Texto de Origem Portuguesa
ÁGUAS
PASSADAS
As bocas movem-se e os sons esgueiram-se por entre lábios que
deviam saber beijar-nos a alma. Mas as palavras cuspidas não
fazem sentido. São sons incómodos que nos insultam a inteligência
por não fazerem sentido nenhum.
Falam de amor e de outras emoções, traídas pelo
olhar felino de quem desconfia do estranho que não as quer ouvir.
São bocas de plástico, instrumentos de sopro, música
sem nexo de quem escreveu na pauta notas amargas de fel. Adágio.
Hipocrisia sem Dó, Sol de inverno brilhando num glaciar, muito
frio, a estima a morrer numa ligação em marcha à
Ré. Cacofonia no discurso e balbúrdia na acção.
E nós engolimos pelos ouvidos coisas que nunca gostaríamos
de saber, amarrotamo-las bem fundo, bem longe da sensibilidade que nos
agridem.. Sentimo-nos órfãos sem lágrimas para
verter. Colamos o rosto ao vidro embaciado onde escorrem gotas sem sal
e sem dor, lágrimas de um céu triste por já não
ser azul. Mas o cinzento é passageiro. Nossa tristeza não.
Punhos cerrados, mordemos os lábios para reprimir o troco merecido
que luta por sair. Nossa força, minada pelo desalento, acaba
aí. Deixamos passar o tempo, distantes, fugimos da verdade que
detestamos e esperamos. Esperamos milagres que se recusam a acontecer.
Nada podemos fazer. Talvez sofrer.
Falam-nos, saudade genuína, do tempo feliz em que o silêncio
infantil lhes alimentava o desejo de poder eterno sobre as mais inócuas
decisões. Cristalizam nesses momentos o carinho que nos tiveram
e recusam aceitar como sua uma pessoa tão diferente do modelo
que desenharam, um modelo que não nos serve e lhes transforma
as vidas num inferno de falsas expectativas e inevitáveis desilusões.
E as bocas vão-se fechando aos poucos sob o manto de um novo
silêncio, incómodo, de quem já pouco ou nada tem
para dizer.
Parece que a vida cobre com uma névoa a memória do sentir,
esborrata a essência dos momentos especiais até deles só
sobrar uma simples fotografia dos sorrisos que já não
compreendemos. Parece que a vida, canalha, nos baralha o coração.
Parece que a malvada nos empurra e nos afasta do que fomos para uma
casca envelhecida de pessoas que nunca gostaríamos de ser. Outra
gente. De quem não gostamos.
Filhos de outrem, pais que não o são. As bocas, caladas,
suspiram em vão a pena de já terem sido o que nunca mais
serão.
Nota da
Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa
portuguesa.
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