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Jorge Gomes da Silva

Texto de Origem Portuguesa

Sociedade Madrasta

   

Na Suíça, no início do século XXI, uma criança morreu de fome e de sede, abandonada pelo mundo inteiro num apartamento ao longo de quase meio mês. Demorou muitos dias para morrer, prolongando a agonia até onde a vontade de viver foi traída pelo colapso do seu corpo mal nutrido.

Já se decompunha, a desditosa menina, filha de uma imigrante portuguesa, quando alguém dela se lembrou e a encontraram tombada, morta no chão. Sozinha, como durante as horas infindáveis que agüentou a batida acelerada do pequeno coração, sempre que acreditou serem da mãe os passos que ouvia ao longe, na escada do prédio. Sozinha, como durante os minutos que demoravam a secar as lágrimas que verteu ao longo da espera por nada. Ninguém lhe valeu.

A mulher que a pariu (“mãe é coisa muito diferente”) foi detida pela polícia e mentiu. A polícia sabia da existência de uma criança, omitiu. A avó e a tia, a vizinha e o amigo, o credor e a prima nem deram pela falta, tão ocupados andavam a usufruírem de um direito que lhe negaram. E ela, bebê, definhou pelos cantos da casa a sós. Em profundo horror, como qualquer criança com medo, com sede e com fome. Como cada um de nós, se largado num lar feito cárcere para morrer isolado de um mundo incapaz de nos valer-nos em tamanha aflição. Um mundo que fazemos todos nós que o vivemos, não os “outros” que acusamos, no qual somos cúmplices surdos e mudos, que permitimos uma tragédia de tão ignóbeis contornos. E outras a acontecerem no futuro, que esse exemplo certamente não bastou.

A culpa que nos assiste é a mesma que recai sobre todos quantos ignoraram um ser humano tão pequeno ao ponto de o deixarem morrer assim. A passividade que nos atrofia, o isolamento a que nos votamos, a cobardia ou a indiferença com que nos alheamos dos dramas que acontecem para lá da porta de entrada do casulo. Esses são os ingredientes comuns na origem de um desmazelo como o que a matou, aquela menina a quem deixaram gritar de aflição, dias a fio, sem rebentarem a porta que a salvaria. Ou, no mínimo, sem forçarem uma atitude da parte de pessoas ou instituições com poderes legais para tomarem-na.

Alguns daqueles vizinhos, cuja pele qualquer um de nós poderá vestir um dia, teriam agido com certeza se tivessem percebido o que se passava. Outros, talvez não. Basta atentar no exemplo da família da criança, que nem deu pela falta, sejamos diretos. Isto, meus queridos semelhantes, arrepia qualquer um. Ou devia arrepiar.

Amanhã é outro dia e lá estaremos para o vive-lo, se tudo correr pelo melhor. Mas teremos que o viver sob uma de duas condições, conhecendo a existência de situações como esta. Ou seguimos em frente e (des)carregamos o peso na consciência, mesmo sabendo que damos todos os dias o nosso contributo omisso para um mundo cada vez mais cruel e indiferente, ou dispomo-nos a contrariar essa tendência maldita que nos afugenta dos outros e arriscamos a coragem de intervir, por eles e por nós. Não restam terceiras vias. 

Há, de fato, algo de muito podre neste reino de indiferença. Mas ninguém parece dar pelo cheiro...  


Nota da Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa portuguesa.

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