Texto de Origem Portuguesa
Sociedade Madrasta
Na
Suíça, no início do século XXI, uma criança morreu de fome e de sede,
abandonada pelo mundo inteiro num apartamento ao longo de quase meio mês.
Demorou muitos dias para
morrer, prolongando a agonia até onde a vontade de viver foi traída pelo
colapso do seu corpo mal nutrido.
Já
se decompunha, a desditosa menina, filha de uma imigrante portuguesa,
quando alguém dela se lembrou e a encontraram tombada, morta no chão.
Sozinha, como durante as horas infindáveis que agüentou a batida
acelerada do pequeno coração, sempre que acreditou serem da mãe os
passos que ouvia ao longe, na escada do prédio. Sozinha, como durante os
minutos que demoravam a secar as lágrimas que verteu ao longo da espera
por nada. Ninguém lhe valeu.
A
mulher que a pariu (“mãe é coisa muito diferente”) foi detida pela
polícia e mentiu. A polícia sabia da existência de uma criança,
omitiu. A avó e a tia, a vizinha e o amigo, o credor e a prima nem deram
pela falta, tão ocupados andavam a usufruírem de um direito que lhe
negaram. E ela, bebê, definhou pelos cantos da casa a sós. Em profundo
horror, como qualquer criança com medo, com sede e com fome. Como cada um
de nós, se largado num lar feito cárcere para morrer isolado de um mundo
incapaz de nos valer-nos em tamanha aflição. Um mundo que fazemos todos
nós que o vivemos, não os “outros” que acusamos, no qual somos cúmplices
surdos e mudos, que permitimos uma tragédia de tão ignóbeis contornos.
E outras a acontecerem no futuro, que esse exemplo certamente não bastou.
A
culpa que nos assiste é a mesma que recai sobre todos quantos ignoraram
um ser humano tão pequeno ao ponto de o deixarem morrer assim. A
passividade que nos atrofia, o isolamento a que nos votamos, a cobardia ou
a indiferença com que nos alheamos dos dramas que acontecem para lá da
porta de entrada do casulo. Esses são os ingredientes comuns na origem de
um desmazelo como o que a matou, aquela menina a quem deixaram gritar de
aflição, dias a fio, sem rebentarem a porta que a salvaria. Ou, no mínimo,
sem forçarem uma atitude da parte de pessoas ou instituições com
poderes legais para tomarem-na.
Alguns
daqueles vizinhos, cuja pele qualquer um de nós poderá vestir um dia,
teriam agido com certeza se tivessem percebido o que se passava. Outros,
talvez não. Basta atentar no exemplo da família da criança, que nem deu
pela falta, sejamos diretos. Isto, meus queridos semelhantes, arrepia
qualquer um. Ou devia arrepiar.
Amanhã
é outro dia e lá estaremos para o vive-lo, se tudo correr pelo melhor.
Mas teremos que o viver sob uma de duas condições, conhecendo a existência
de situações como esta. Ou seguimos em frente e (des)carregamos o peso
na consciência, mesmo sabendo que damos todos os dias o nosso contributo
omisso para um mundo cada vez mais cruel e indiferente, ou dispomo-nos a
contrariar essa tendência maldita que nos afugenta dos outros e
arriscamos a coragem de intervir, por eles e por nós. Não restam
terceiras vias.
Há,
de fato, algo de muito podre neste reino de indiferença. Mas ninguém
parece dar pelo cheiro...
Nota da
Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa
portuguesa.
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