Texto de Origem Portuguesa
A DEUS
Senti-me
só naquela sala cheia de gente. Ouvia os sons, as vozes distantes de
muita conversa fiada, diálogo de ocasião, mas não entendia o que diziam
ou o que não queriam dizer.
Rostos
anónimos lançavam-me olhares ocasionais, inexpressivos. Como se
eu não estivesse ali. E não estava, de facto.
Vagueei
pelo salão como um holograma transparente, personagem de fantasia num cenário
irreal. Eu não era o protagonista. Talvez nem fosse sequer figurante
daquela película muda que o destino me exibia, purgatório imerecido,
assim o entendia.
Buscava
respostas sem conhecer as questões. Eternamente na dúvida, sem perceber
o que fazia ali e porque não estaria noutro lado qualquer. A deixar por
fazer coisas diferentes, para quebrar a monotonia de uma existência
absurda.
Ninguém
me ouvia gritar, ninguém me acudia. Minha presença naquele lugar era
menos que indesejada ou pouco mais do que indiferente. Por quanto
tentasse, nunca conseguiria verdadeiramente estar ali. Num mundo que não
era o meu, num tempo tão difuso que a minha parca compreensão da sua
passagem não conseguia abarcar. Sentia-me só e queria saber-me quem. Mas
não me sabia quando nem porquê. Tinha cara de ponto de interrogação. E
alma de caixeiro-viajante, sem nada para vender. Estava bera, o negócio
de ser.
Cada
vez era menos coisa alguma. Parecia afastar-me da realidade á que julgava
pertencer, de forma proporcional ao meu esforço de integração. Para
aonde, não o sabia. Contudo, o caminho que tomara rumava para longe dali
e dos outros lugares sem nome onde estivera ou não. Caminhava sempre no
sentido oposto do ponto em que acreditava encontrar-me, andava perdido. E
não fazia sentido andar às avessas, ou perder o norte a alguém que não
existia. Seria?
Precisava
pensar. Alinhar as idéias, estudar o guião. Desconhecia o papel que me
cabia na encenação, como poderia representar? Se ao menos distinguisse o
cariz da trama, vestiria o personagem em conformidade com a ocasião.
Assim, palavras tolas, orelhas moucas, falava sem sentido, como um actor
de comédia descontrolado no velório da sua pessoa mais querida.
Sentia-me despropositado, também.
Recordei
o sentido de uma frase de um filósofo radical alemão. “Não há
grandes homens, apenas bons actores a desempenharem o seu próprio
personagem. “ Uma farsa permanente, a existência, tendia a concluir.
Nas coisas sem sentido descobriam-se por vezes os nexos que faltavam. E
desvendavam-se mistérios supostamente ocultos por mera distracção
de
quem os analisava. Pareciam simples as respostas para quem sabia o que
perguntar. Mas a quem dirigir as questões?
Nunca
a todas aquelas figuras de papel desenhadas numa pláteia da vida específica,
num dado momento, numa outra dimensão. Elas não saberiam responder, não
entendiam as perguntas. Assistiam simplesmente ao desenrolar das tragédias
das suas próprias vidas desperdiçadas, a ignorarem o que teriam de mais
importante para viver. Espectadores desatentos de muitas histórias sem
final feliz. Fantasmas, no fundo.
Fez-se
silêncio no salão quando as luzes se apagaram. Só o palco resplandeceu,
com as cortinas de cetim a afastarem-se graciosas, a abrirem caminho para
o actor principal. E esse actor era eu, tal como me
conhecera.
Os
aplausos soaram, como se numa fracção de segundo eu tivesse
interpretado fielmente a minha passagem efémera pelo seu mundo.
Choraram e riram comigo, mas partilharam coisa nenhuma.
Depois,
o pano caiu. Eles permaneceram na sala, mal os ouvia a distância, na
mesma cadência de discursos vazios, sempre à espera da próxima actuação.
E
eu desapareci numa cortina de fumo, parti em digressão para outros
instantes em busca de algo. À procura de mim.
Nota da
Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa
portuguesa.
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