Texto de Origem Portuguesa
Assalto
Al Castillo
O
primeiro gesto de rebeldia do Condado Portucalense deu origem a séculos
de conflito entre as duas nações encurraladas pela geografia numa península
que chamaram Ibérica.
Em
causa, para os castelhanos, estava a certeza de que o território
pertencia a sua coroa. Essa não
era a perspectiva dos portugueses, liderados pelo primeiro dos Afonsos a
renegá-la, até a independência total com a qual ainda hoje sonhamos
manter.
À
certeza de um direito, batalhado por gerações lusitanas de amantes da
soberania, opõem-se nos nossos dias as fantasias nacionalistas de quem se
recusa a entender que um Portugal governado por mercadores pouco tem que
ver com a Pátria que os guerreiros e os políticos de outrora defenderam
com o sangue e a força das suas convicções.
A
xenofobia manifesta-se das mais sub-reptícias maneiras. Pode, por
exemplo, insinuar-se num trecho de prosa como o parágrafo acima. Como
pode camuflar-se em legislações comunitárias que vedam aos imigrantes
esfomeados um acesso digno a uma vida melhor, empurrando-os descaradamente
para as mãos de crápulas que enriquecem nos meandros da clandestinidade
assim imposta.
O
imperialismo, pelo contrário, exibe ostensivamente as suas marcas. Não
tem vergonha da sua condição.
Desde
a época das Descobertas, quando as duas nações vizinhas acotovelavam-se
nos oceanos em busca de novas conquistas para sua sede de expansão, a
acumulação de riqueza associou-se sem problema às nobres motivações
patrióticas e de propagação da fé cristã. A bordo das caravelas que
zarpavam para o desconhecido, os navegadores transportavam, sem o saberem,
a semente de imensa destruição e a maior ameaça de sempre para a mais débil
das duas potências colonizadoras de então.
Ainda
os castelhanos usufruíam das preciosidades arrancadas à bruta da América
do Sul, já o poderio lusitano esmagava-se contra as adagas em Alcácer-Quibir.
E a independência soçobraria pouco tempo depois, à mercê do vizinho
glutão e oportunista que não rejeitou o ensejo e invadiu o espaço que
considerava seu. Foi apenas o pré-aviso do que se verificaria uns séculos
depois, primeiro em Olivença e depois em Portugal inteiro.
E
de onde deriva um discurso tão radical, quando até estamos integrados na
mesma União e só falta uniformizarmos a língua?
Vamos
recuar à questão imperialista, enfatizando a boleia Quinhentista à ambição
desmedida que produziu, a par com algumas realizações importantes, tão
sinistros desfechos. Tinha então início uma estranha conjugação de
interesses políticos e religiosos com a novidade mercantilista que, de
alguma forma, cegou os intervenientes no processo de formação da nossa
história. Um dos rostos mais visíveis dessa influência perniciosa foi o
desenvolvimento global do pesadelo da escravatura, derivado dessa
componente malévola de cada expedição. A história passaria a ser
desenhada de acordo com os ditames do verdadeiro poder, o do dinheiro, e
os mercadores ditariam as regras que hoje ainda prevalecem e estão na
origem do título deste trabalho e do nacionalismo que parece ter
inspirado estas linhas.
A
televisão portuguesa, com todos os canais em sintonia, sufoca os mais
pequenos com um chorrilho infindável de publicidade a brinquedos de
marca, antecipando em mais de um mês aquilo que interpretam como o espírito
do Natal.
A
maioria desses anúncios tentadores e infantis provém do mesmo local, a
Espanha, e concretizam um domínio absoluto da economia portuguesa pelos
poderosos do lado de lá da fronteira fictícia. Essa nova e bem melhor
sucedida invasão já se fazia sentir em sectores tão determinantes como
a banca, os seguros e, com índole mais territorial, no mercado imobiliário,
com as empresas espanholas mais endinheiradas a comprarem um país aos
bocadinhos. Tudo isso perante a passividade burguesa de quem não
questiona repercussões, apenas as contabiliza.
Essa
atitude despreocupada, semelhante à da maioria da população abrangida
pela União Européia, conduz a desmazelos, a faltas de atenção. E só
isso justifica que nuestros hermanos de Castela e seus cúmplices por
omissão nem cuidem de traduzir os seus apelos consumistas para a língua
do país a que os dirigem.
E
assim descobri, com uma filha a meu lado, que o “Assalto ao Castillo”,
anunciado a propósito de um simples boneco qualquer, era a ponta do aríete
com que os soldados da fortuna derrubam as muralhas da
diferença, ocupam as ameias do controle e subordinam-nos a uma linguagem
européia comum.
Agora,
nesta Europa unida pela economia, falamos todos cifrão.
Nota da
Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa
portuguesa.
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