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Ismar Pereira Filho

  

"Este texto foi publicado após o carnaval de 1999, no Diário de Sorocaba (17/06/99), e versa sobre a felicíssima homenagem que a União da Ilha prestou a Barbosa Lima Sobrinho. Resolvi republicá-la na EVIRT como que me despedindo desse grande brasileiro. Barbosa Lima Sobrinho morreu, mas sua fibra de cabra da peste ainda anda por aí, em homens e mulheres de todas as classes sociais, de todas as profissões, de todas as cores, de todos os credos."

 

 

 MEDALHA “CABRA DA PESTE”

 

Está instituída a medalha “Cabra da Peste”. A escola de samba União da Ilha teve essa feliz idéia com o enredo “Barbosa Lima, 102 anos de sobrinho do Brasil”.

 O enredo homenageia um jornalista de verdade, como deveriam ser todos os jornalistas. Com destaque para o traço mais importante desse honroso ofício: o caráter sem jaça, que, mesmo em prejuízo próprio e a despeito do medo, só dobra o cangote à verdade. De sobejo, o enredo ainda presta reverência ao povo castigado do Nordeste, dando significado envaidecedor ao epíteto “cabra da peste”.

 Em relação a Barbosa Lima Sobrinho, cabra da peste não é valentia gratuita. É valentia pela causa do bem comum, a serviço do progresso não excludente, das liberdades democráticas, das eleições limpas, das oportunidades iguais para todos, do Estado como servo do cidadão.

 O Brasil inteiro ouviu no Sambódromo uma multidão emprestar a voz ao velho jornalista: “Sou do Nordeste, sou cabra da peste. Meu país é meu patrão.”  Parafraseando: “Sou mais duro que rapadura. Ninguém manda em mim senão o meu país. Nenhuma causa é boa para mim, a não ser que seja boa para todos os brasileiros, principalmente os excluídos.”  Eis um cabra que não se dobra a interesses escusos nem de indivíduos nem de nações infames. Eis um cabra que sempre viveu para servir o povo brasileiro. Um cabra da peste.

 Oxalá cada município deste país produza cabras da peste em profusão, educando suas crianças nos assuntos da cidadania plena, dos direitos humanos, da ojeriza ao egoísmo exacerbado, das excelências da solidariedade e do respeito ao próximo. Oxalá esses cabras da peste substituam os cabras safados que há quinhentos anos vêm consolidando um país de párias, um país que nunca foi mãe gentil do cidadão comum, mas sim madrasta odienta e odiosa. O ideal de igualdade foi realizado aqui, sim, mas pelo avesso. Todos os cidadãos comuns valem o mesmo para os seus dirigentes: nada. É a igualdade à brasileira.

 Os cabras da peste estiveram sempre em minoria no poder, daí o subdesenvolvimento e a miséria em que vivemos. Praticar um jornalismo independente, entretanto, não é o caminho mais curto para uma vida confortável, senão para o desemprego e a exclusão. Paulo Henrique Amorim, excelente âncora do programa Fogo Cruzado, foi excluído da Band, e seu programa, extinto. Ele exigira somente o mínimo que todo jornalista tem a obrigação de exigir: independência. Fatos vergonhosos desse jaez ainda castram a valentia de muita gente. A bandeira perdeu todas as cores, menos a amarela.

Resta-nos esperar que os 102 anos de pura valentia de Barbosa Lima Sobrinho inoculem, com fibra e honradez de cabra da peste, não só os jornalistas, mas todos os profissionais brasileiros, de todas as áreas. Só precisamos disso. Nada mais.

 

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