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Jorge Gomes da Silva

Texto de Origem Portuguesa

 Assalto Al Castillo 

 O primeiro gesto de rebeldia do Condado Portucalense deu origem a séculos de conflito entre as duas nações encurraladas pela geografia numa península que chamaram Ibérica.

Em causa, para os castelhanos, estava a certeza de que o território pertencia a  sua coroa. Essa não era a perspectiva dos portugueses, liderados pelo primeiro dos Afonsos a renegá-la, até a independência total com a qual ainda hoje sonhamos manter.

À certeza de um direito, batalhado por gerações lusitanas de amantes da soberania, opõem-se nos nossos dias as fantasias nacionalistas de quem se recusa a entender que um Portugal governado por mercadores pouco tem que ver com a Pátria que os guerreiros e os políticos de outrora defenderam com o sangue e a força das suas convicções.

 A xenofobia manifesta-se das mais sub-reptícias maneiras. Pode, por exemplo, insinuar-se num trecho de prosa como o parágrafo acima. Como pode camuflar-se em legislações comunitárias que vedam aos imigrantes esfomeados um acesso digno a uma vida melhor, empurrando-os descaradamente para as mãos de crápulas que enriquecem nos meandros da clandestinidade assim imposta.

O imperialismo, pelo contrário, exibe ostensivamente as suas marcas. Não tem vergonha da sua condição.

Desde a época das Descobertas, quando as duas nações vizinhas acotovelavam-se nos oceanos em busca de novas conquistas para sua sede de expansão, a acumulação de riqueza associou-se sem problema às nobres motivações patrióticas e de propagação da fé cristã. A bordo das caravelas que zarpavam para o desconhecido, os navegadores transportavam, sem o saberem, a semente de imensa destruição e a maior ameaça de sempre para a mais débil das duas potências colonizadoras de então.

 Ainda os castelhanos usufruíam das preciosidades arrancadas à bruta da América do Sul, já o poderio lusitano esmagava-se contra as adagas em Alcácer-Quibir. E a independência soçobraria pouco tempo depois, à mercê do vizinho glutão e oportunista que não rejeitou o ensejo e invadiu o espaço que considerava seu. Foi apenas o pré-aviso do que se verificaria uns séculos depois, primeiro em Olivença e depois em Portugal inteiro.

 E de onde deriva um discurso tão radical, quando até estamos integrados na mesma União e só falta uniformizarmos a língua?

Vamos recuar à questão imperialista, enfatizando a boleia Quinhentista à ambição desmedida que produziu, a par com algumas realizações importantes, tão sinistros desfechos. Tinha então início uma estranha conjugação de interesses políticos e religiosos com a novidade mercantilista que, de alguma forma, cegou os intervenientes no processo de formação da nossa história. Um dos rostos mais visíveis dessa influência perniciosa foi o desenvolvimento global do pesadelo da escravatura, derivado dessa componente malévola de cada expedição. A história passaria a ser desenhada de acordo com os ditames do verdadeiro poder, o do dinheiro, e os mercadores ditariam as regras que hoje ainda prevalecem e estão na origem do título deste trabalho e do nacionalismo que parece ter inspirado estas linhas.

 A televisão portuguesa, com todos os canais em sintonia, sufoca os mais pequenos com um chorrilho infindável de publicidade a brinquedos de marca, antecipando em mais de um mês aquilo que interpretam como o espírito do Natal.

A maioria desses anúncios tentadores e infantis provém do mesmo local, a Espanha, e concretizam um domínio absoluto da economia portuguesa pelos poderosos do lado de lá da fronteira fictícia. Essa nova e bem melhor sucedida invasão já se fazia sentir em sectores tão determinantes como a banca, os seguros e, com índole mais territorial, no mercado imobiliário, com as empresas espanholas mais endinheiradas a comprarem um país aos bocadinhos. Tudo isso perante a passividade burguesa de quem não questiona repercussões, apenas as contabiliza.

 Essa atitude despreocupada, semelhante à da maioria da população abrangida pela União Européia, conduz a desmazelos, a faltas de atenção. E só isso justifica que nuestros hermanos de Castela e seus cúmplices por omissão nem cuidem de traduzir os seus apelos consumistas para a língua do país a que os dirigem.

E assim descobri, com uma filha a meu lado, que o “Assalto ao Castillo”, anunciado a propósito de um simples boneco qualquer, era a ponta do aríete com que os soldados da fortuna derrubam as muralhas da diferença, ocupam as ameias do controle e subordinam-nos a uma linguagem européia comum.

Agora, nesta Europa unida pela economia, falamos todos cifrão.

       


Nota da Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa portuguesa.

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