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Ismar Pereira Filho



GENTE NÃO É GADO


“... Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata. Mas com
gente é diferente.”  Palavras do sertanejo da música “Disparada”, de
Geraldo Vandré.



O sertanejo lembra período da vida em que era como boi, sem consciência da própria força, e podia ser tangido ao bel-prazer do boiadeiro. Quis o acaso que o dono da boiada o elevasse à posição de boiadeiro, com a morte do peão que ocupava a função.

Da altura do lombo do cavalo, o sertanejo passou a conhecer duas realidades. A vida de boi e a de boiadeiro. A de tanger e a de ser tangido. A de mandar e a de ser mandado. A vida de rei e a de vassalo.

Deslumbrado, vivia como num sonho, comandando muito gado e muita gente, com laço firme e braço forte. Sentia-se um rei. Mas o mundo foi rodando nas patas do seu cavalo, enquanto ele sonhava. E, nos sonhos que foi sonhando, as visões foram se clareando... clareando..., até que um dia acordou.

Acordado, lúcido como nunca, abominou a vida de rei do gado. Não mais podia tanger. E já que um dia havia montado, visto o mundo do alto da montaria, era-lhe intolerável voltar a ser gado, tangido. Não lhe restava alternativa: ia ser “cavaleiro de um reino que não tem rei”.

Há quinhentos anos o povo brasileiro tem sido tangido por seus donos. Por isso o sertanejo da música viu que “a morte, o destino, tudo estava fora de lugar”. Somos campeões mundiais de ignorância, de fome, de miséria, de injustiças. Desconhecemos a cidadania plena, com seus direitos e deveres. Propositadamente ou por incompetência, nossas
escolas não têm conseguido mudar esse quadro. Nossas crianças vivem nas ruas, nos lixões, no crime. Nossos jovens e adultos não encontram trabalho. Nossos velhos não têm a quem recorrer senão ao Senhor Deus dos desgraçados, como outrora o fizeram debalde os escravos, no magistral poema de Castro Alves.

É preciso que nos ajudemos a “clarear a visão”.  Se nossas escolas relutam em nos educar para a cidadania, precisamos fazê-lo nós mesmos. Eu lhe ensino o que sei, e você me ensina o que sabe. Até entendermos que somos nós os legítimos donos do Brasil. Os boiadeiros que nos tangem há quinhentos anos são apenas usurpadores, opressores, sanguessugas,
ladrões. Disfarçados de elites.

Urge compreendermos que nosso individualismo, nosso egoísmo não nos trazem vantagens, senão infortúnios. E então votarmos só em gente comprometida com as mudanças que decidirmos necessárias, em discussões honestas e respeitosas. Caso nossa confiança seja traída, botaremos no olho da rua os traidores. Há muito deixei de ser boi. E há muito deixei de ser boiadeiro. Por dinheiro nenhum aceito tanger. Aprendi a dizer “não”. E viro o diabo se algum cabra safado tenta me tanger.

Não há cidadania com educação ruim. Quando nos educarmos uns aos outros nos assuntos da democracia, da liberdade, da justiça, da igualdade perante a lei, da solidariedade, do respeito às diferença de opinião, estaremos em condições de mostrar quem é que manda. E, transformados em “cavaleiros de um reino que não rei, laço firme e braço forte”, veremos
que a morte, o destino, tudo ainda está fora de lugar. Qual o sertanejo, daremos rumo certo à vida: “Eu vivo pra consertar”.

Com a força do verbo, Geraldo Vandré:  “Se você não concordar, não posso me desculpar. Não canto para enganar. Vou pegar minha viola. Vou deixar você de lado. Vou cantar noutro lugar.”

  • Ismar Pereira Filho é Tradutor/Revisor

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