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Ismar Pereira Filho

 

HISTÓRIA UNIVERSAL DA CACHORRADA



Era uma vez um bando de cachorros. Havia abundância de ossos para todos e as brigas eram raras. Mas logo se multiplicaram muito e não havia ossos para todos. Foi quando os cachorrões inventaram a política e botaram ordem no bando. Ficou resolvido que os cachorros grandes ficariam com quantos ossos pudessem roer; os médios, com algo entre cinco e dez ossos cada um; os cachorrinhos, com as sobras, coisa de um a dois ossos per capita.

Os cachorros grandes e os médios adoraram a distribuição oficial de ossos. Os cachorrinhos não ficaram satisfeitos, mas alguns deles tinham a esperança de crescer e virar cachorros médios. Foi quando inventaram que a esperança é a última que morre. Outros, otimistas demais, sonhavam virar cachorrões.

A política da cachorrada sempre estava mudando, mas uma coisa nunca mudava: tudo girava em torno dos interesses dos cachorrões.

Certa feita, alguns cachorros médios ambiciosos inventaram a idéia da igualdade entre os cachorros. Assim, pensaram eles, seria possível obter o apoio dos cachorrinhos, que se haviam reproduzido ao ponto de constituírem uns 95% da cachorrada total. Pequenos demais para serem chefes, os cachorrinhos teriam de eleger cachorros médios para a função. Então propagou-se o lema: "Cada cachorro, um voto de igual valor". Por meio do voto, elegeriam chefes que cuidassem, com igual
desvelo, de toda a cachorrada, sem distinção de tamanho.

Os cachorrões, entretanto, refutaram veementemente a proposta, bem como o argumento besta da igualdade canina. Então a cachorrada miúda, liderada pelos médios, caiu de dentes no lombo dos grandes. Esse argumento não foi refutado. Os cachorrões, agora obsequiosos e sorridentes, até se ofereceram para ajudar a montar o futuro sistema de distribuição de ossos.

Pouco depois, os cachorrinhos e os cachorros médios elegeram, em eleições quase limpas, a totalidade dos chefes que administraria os ossos. Como previsto, os cachorros médios preencheram metade das vagas. A outra metade foi quase toda preenchida pelos cachorrões, que andaram
distribuindo ossos durante a campanha. Os miúdos, com seus discursos de latidos finos e fracos, convenceram poucos eleitores. Mas todos tinham sido eleitos para fazer valer a igualdade canina, principalmente na distribuição de ossos.

Mas qual o quê! Logo na primeira reunião, os eleitos se concederam, com a autoridade obtida nas urnas, o título de cachorrões. Após discussão sumária, resolveram que tinham direito a quantos ossos pudessem carregar. Aos cachorros médios e miúdos, sobrou a promessa solene de de ossos para todos.

Por relevantes serviços prestados aos cachorrões, alguns miúdos viravam cachorros médios, bem como alguns médios viravam cachorrões. Tudo de acordo com a disponibilidade de ossos e a necessidade de manter calmos e esperançosos os miúdos, que teimavam em subir na vida. Eis a lógica da mobilidade social no mundo cão.

Esta História Universal da Cachorrada compreende período que começa com a primeira família, passa pela atualidade e vai até a Grande Hecatombe, quando toda a cachorrada briga por ossos até a morte de todos.

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