista, criando um fosso incómodo entre o que se esboça claramente
como uma divisão entre supostos iguais. Mas todo o hemisfério norte
ficará na mira do ódio de um grupo crescente de seres humanos, quiçá
mais saturados da miséria que os aflige do que fanatizados pelo apelo
religioso com que (não) se legitima um ataque vil.
Quando
troarem os canhões e os novos cavaleiros do apocalipse desencadearem o
flagelo, tudo poderá acontecer. Excepto a erradicação do terrorismo, o
alegado cerne da questão, cada vez mais arrojado, devastador e chocante
à luz da perspectiva confortável dos que assistem a tudo pela televisão
e se acham diferentes dessas criaturas que se imolam e arrastam consigo
inocentes por uma causa, cujas reais motivações ninguém se esforça por
entender.
A hipotética
devastação de um ou mais Estados islâmicos hostis terá por base o
direito à legítima defesa de uma potência que se sentiria insultada por
quaisquer comparações com o móbil dos seus agressores. Mas as diferenças,
para existirem de facto, vislumbram-se nos actos e não nas respectivas
justificações.
Nota da
Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa
portuguesa.
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