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Jorge Gomes da Silva

Texto de Origem Portuguesa

 ÁGUAS PASSADAS 

As bocas movem-se e os sons esgueiram-se por entre lábios que deviam saber beijar-nos a alma. Mas as palavras cuspidas não fazem sentido. São sons incómodos que nos insultam a inteligência por não fazerem sentido nenhum.
Falam de amor e de outras emoções, traídas pelo olhar felino de quem desconfia do estranho que não as quer ouvir. São bocas de plástico, instrumentos de sopro, música sem nexo de quem escreveu na pauta notas amargas de fel. Adágio. Hipocrisia sem Dó, Sol de inverno brilhando num glaciar, muito frio, a estima a morrer numa ligação em marcha à Ré. Cacofonia no discurso e balbúrdia na acção.

E nós engolimos pelos ouvidos coisas que nunca gostaríamos de saber, amarrotamo-las bem fundo, bem longe da sensibilidade que nos agridem.. Sentimo-nos órfãos sem lágrimas para verter. Colamos o rosto ao vidro embaciado onde escorrem gotas sem sal e sem dor, lágrimas de um céu triste por já não ser azul. Mas o cinzento é passageiro. Nossa tristeza não.

Punhos cerrados, mordemos os lábios para reprimir o troco merecido que luta por sair. Nossa força, minada pelo desalento, acaba aí. Deixamos passar o tempo, distantes, fugimos da verdade que detestamos e esperamos. Esperamos milagres que se recusam a acontecer. Nada podemos fazer. Talvez sofrer.

Falam-nos, saudade genuína, do tempo feliz em que o silêncio infantil lhes alimentava o desejo de poder eterno sobre as mais inócuas decisões. Cristalizam nesses momentos o carinho que nos tiveram e recusam aceitar como sua uma pessoa tão diferente do modelo que desenharam, um modelo que não nos serve e lhes transforma as vidas num inferno de falsas expectativas e inevitáveis desilusões. E as bocas vão-se fechando aos poucos sob o manto de um novo silêncio, incómodo, de quem já pouco ou nada tem para dizer.

Parece que a vida cobre com uma névoa a memória do sentir, esborrata a essência dos momentos especiais até deles só sobrar uma simples fotografia dos sorrisos que já não compreendemos. Parece que a vida, canalha, nos baralha o coração. Parece que a malvada nos empurra e nos afasta do que fomos para uma casca envelhecida de pessoas que nunca gostaríamos de ser. Outra gente. De quem não gostamos.

Filhos de outrem, pais que não o são. As bocas, caladas, suspiram em vão a pena de já terem sido o que nunca mais serão.


Nota da Redação: Na revisão, manteve-se a originalidade da narrativa portuguesa.

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