bannerartigos.gif (36969 bytes)

banner_publique2.gif (11775 bytes)

bannerpleno.gif (64299 bytes)

Ismar Pereira Filho

    

IMPORTÂNCIA RELATIVA DA ORTOGRAFIA  

 

  A simples troca de um “s” por um “z” pode botar tudo a perder.  E, se você errar na grafia de “exceção”, “misto”, “hesitar”, “êxito”, pode logo pôr fim à vida.  Aqui na Terra das Palmeiras, sem um bom padrinho e sem boa memória para grafar corretamente as palavras, sabiá não canta. Só dança.

 Aqui você pode expressar a opinião mais besta do mundo, pode até usar palavras para não dizer coisa alguma, desde que não cometa erros de ortografia.  Os demais erros de linguagem, fique à vontade para cometê-los, pois pouca gente vai criticar.  Erros de crase, de pontuação, de lógica, óbvios ululantes, demonstrações explícitas de burrice, tudo isso pode passar em branco, principalmente se, abaixo de seu nome, vier um cargo de alto nível ou um daqueles títulos acadêmicos que obrigam espíritos impressionáveis a cair de joelhos e renunciar ao bom senso.  Mas, atenção!  Nunca, nunca mesmo, troque uma letrinha.

 Estamos dando valor absoluto ao que tem valor apenas relativo.  Quer ver?  Copie o texto mais inteligente e belo que você já tenha lido. Agora, introduza nele alguns erros de ortografia.  Notará que ele continua inteligente e belo.  Já o texto cretino, obscuro e seboso, mesmo sem nenhum erro de ortografia, não tem conserto.  Só o fogo mesmo para dar jeito no danado.

 Ensinar a escrever é mais complicado do que fazer decorar grafia de palavras.  Escrever é pensar por escrito.  Quem não pensa com clareza jamais escreverá com clareza.  E você há de concordar comigo nisto:  texto confuso não tem razão de existir.  Portanto, o fardo sobre o lombo do professor de português é de quebrar o espinhaço de qualquer besta de carga.  O pobrezinho tem de ensinar a pensar, se quiser ensinar a escrever.

 Só vejo uma saída.  Cortar pela metade a carga de trabalho do professor de português e, claro, triplicar, quadruplicar, quintuplicar seu salário dele (Não, não sou professor de português). E a ênfase teria de migrar da ortografia para aquelas partes do estudo da língua que ajudam o estudante a pensar com clareza:  classificação e estudo das palavras, análise sintática (que deveria ter continuado com o nome antigo de análise lógica), concordância, estilística, vícios de linguagem.  Acrescente a isso leitura, muita leitura, de quem tem o que dizer e o diz com clareza, elegância e correção gramatical.  Esqueci alguma coisa?  Ah, sim!  Muita redação, para o pobre do professor corrigir.

 Dou grande importância a este assunto porque a vida em sociedade exige que nos comuniquemos com clareza.  E o que mais vejo é gente gaguejando coisas incompreensíveis.  Já assistiu a debates na televisão?  Fora aquela mania de todos falarem ao mesmo tempo, que é pura falta de respeito com o telespectador, dificilmente se entende o que os caras dizem.  Fica a impressão de que é pose demais para conteúdo de menos.

 Já leu algum daqueles manuais que acompanham produtos?  Aposto que não entendeu as instruções.  Já leu livros de informática?  Entendeu?  E a Ajuda dos programas de computador?  Também não entendeu?  Daqui a pouco teremos de fazer o caminho de volta às cavernas, pois seremos incapazes de transmitir, às futuras gerações, nosso acervo de conhecimentos.  Percebeu a relevância e a urgência do tema?

 Não estou fazendo apologia de erros ortográficos.  Mas estou dizendo que o conteúdo e a clareza do texto deveriam receber a ênfase que ora recai sobre a ortografia.  Afinal, quem garante que não haverá mais uma reforma ortográfica?  Farmácia já foi “pharmacia”, cafezinho já foi  “cafèzinho”.

 Escrever “xuxu”, “senoura”, “sebola” é pecado, sim, mas venial, pois ortografia só depende de memória.  Textos confusos, herméticos é que são pecados capitais.  Que tal dirigir nossa indignação para problemas de maior gravidade?

 Como exemplo de conteúdo primoroso em linguagem estranha aos padrões cultos da língua, basta evocar as cantigas de Luiz Gonzaga.  É poesia de fazer chorar qualquer retirante.  O conteúdo logra pairar sobranceiro sobre erros de ortografia e de ortoépia.  Em caso de dúvida, ouça  “Xote das Meninas”, "Derramaro o Gai", "O Torrado da Lili", "Casamento Improvisado", "Dança do Capilé" e todo o resto. Emocione-se, arrepie-se.  E chore de saudade.


[Volta]