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Ismar Pereira Filho


Competição versus Cooperação   


Não é sem motivo que somos tão confusos. Desde a mais tenra idade somos confrontados com a necessidade contraditória de ser egoístas (competitivos) e também bonzinhos (cooperativos). Logo percebemos a enrascada em que nos meteram. Às vezes, somos premiados por ser competitivos; outras, somos repreendidos. Quando resolvemos ser cooperativos, uns nos louvam, enquanto outros nos chamam de mané, bocó, babaca, otário – a lista de apelidos que dão aos que preferem a cooperação à competição parece não ter fim.

Competição significa que alguns ganham e outros perdem, que alguns são bem sucedidos e outros fracassam. Significa também que todos ficam infelizes, até os que ganham, pois nada garante que não se transformem em perdedores logo mais adiante. Isso não lhe parece uma forma imbecil de organização humana? Mantemo-nos em estado de guerra.

Uma sociedade humana baseada na competição é como um carro no atoleiro, o qual é empurrado para a frente e para trás ao mesmo tempo. A turma mais forte acaba levando o carro para onde deseja que vá, é claro. Mas não seria bem menos estressante todos empurrarem na mesma direção?
Alguém tido como divinamente sábio já disse que uma casa dividida contra si mesma não tem como se dar bem.

A competição é animal, é a lei do mais forte e do mais apto em ação. Vemo-la na natureza. Quem pode mais chora menos. O mundo vegetal e o animal, destituídos de inteligência ou tendo-a em medida apoucada, não
conhecem nada melhor. Mas mesmo aí há exceções – leguminosas e azotobactérias, por exemplo, vivem em fraternal simbiose, felizes para sempre.

Até o menos inteligente de nós, entretanto, conhece a excelência da cooperação. Intuitivamente sabemos estar no caminho certo quando ajudamos e somos ajudados. Os mutirões, tanto nos roçados quanto nas
cidades, patenteiam a excelência da cooperação. Não há perdedores. Todos saem ganhando.
Por que, então, insistimos na competição? Por que, então, só mui raramente cooperamos?

Somos ensinados, em casa, na escola e por toda parte, a admirar e buscar a superioridade. Nossos pais exigem que sejamos superiores aos meninos da vizinhança. Precisamos vencer no jogo, na briga. Na escola somos admirados quando conseguimos notas altas, quando somos os primeiros colocados; e ridicularizados ou ignorados quando as notas são baixas. Ser iguais não basta. Precisamos ser superiores. Precisamos ganhar medalhas. Estamos em eternas Olimpíadas.

"Yo no soy mariñero, soy capitán!" Lembra-se dessa música?
Ninguém quer ser marinheiro; todos querem ser capitães. E o resultado é que todos viramos "capetões".
Veja a situação do homem pobre, feio e sem cultura. Querendo ser alguém, que é que ele faz? Toma uns goles para ficar valente e trata de arranjar briga. Se não pode se destacar de outro modo, procura destaque
sendo brigão. Ou passa logo para o mundo da marginalidade, que não deixa de ser uma forma de destacar-se. Com isso pode conseguir alguma forma de respeito e "ser alguém".

Os belos ideais da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – ainda continuam no papel. A idéia era substituir a divisão social de nobreza, clero e povão pela República, na qual aqueles ideais seriam concretizados. Fracassamos. Continuamos a buscar superioridade – mais ricos, mais bonitos, mais famosos, mais fortes, mais rápidos, mais inteligentes, mais cultos, mais espertos, mais malvados, mais santos, mais ... E o que conseguimos? Basta olhar ao redor. Fome, miséria, inveja, ressentimento, ódio, tristeza, violência,
insegurança.

Esse imperativo de superioridade, passamo-lo às nossas organizações, instituições, empresas, países. Em vez da inteligente cooperação (um pelo outro), optamos pela burra competição (um péla o outro). Será que
ainda podemos sair dessa fria?

[Volta]