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Ismar Pereira Filho
Distrito Federal

    

ANTES E DEPOIS DE LULA  

   
À época do Descobrimento, o Brasil era perfeito: a Mata Atlântica exibia toda sua exuberância; nossos rios eram limpos, lindos, piscosos; não havia nenhum animal em risco de extinção. Só havia uma pequena nódoa nessa paisagem paradisíaca: o conflito entre os vários povos indígenas, que às vezes se comiam uns aos outros só para quebrar a monotonia da paz.

Aí chegaram os portugueses e, com eles, a civilização, com muitos defeitos e poucas virtudes. Seu pior defeito era, e ainda o é, o de acumular bens indefinidamente, para morrer podre de rico. (Será que morrer rico é melhor que morrer pobre?) Exceto ciência e tecnologia, não é nada fácil encontrar virtudes na civilização. Pero que las hay, las hay.

Então o pau comeu feio. Todo pau-brasil que não conseguiu fugir foi derrubado e embarcado para o oco do mundo. Índios foram dizimados ou escravizados. E criou raízes a idéia de que certos homens só existem para servirem de capacho a outros homens. O Brasil então tinha uns poucos donos. O "manda quem pode, obedece quem tem juízo" virou instituição nacional. Um esboço de pirâmide social germinava em nossas matas.

Logo os negros desembarcaram, feridos, famintos, agrilhoados. Era o Brasil ficando ainda pior. Então havia a classe dominante, de um lado, e os escravos e o povo, de outro. (Na verdade, isso não mudou quase nada, nem com a Independência nem com a República nem com reza braba.) O Brasil continuava mãe gentil da classe dominante e madrasta de todo o resto.

A escravidão foi abolida tão logo se mostrou antieconômica. O voto tornou-se universal, e os currais eleitorais também. Mas o povo foi mantido na ignorância e na miséria, sem as quais fica difícil manipular e explorar qualquer povo. Era o Império da Lei... do Cão.

Hoje, depois de muitos outros acontecimentos, estamos mais ou menos na mesma. Na verdade, estamos em pior situação, pois quase ninguém tem casa com quintal, onde possa cultivar parte de seu alimento. Estamos desempregados e sem quintal. E sem chuchu, sem couve, sem cebolinha, sem coentro, sem limão, sem laranja... É a esparrela da modernidade terceiro-mundista.

Da Mata Atlântica, quase nada mais resta. Nosso solo agrícola está sendo destruído pela ganância e pela ignorância, com monoculturas, com venenos, com erosão, com queimadas. E que dizer da destruição da Amazônia?

Nossos rios e córregos são hoje esgotos a céu aberto. Muitos já morreram. Outros, incluindo o Velho Chico, agonizam. A água do subsolo está acabando. As grandes cidades, asfaltadas, não permitem a reposição da água subterrânea. A agricultura irracional, descuidada e criminosa, leva milhões de toneladas de terra agricultável para os rios, além de envenenar o lençol freático.

É verdade que quase todos têm acesso à escola, mas não à educação. Nossas escolas são péssimas. Isso não é apenas uma opinião. É fato que pode ser confirmado com um teste muito simples. Você vai encontrar no segundo grau, e até nas faculdades, grande número de analfabetos funcionais: estudantes que não entendem aquilo que lêem.

Como se isso tudo não bastasse, temos corrupção por todos os lados: tribunais de conta aprovando contas de ladrões, juízes vendendo liminares, impunidade, saúde pública que não serve nem para animais, banqueiros vampiros, estradas vagabundas, assaltantes, traficantes, etc etc.etc.

Até este ponto, examinamos o Brasil antes de Lula.

Lula é a esperança de um Brasil governado no interesse do povo, com educação de qualidade, com emprego, com salários dignos, com saúde, com mesa farta, com transportes urbanos satisfatórios, com corruptos na cadeia, com juros civilizados, com reforma agrária inteligente e pacífica.

Excesso de esperança? Sê-lo-ia, fosse Lula apenas um homem. Mas ele é também uma idéia, um sonho: o sonho de um Brasil justo com todos os seus filhos, compartilhado hoje por milhões de pessoas afeiçoadas a vários partidos políticos. Finalmente, há massa crítica para uma revolução eficaz: aquela em que a única arma disparada é o voto consciente.

O tempo da corrupção, dos intocáveis, dos vampiros, dos especuladores, das quadrilhas acabou. Agora é Lula. Lula e o sonho que ele representa. Sonho poderoso porque sonhado por multidões.

A data da posse de Lula deverá assumir maior importância que todas as demais datas nacionais juntas. É a data em que o Brasil começará a ser entregue, pela primeira vez, ao seu povo. É o raiar da verdadeira democracia: governo do povo, pelo povo, para o povo. Agora é trabalho, trabalho e mais trabalho.

É só isso! É tudo isso!


  • Ismar Pereira Filho é Tradutor/Revisor.

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