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Ismar Pereira Filho

 

LIXÃO BRASIL


As cenas de crianças num lixão, catando porcaria para sobreviver, devem ter chocado pessoas ainda sensíveis. Se vasculharmos as causas que obrigam esses pequenos seres humanos a viver no lixo e do lixo, encontraremos a verdadeira imundície. Muito mais fétido que o lixo dos lixões é o lixo humano que causa essas e muitas outras cenas dantescas.

Isso é muito grave e temos obrigação de encontrar os culpados. E dar nome a cada um deles. Os culpados somos todos nós. Nenhum dentre nós, acima da idade da razão, é inocente desse crime hediondo. Exatamente! Somos uns lobisomens, todos nós. Temos nossa metade monstruosa. Até conseguimos dormir tranqüilos enquanto tanta gente dorme na rua, onde corre o risco de ser incendiada por nossos filhos brincalhões.

Essa mania de achar que merecemos, cada um de nós, o mundo inteiro e ainda, de lambuja, salvar nossas almas, é que torna o nosso mundo essa coisa feia, nojenta, cheia de violência. É isso que nos faz tão parecidos com porcos famintos que, no chiqueiro, distribuem dentadas entre si para ficar com toda a lavagem. Eis uma verdade cristalina, incontestável. Basta observar nossos motivos, nossas preocupações, nossas vaidades. Até mesmo nossos ideais mais altos estão contaminados por esse egocentrismo insano, pois o que realmente queremos é nos destacar, nos distinguir dos demais. Quem tiver coragem que abra os olhos e veja por si mesmo, sem intermediários.

Claro que o governo tem culpa! Mas ele apenas reflete nosso menoscabo com a sorte dos outros. Quanta gente vende o voto a bandidos em troca de favores pessoais? Os outros que se danem! Verbas destinadas a minorar a desgraça dos pobres foram encurtadas este ano pelo nosso governo, em cumprimento a ordens do FMI, e ainda não vi passeatas de protesto. Só sairemos às ruas quando sentirmos dores de parto em nosso bolso, quando ouvirmos o ronco de nossa barriga. Nunca o faremos em defesa dos outros.

Se você tem dúvida sobre nossa falta de solidariedade, tente conversar com outras pessoas sobre a necessidade de resolver o problema daquelas crianças que você viu no lixão. É altamente improvável que consiga interessar alguém pela sua conversa. Ninguém terá tempo para essa "besteira". Você vai se sentir um chato de galocha. E vai desistir.

Mas é preciso perseverar. Outras sociedades conseguiram resolver problemas como esse. Não encontraram a felicidade, basta examinar-lhes o semblante infeliz. Mas suas crianças não vivem no lixo. Então podemos conseguir o mesmo. Os países socialmente mais justos continuam habitados por pessoas tão egoístas quanto nós. A diferença é que seus pobres exigiram uma vida melhor. E os mais afortunados perceberam que não era inteligente comer tudo e deixar os pobres com fome e com raiva. Os "com-tudo" queriam andar em segurança pelas ruas, sem serem devorados pelos "sem-nada
".

É preciso que se ensinem noções fundamentais de justiça, de honestidade, de compaixão, de solidariedade, de fraternidade. Nas escolas, nos templos, nos lares, nas empresas, nos jornais, na televisão. Não como valores cosméticos, descartáveis, como coisas de maricas, mas como valores essenciais ao progresso, à segurança, à sobrevivência dos povos.
Quando um povo aprende esses valores, expulsa do governo e dos serviços públicos gente desonesta, incompetente. Num piscar de olhos.

[Volta]