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Ismar Pereira Filho

    

CRIANÇA DESESPERANÇA



Apesar da grande festa que se faz todos os anos no Dia da Criança, só consigo sentir nojo. Cheguei a pensar que algo de muito errado havia comigo por ficar tão enojado. Matutei até entender a causa de tão profundo nojo. Peço licença para vomitar. Volto já.

O Dia da Criança celebra não a criança, mas a hipocrisia dos adultos. É o dia em que a sociedade dos adultos tenta convencer-se de que se importa com as crianças sem esperança. Aí dá uma baita festa, arrecada dinheiro para o Unicef, algumas pessoas sorridentes recitam palavras doces e pungentes sobre as criancinhas e todos vamos dormir tranqüilos, como se tivéssemos resgatado a vergonhosa dívida que a Mãe Gentil das poucas crianças ricas tem com as muitas crianças pobres. Espetáculo patético! E nojento.

Essa data não celebra nosso amor pelas crianças, que isso não existe. É só pretexto para vender porcaria, para lucrar à custa das crianças. Entra ano, sai ano e nossas ruas e lixões continuam cheios de crianças sem esperança. E assim continuarão, pois não nos importamos nem um pouco com o azar de terem nascido pobres num país comandado, desde mil quinhentos e danou-se, por uma oligarquia de safados e danados. 

Que tal uma política séria de inclusão social das crianças pobres? Com renda mínima, educação de qualidade, assistência médica e dentária. Que tal um programa sério de recuperação de crianças e adolescentes delinqüentes? No Dia da Criança, comemoraríamos os resultados. Mencionei isso só por mencionar. Nada sério será feito em favor das crianças pobres. 

Para isso nunca haverá verba. Alegam que a verba é pouca e só dá mesmo para pagar salários altíssimos de certos cargos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Homenzinhos de baixa estatura moral e nenhuma vergonha na cara elevam os próprios salários a alturas criminosas, sem se importar com a miséria de milhões de excluídos. Quanto mais miserável o país, maiores os salários, privilégios e mordomias das classes dirigentes. É a ostentação típica dos subdesenvolvidos. Idi Amin Dadá que o diga. 

A verba dá também para maracutaias de toda ordem, entre as quais enriquecimento fácil e rápido de cortesãos. E é preciso manter satisfeita a mídia, com muita publicidade oficial. Tudo isso é muito caro. Conclusão: não sobra nada para crianças de rua, molambentas e catarrentas.

Fui menino de rua, favelado, criado sem pai. Sei que a sociedade não liga para crianças de rua. Na favela havia alguma solidariedade. Quando fomos morar fora da favela, com "gente boa", modelo de religiosidade e de moral, não vi solidariedade alguma. Minha mãe foi discriminada por ser separada do marido e, costureira, explorada pelas boas senhoras da vizinhança. 

Uma mulher com dois filhos macérrimos para sustentar não despertava nenhuma compaixão naqueles corações religiosos de filhas de Maria. Apostavam que eu me tornaria bandido e minha irmã, puta. Erraram. Minha mãe nunca saía da máquina de costura, e só saiu da miséria quando morreu, bem antes dos cinqüenta anos. Eis por que abomino hipócritas.

Nada sei sobre Criança Esperança. Sei tudo sobre Criança Desesperança e sobre Desespero de Crianças. Para as crianças pobres do Brasil, ainda não há esperança à vista. Tudo indica que, nos próximos anos, a situação dos pobres, principalmente crianças, vai piorar ainda mais. Em caso de dúvida, pergunte ao Fundo Monetário Internacional, braço direito da máfia de países hematófagos, que atende pela alcunha de FMI.


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